
O advogado de defesa Kevin Reddington e Lindsay Clancy ouvem a gravação da ligação para o 911 feita em 24 de janeiro de 2023, durante o julgamento de Clancy por homicídio no Tribunal Superior de Plymouth
David L. Ryan/The Boston Globe via AP, Pool
A norte-americana Lindsay Clancy chorou no tribunal nesta quarta-feira (29) enquanto jurados ouviam a ligação feita ao serviço de emergência 911 pelo então marido dela, Patrick Clancy, após ele encontrar os três filhos do casal mortos na casa da família, nos Estados Unidos, em janeiro de 2023.
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Na gravação, de cerca de sete minutos, Patrick conversa primeiro com a esposa, que estava gravemente ferida e sangrando no quintal após pular da janela do segundo andar da casa.
“Olhe para mim. Diga meu nome”, afirma ele.
Em seguida, Patrick diz à atendente do 911 que vai procurar as crianças. Pouco depois, começa a gritar e chorar ao encontrá-las no porão da residência. Sem entender o que havia acontecido, a atendente pergunta repetidas vezes o que estava ocorrendo.
“Ela matou as crianças!”, responde ele aos gritos.
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Três anos após as mortes, o julgamento se concentra no estado mental de Lindsay Clancy no momento do crime. A defesa tenta convencer os jurados de que ela sofria de psicose pós-parto, um transtorno psiquiátrico raro associado ao estresse, à privação de sono e às alterações hormonais após o parto.
Já a Promotoria afirma que Clancy, ex-enfermeira obstétrica, matou intencionalmente os filhos Dawson, de 3 anos, Cora, de 5, e Callan, de 8 meses, em janeiro de 2023, e deve ser responsabilizada criminalmente pelas mortes.
Na abertura do julgamento, na segunda-feira (27), o advogado de defesa afirmou que Lindsay tinha transtorno bipolar e que antidepressivos prescritos após o nascimento do terceiro filho agravaram o quadro.
Segundo ele, no dia do crime ela ouviu uma voz dizendo: “Esta é sua última chance. Mate as crianças para que você possa se matar”.
Se for condenada por homicídio, Lindsay poderá receber prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional. Caso os jurados concluam que ela não tinha responsabilidade criminal por causa da condição mental, ela será internada em uma instituição psiquiátrica estadual.
Patrick Clancy já afirmou em entrevistas que perdoa a ex-esposa, por acreditar que ela estava doente e não agiu por maldade. O julgamento marca a primeira vez que os dois se reencontram desde as mortes das crianças.
Depoimento do pai e ligação ao 911
Patrick Clancy no banco das testemunhas. O julgamento do assassinato de Lindsay Clancy ocorre no Tribunal Superior de Plymouth
David L. Ryan/The Boston Globe via AP, Pool
Em depoimento nesta quarta-feira, Patrick Clancy contou que a última imagem que guarda do filho Dawson é a do menino sentado no sofá, comendo nuggets de frango e vagem.
Segundo a Promotoria, Lindsay pediu que o marido saísse rapidamente para buscar comida e comprar um medicamento para a filha Cora em uma farmácia. Os promotores afirmam que esse pedido foi uma forma de tirá-lo de casa para cometer o crime.
Os jurados assistiram a imagens de câmeras de segurança da farmácia que mostram Patrick falando ao telefone com a esposa para tirar uma dúvida sobre o remédio.
“Ela estava bem quieta. Parecia ocupada”, disse Patrick. “Lembro de desligar pensando que ela provavelmente estava dando banho nas crianças ou fazendo algo parecido.”
Ao voltar para casa, ele estranhou o silêncio. Chamou pela família, mas ninguém respondeu.
Patrick procurou as crianças nos quartos e no banheiro, imaginando que estivessem na banheira. Depois encontrou sangue no quarto do casal e percebeu que uma janela estava aberta.
Mesmo ferida, Lindsay ainda estava consciente. Segundo Patrick, ela disse que havia tentado tirar a própria vida e informou que as crianças estavam no porão, sem dizer que estavam mortas.
Ele não percebeu que ainda permanecia na linha com o serviço de emergência enquanto corria para o porão, onde encontrou os três filhos estrangulados com faixas elásticas de exercício físico.
Os pais de Lindsay, que acompanhavam o julgamento na primeira fila do tribunal, também choraram enquanto a gravação era reproduzida. Patrick já havia deixado a sala após concluir seu depoimento.
Os jurados também viram as roupas que cada criança usava no dia das mortes. A Promotoria retirou as peças de sacos plásticos usados para armazenar provas.
Julgamento gira em torno da saúde mental
A promotora assistente Jennifer Sprague exibe como prova o pijama de Callan Clancy durante o julgamento do assassinato de Lindsay Clancy no Tribunal Superior de Plymouth, em Plymouth
David L. Ryan/The Boston Globe via AP, Pool
Na segunda-feira, Patrick já havia relatado aos jurados que a saúde mental da esposa se deteriorou nos meses que antecederam o crime. Segundo ele, Lindsay contou que tinha pensamentos intrusivos sobre machucar os filhos e também sobre suicídio.
Ela procurou especialistas em transtornos de humor relacionados ao pós-parto, recebeu diversos medicamentos psiquiátricos e chegou a ser internada em um hospital psiquiátrico. As crianças foram mortas 19 dias após ela receber alta.
Patrick afirmou que nenhum médico ou profissional de saúde jamais o orientou a não deixar Lindsay sozinha com os filhos.
“Eu nem sabia o que era psicose até que tudo isso aconteceu”, afirmou.
Neste ano, Lindsay e o ex-marido moveram ações judiciais acusando os profissionais de saúde que a atenderam de não diagnosticar, tratar e acompanhar adequadamente sua condição.
Durante o interrogatório da defesa, o advogado Kevin Reddington tentou demonstrar que Lindsay seguia corretamente o tratamento e registrava cuidadosamente a piora do estado mental.
Ele apresentou anotações diárias feitas por ela sobre os medicamentos que tomava e seu humor. Em vários registros, Lindsay escreveu a expressão “pensamentos horríveis”.
Ela também mantinha um livro e um folheto sobre ansiedade pós-parto, além de uma tabela para acompanhar a evolução do estado emocional.
O advogado também destacou que muitas das consultas realizadas por Lindsay a partir do segundo semestre de 2022 foram feitas com enfermeiros especializados e por videoconferência, com duração de apenas 20 minutos.
Os dois ainda revisaram a sequência de medicamentos prescritos à paciente, incluindo o antipsicótico Seroquel, cuja dose foi aumentada pelos médicos em dezembro de 2022.
“A ideia era que isso ajudasse no sono, mas ela não melhorou. Ela piorou”, afirmou Patrick.
