Duas rodadas, duas derrotas, nenhum ponto e nenhum gol marcado. Para um Tottenham que entrou na temporada cercado de expectativa depois de uma profunda reformulação do elenco, o começo da Premier League é, no mínimo, desconfortável.
A derrota por 3 a 0 para o Brentford já havia exposto problemas de organização, intensidade e entrosamento. Contra o Newcastle, neste sábado (29), os Spurs mostraram evolução, mas novamente saíram de campo sem pontuar. Anthony Elanga e Yoane Wissa marcaram no segundo tempo para confirmar o 2 a 0 dos visitantes.
O problema, porém, não parece ser simplesmente falta de qualidade. O Tottenham está tentando fazer várias coisas ao mesmo tempo: absorver uma quantidade enorme de jogadores novos, mudar completamente sua identidade de jogo e adaptar-se às ideias de Roberto De Zerbi. E, neste momento, o time ainda não parece saber exatamente como fazer isso.
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Um novo Tottenham tentando aprender um futebol complexo
O primeiro ponto para entender o Tottenham é que existe uma diferença entre contratar bons jogadores e construir um bom time. O clube investiu pesado no mercado e promoveu uma verdadeira reconstrução do elenco. Sandro Tonali, Mateus Fernandes, Jan Paul van Hecke, Marcos Senesi, Andy Robertson, Savinho e Omar Marmoush e outros chegaram para formar uma equipe muito diferente daquela que vinha sendo utilizada nas últimas temporadas.
O problema é que De Zerbi não está propondo simplesmente uma troca de peças. Ele está introduzindo um modelo de jogo que exige enorme coordenação coletiva.
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O italiano historicamente trabalha com uma saída de bola extremamente elaborada. Seus zagueiros e goleiro são utilizados para atrair a pressão adversária para zonas profundas do campo. A ideia é fazer o adversário acreditar que pode recuperar a bola e, justamente quando ele se aproxima, encontrar uma saída pelo espaço criado às suas costas.
É uma espécie de armadilha deliberadamente arriscada: o time atrai o adversário para depois escapar da pressão e acelerar o jogo quando encontra o espaço. Isso exige repetição. O zagueiro precisa saber quando conduzir. O volante precisa saber quando aparecer. O lateral precisa entender quando abrir ou entrar por dentro. O atacante precisa reconhecer quando recuar para oferecer apoio e quando atacar a profundidade.
Se um jogador se movimenta meio segundo atrasado, a engrenagem quebra. E é exatamente isso que o Tottenham parece estar vivendo nesse momento. A pressão do Newcastle expôs o problema
O Tottenham tentou pressionar, mas a primeira linha não funcionou de maneira coordenada. Em determinado momento, Mateus Fernandes avançou para pressionar e acabou sendo eliminado por um único passe que tirou três jogadores do lance.
Isso é perigoso para De Zerbi porque sua equipe não quer simplesmente defender em bloco baixo. Ela quer recuperar a bola em determinadas zonas e, ao mesmo tempo, controlar o que acontece quando perde a posse. Para isso, é necessário que os jogadores estejam próximos uns dos outros e que saibam exatamente quem deve saltar à pressão.
O Newcastle, apesar de ter chegado apenas algumas semanas com Matthias Jaissle, aparentou ter uma identidade mais clara: circulação pelas pontas, rotações e uma estrutura defensiva compacta. É uma comparação particularmente incômoda para o Tottenham.
De Zerbi teve toda a pré-temporada para trabalhar, mas uma parte considerável do elenco estava indisponível ou sem condição física ideal por causa da Copa do Mundo, das lesões e da própria excursão de pré-temporada.
O Tottenham ainda não sabe quem deve ocupar cada espaço
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O jogo contra o Newcastle também mostrou outro problema: De Zerbi ainda está procurando as melhores combinações. Pedro Porro, por exemplo, apareceu como ponta-direita, enquanto Archie Gray ocupou a lateral. É uma ideia que pode fazer sentido dentro de um futebol baseado em superioridades posicionais, mas que exige muita coordenação.
Mateus Fernandes, por sua vez, apareceu mais adiantado, como camisa 10, embora suas melhores atuações anteriores tenham acontecido em uma posição um pouco mais recuada. Tonali também ainda está procurando seu espaço.
O italiano é justamente o tipo de jogador que pode ser extremamente importante para De Zerbi: técnico, agressivo na condução, capaz de jogar sob pressão e de acelerar a circulação. Mas isso só acontecerá quando ele tiver ao seu redor jogadores que entendam como se relacionar com ele. O Tottenham tem bons jogadores, mas ainda não tem boas relações entre esses jogadores.
A melhor notícia da derrota foi Omar Marmoush. O egípcio foi um dos poucos jogadores capazes de produzir soluções individuais para um time que ainda não consegue criá-las coletivamente. Marmoush recuou para receber, atacou os zagueiros, conduziu a bola e criou situações de um contra um. Em uma delas, deu uma caneta em Nico González antes de finalizar rente à trave.
De Zerbi precisa de jogadores capazes de transformar a vantagem criada pela saída de bola em vantagem ofensiva real. Não basta escapar da pressão: depois de quebrar a primeira linha adversária, é preciso alguém capaz de atacar o espaço ou superar um marcador.
É justamente por isso que jogadores como Marmoush e Sávio podem ser tão importantes para esse Tottenham. Sávio, aliás, já havia mostrado isso na goleada por 5 a 1 sobre o Charlton, pela Copa da Liga, quando entrou no segundo tempo e teve uma estreia brilhante, marcando duas vezes.
O ataque ainda não virou um conjunto e o problema defensivo
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Contra o Newcastle, Marmoush frequentemente precisou abandonar sua posição para buscar a bola porque não recebia em condições favoráveis. Quando isso acontece, alguém precisa ocupar o espaço deixado por ele. O sistema precisa reagir ao movimento.
Esse tipo de mecanismo é justamente uma das marcas dos melhores times de De Zerbi. No Brighton, por exemplo, a atração da pressão servia para encontrar rapidamente jogadores abertos em situações de um contra um. A equipe criava deliberadamente esses confrontos depois de manipular a estrutura adversária. O Tottenham ainda está na fase anterior: muitas vezes, sequer consegue sair da pressão de maneira limpa.
Mas a questão não é apenas ofensiva. De Zerbi sempre foi um treinador de alto risco e seu modelo exige que a equipe aceite determinadas situações de igualdade ou até inferioridade numérica para ganhar superioridade em outro setor. Quando funciona, o resultado pode ser espetacular. Quando não funciona, a equipe fica exposta.
Foi algo que apareceu durante sua passagem pelo Brighton. A construção curta e a atração da pressão eram extremamente sofisticadas, mas também podiam gerar situações perigosas quando a pressão adversária conseguia recuperar a bola em zonas avançadas.
E o Tottenham ainda precisa aprender a defender depois de perder a bola. O elenco foi montado para um futebol diferente daquele praticado na temporada anterior. A equipe está mudando simultaneamente o treinador, os jogadores, os comportamentos com bola e os comportamentos sem bola.
Existe ainda um problema que vai além da tática: o Tottenham precisa recuperar o hábito de vencer. O retrospecto recente em casa é preocupante. Na temporada passada, o Spurs venceu apenas três de seus 19 jogos como mandante na Premier League.
Por isso, a derrota para o Newcastle não pode ser analisada apenas como um tropeço de início de trabalho. Existe uma pressão maior para que o novo projeto rapidamente transforme o Tottenham em uma equipe capaz de dominar partidas em seu próprio estádio.
Há, portanto, uma conclusão neste momento: seria precipitado considerar o projeto de De Zerbi um fracasso depois de duas rodadas. O próprio treinador admitiu, após a derrota para o Brentford, que o Tottenham ainda não era uma equipe de verdade.
De Zerbi está tentando construir uma equipe extremamente dependente de mecanismos coletivos com jogadores que, em muitos casos, ainda estão conhecendo seus companheiros. O desafio será encontrar o equilíbrio entre manter suas convicções e simplificar algumas coisas enquanto o time ainda aprende.
