Martinelli saiu do Arsenal? Por que o caso virou problema no mercado

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Martinelli saiu do Arsenal? Por que o caso virou problema no mercado

Gabriel Martinelli vive um dos momentos mais delicados de sua trajetória no Arsenal. Aos 25 anos, o brasileiro deixou de ser uma peça importante no time de Mikel Arteta e passou a ser tratado pelo clube como um jogador negociável. Justamente em um momento em que sua carreira entra em uma fase decisiva também pela seleção brasileira.

O problema não é apenas a possibilidade de venda: é como o Arsenal chegou até aqui. Martinelli não vem de uma boa temporada, perdeu espaço e o clube tentou contratar Vinicius Júnior para ocupar justamente o setor em que ele atua. Agora, negocia sua saída.

Ao mesmo tempo, o brasileiro não teria sido comunicado diretamente de que os Gunners pretendiam negociá-lo. Isso transforma uma decisão esportiva razoável em uma situação desconfortável. E, segundo apurou a Trivela, Martinelli tem conversas com outros clubes da Europa para além dos recentes interesses de Al-Hilal e Galatasaray.

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Martinelli já não é o jogador de 2022/23

É preciso começar pelo ponto mais incômodo: o Arsenal tem motivos esportivos para questionar Martinelli. O brasileiro atingiu seu auge na temporada 2022/23, quando marcou 15 gols e deu cinco assistências na Premier League. Foram 20 participações diretas em gols em uma campanha na qual ele era um dos principais símbolos da juventude e da explosão física do Arsenal.

Desde então, porém, sua produção caiu. Em 2023/24, foram seis gols e quatro assistências no campeonato. Em 2024/25, oito gols e quatro assistências. Não são números ruins, mas abaixo do que se esperava depois de uma temporada de consolidação. E o último campeonato foi particularmente decepcionante: um gol e três assistências em 26 aparições na Premier League, apenas dez delas como titular.

Não é apenas uma questão de estatística. Martinelli perdeu parte daquela capacidade de transformar velocidade em vantagem territorial que fazia dele um atacante tão perigoso. Seu melhor futebol aparece quando recebe espaço para atacar a última linha, acelerar em direção ao gol e pressionar a saída adversária.

Martinelli pelo Arsenal. Foto: IMAGO / Mark Pain

O problema é que o Arsenal de Arteta passou a enfrentar cada vez mais equipes muito baixas, e isso exige dos pontas uma capacidade maior de criar em espaços reduzidos, combinar por dentro e produzir vantagens posicionais. Bukayo Saka conseguiu se adaptar a esse contexto. Martinelli, não tanto. E isso ajuda a explicar por que a posição se tornou uma das prioridades do Arsenal.

Por outro lado, o Arsenal sabe que precisa melhorar a ponta esquerda. Na direita, Saka é indiscutível. Na esquerda, porém, Arteta nunca encontrou uma solução tão confiável. O clube chegou a tentar uma de enorme impacto: Vinicius Júnior.

O brasileiro do Real Madrid ofereceria algo que Martinelli já não consegue entregar com a mesma regularidade: capacidade de eliminar adversários no um contra um, atacar profundidade, acelerar transições e produzir gols sem depender tanto da estrutura coletiva. A negociação não avançou e Vinícius decidiu permanecer em Madri.

Antes, o Arsenal contratou Christos Tzolis, enquanto Leandro Trossard deixou o clube. E Tzolis pode se tornar um excelente jogador, como tem mostrado em suas atuações no início da temporada, mas ainda não é um atacante do patamar de Vini e nem chega com a expectativa de imediatamente transformar o setor.

Isso cria um dilema: se Martinelli sair, o Arsenal terá menos um ponta capaz de oferecer profundidade e explosão, mas continuará sem ter encontrado o jogador de elite que queria para a posição. Esse é um argumento importante para questionar a decisão de simplesmente se desfazer do brasileiro.

Arsenal errou ao não ser claro com Martinelli

Mikel Arteta, técnico do Arsenal (Foto:IMAGO / Mark Pain)
Mikel Arteta, técnico do Arsenal (Foto: IMAGO / Mark Pain)

O Arsenal vinha trabalhando para encontrar uma solução para Martinelli e chegou a receber uma proposta de cerca de 45 milhões de euros do Galatasaray. O brasileiro, porém, não demonstrou interesse em se transferir para a Turquia.  O ponto mais estranho foi outro: Martinelli não teria sido informado diretamente pelo Arsenal de que o clube queria negociá-lo.

Ou seja: um jogador que está no Arsenal desde 2019, disputou 278 partidas, marcou 62 gols e deu 36 assistências, e que foi protagonista na construção do time que recolocou o clube na disputa pelo título inglês, descobriu por meio do mercado que seu clube estava procurando comprador.

Isso é delicado porque Martinelli não é um jogador qualquer no processo recente de reconstrução do Arsenal. Ele chegou ainda adolescente, evoluiu dentro do projeto de Arteta e foi parte importante da equipe que voltou a competir pelo título inglês.

Mesmo que a decisão de vendê-lo seja correta, há maneiras melhores de conduzir a situação, ainda mais levando em consideração que o Arsenal construiu nos últimos anos uma cultura de grupo muito forte. A relação entre treinador, jogadores e torcida virou um dos pilares do projeto. Tratar Martinelli como um ativo negociável sem uma conversa franca não combina com essa construção.

As alternativas de Martinelli não eram exatamente atraentes

Também é preciso colocar o outro lado na mesa: Martinelli não recebeu uma fila de gigantes europeus. O Galatasaray apareceu com uma oferta relevante, mas o brasileiro não quis jogar na Turquia e a negociação acabou não avançando. Isso é compreensível do ponto de vista do jogador.

Martinelli tem 25 anos, já foi titular do Arsenal em campanhas de Champions League e Premier League e ainda está no radar da seleção brasileira. É razoável que queira continuar em um ambiente competitivo de alto nível. Mas isso também cria um problema para o Arsenal.

Quanto menos clubes interessados, mais difícil é conseguir o valor desejado. Recentemente, apareceu o Al-Hilal. A Trivela confirmou que o clube saudita iniciou conversas com o Arsenal e representantes do jogador. É uma proposta diferente daquela do Galatasaray também pelos valores: os sauditas podem pagar mais ao clube e ao jogador.

Martinelli celebra gol pelo Arsenal
Martinelli celebra gol pelo Arsenal (Foto: Matteo Gribaudi / Gribaudi ImagePhoto / IMAGO)

Por outro lado, a reportagem ouviu que Martinelli também tem conversas com outros dois clubes europeus, para além das tratativas com o Al-Hilal. Os clubes em questão não foram revelados, mas ainda há margem para o brasileiro permanecer em um grande centro europeu.

Ainda assim, com o Al-Hilal, a discussão deixa de ser apenas sobre Arsenal e mercado. Martinelli está entrando em um momento importante da carreira e sua decisão sobre o próximo clube mudaria muita coisa. 

A seleção brasileira está prestes a iniciar um novo ciclo depois da Copa do Mundo. A disputa por posições no ataque será enorme, especialmente com jogadores como Vinícius Júnior, Raphinha, Rodrygo, Estêvão e outros nomes surgindo.

Nesse cenário, jogar regularmente na liga saudita não é necessariamente a melhor maneira de permanecer no centro da discussão pela Seleção. Não significa que uma transferência para o Al-Hilal automaticamente encerre suas possibilidades, mas o contexto muda.

Aos 25 anos, Martinelli ainda deveria estar entrando no auge de sua trajetória. Uma transferência para a Arábia Saudita pode ser excelente financeiramente, mas representa uma escolha esportiva bastante diferente daquela que parecia provável alguns anos atrás.

A questão ainda mais estranha: a justificativa de Arteta

Esse é um ponto que merece ser corrigido porque envolve as regras da Premier League. Arteta vem falando sobre a necessidade de administrar a composição do elenco e a questão dos jogadores formados localmente, os homegrowns. O problema é que Martinelli é, oficialmente, um jogador formado na Inglaterra para efeito da regra da Premier League.

A definição da liga exige que o jogador tenha sido registrado por um clube afiliado à FA ou à Federação Galesa durante pelo menos três temporadas completas, ou 36 meses, antes de completar 21 anos, independentemente de sua nacionalidade. E Martinelli aparece na lista oficial de jogadores homegrown do Arsenal.

Isso não é uma interpretação: o próprio registro oficial da Premier League marca Martinelli com o asterisco de jogador formado na Inglaterra — ele chegou aos 18 e ficou no clube até os 21. Portanto, se a justificativa for que Martinelli não pode ser utilizado porque o Arsenal precisa cumprir a cota de homegrown, ela não se sustenta.

O Arsenal pode registrar até 25 jogadores no elenco principal, sendo no máximo 17 que não cumprem os critérios de homegrown. Martinelli ocupa justamente uma das vagas que contam para a cota inglesa. Isso não significa que ele tenha necessariamente de jogar e Arteta pode simplesmente preferir outros jogadores. Mas é importante separar as duas coisas: uma limitação de elenco não impede Martinelli de ser relacionado pela regra de formação.

O Arsenal precisa decidir o que quer ser

No fundo, o caso Martinelli resume uma questão maior do Arsenal. O clube chegou ao topo da Premier League depois de uma reconstrução paciente. Em 2025/26, conquistou o Campeonato Inglês pela primeira vez em 22 anos e terminou a temporada também como vice-campeão da Champions League, perdendo a final para o PSG nos pênaltis. Agora, a régua mudou.

Não basta montar um elenco competitivo. Arteta precisa de jogadores que possam decidir uma semifinal de Champions, uma reta final de Premier League, um jogo travado contra um adversário que se fecha completamente. Saka já é esse jogador, Vinicius poderia ser outro. Martinelli, neste momento, não parece estar nesse grupo.

A venda, portanto, pode fazer sentido. A maneira como ela está sendo conduzida, talvez não. E existe outra ironia: o Arsenal pode acabar vendendo um ponta de 25 anos para financiar a busca por outro ponta, depois de ter tentado contratar o melhor jogador do mundo para a posição.

Se o substituto for realmente melhor, ninguém lembrará da polêmica comeMartinelli. Mas se Tzolis precisar de tempo, se o Arsenal não encontrar outro jogador de elite e se a equipe sentir falta de velocidade e profundidade pela esquerda, a decisão poderá parecer precipitada.

E, para Martinelli, trocar Londres pela Arábia Saudita, por exemplo, justamente quando começa um novo ciclo da seleção brasileira, pode ser ainda mais arriscado. O Arsenal tem o direito de entender que chegou a hora de seguir sem ele, mas talvez deveria ter tido a mesma clareza com o jogador.