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A gravidez é um momento muito aguardado por uma parcela das mulheres — estima-se que até quatro em cada dez brasileiras têm uma gestação planejada. Por isso mesmo, é também um período em que podemos ficar vulneráveis a desinformação e falsas promessas.
Há alguns meses, por exemplo, viralizaram vídeos sobre um tal de “trimestre zero”. Ele seria um período de 90 dias que antecedem o início das tentativas para engravidar, no qual a mulher deveria adotar uma série de restrições alimentares e seguir um estilo de vida mais regrado com o propósito de “desintoxicar o corpo“, “impulsionar a fertilidade” e produzir óvulos “melhores”, como citam os vídeos.
A ideia de aderir hábitos mais saudáveis é, de fato, muito bem-vinda — nessa e em qualquer outra fase da vida. Porém, a forma como isso é feito pode ser uma cilada. Em VEJA SAÚDE, já explicamos, por exemplo, que o discurso de que o nosso corpo está intoxicado e pode ser desinflamado por dietas é balela.
Para Porto, tendências nas redes sociais têm levado mulheres a fazer mudanças radicais que trazem mais riscos do que benefícios. De acordo com especialistas, é preciso descomplicar e esclarecer o tema.
“Eu resumiria o planejamento da gravidez de uma maneira muito simples: não é preciso buscar a perfeição“, garante Eura Martins Lage, membro da Comissão Nacional Especializada em Assistência Pré-Natal da Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). “É preciso cuidar da saúde, corrigir o que for possível, rever medicamentos, atualizar vacinas, começar o ácido fólico e, principalmente, conversar com um profissional de saúde.”
Entenda o que realmente vale a pena fazer para quem está pensando em engravidar.
1. Consulta pré-concepcional
Procure seu médico de confiança para fazer um check-up e receber orientações amparadas na ciência — e não em trends de redes sociais.
Tenha os exames preventivos em dia. A partir dos 25 anos, recomenda-se realizar o papanicolau e, mais recentemente, o teste molecular para HPV. A partir dos 40, também deve ser feita a mamografia.
Investigar infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) também é preciso, bem como checar a pressão arterial, a glicose no sangue, procurar controlar o peso.
A depender do histórico familiar, pode ser indicado também o aconselhamento genético, mas isso não é uma recomendação geral.
“A consulta não deve ser encarada como uma busca por doenças em uma mulher saudável, mas como uma oportunidade para preparar o terreno para uma gravidez mais segura”, ressalta Lage.
2. Doenças prévias
“Nesse caso, o planejamento da gravidez é ainda mais importante”, diz a ginecologista e membro da Febrasgo. “Ter uma doença crônica não significa que a mulher não possa ter uma gravidez saudável. O objetivo é começar a gestação com a doença bem controlada e com o tratamento adequado.”
Isso vale para qualquer tipo de condição crônica, como doenças cardíacas, metabólicas, autoimunes, psiquiátricas, entre outras. Em alguns casos, as medicações devem ser substituídas ou suspensas — planejamento que deve ser orientado pelo médico.
3. Vacinação
Está com a carteira de vacinação em dia? Não esqueça de levá-la na consulta pré-concepcional e verificá-la.
Algumas vacinas, como as de vírus vivos atenuados, não podem ser aplicadas durante a gravidez. Por isso, a recomendação é tomá-las antes, quando necessário.
A tríplice viral, que está sendo reforçada em alguns municípios por conta do surto de sarampo, é uma delas. O imunizante protege também contra caxumba e rubéola.
“A proteção contra a rubéola merece uma atenção especial porque a infecção durante a gestação pode causar consequências graves para o bebê. Após a vacinação com a tríplice viral, deve-se aguardar pelo menos um mês antes de engravidar”, orienta Lage.
4. Suplementação
Em relação a suplementos, a única recomendação geral para quem está pensando em engravidar ou está no início da gravidez é o uso do ácido fólico (também chamado de vitamina B9).
“Ele participa de processos importantes de formação e desenvolvimento do bebê, especialmente na formação do tubo neural, estrutura que dará origem ao cérebro e à medula espinhal”, explica Lage.
A indicação geral é de tomar 0,4 mg por dia. O ideal é começar a suplementação um mês antes da tentativa de gravidez e manter até o final do primeiro trimestre.
Mulheres que tiveram bebês com complicações devido a deficiência de ácido fólico, devem tomar uma dose maior, indicada pelo médico de confiança.
Outros suplementos não têm evidências científicas de benefícios.
5. Alimentação e atividade física
“Não existe uma dieta milagrosa”, crava a médica da Febrasgo. Em relação à alimentação, Lage indica apostar no simples. “Mais alimentos in natura ou minimamente processados, frutas, verduras, legumes, feijões, cereais integrais, boas fontes de proteína e gorduras de melhor qualidade, e menos alimentos ultraprocessados, excesso de açúcar e gorduras saturadas.”
A atividade física também é fundamental. “A Organização Mundial da Saúde indica que adultos pratiquem, no mínimo, 150 minutos de exercícios de intensidade moderada ou 75 de intensidade vigorosa”, explica Porto, que é especialista em ginecologia do esporte. “O movimento ajuda o estado geral de saúde da mulher.”
Não existem dietas ou treinos que “melhoram”, por si só, a fertilidade. “O que sabemos é que manter um peso saudável, ter uma alimentação equilibrada e praticar atividade física regularmente podem melhorar condições que interferem na reprodução”, esclarece Lage.
6. Zero álcool e fumo
Pensando em largar o cigarro e as bebidas? A hora é agora! “O álcool pode afetar o desenvolvimento do bebê e está associado a alterações que podem ser permanentes”, alerta Lage. Além disso, a ciência já provou que não existe dose segura de álcool.
“Já o tabagismo está associado a restrição do crescimento fetal, prematuridade, problemas placentários e outras complicações. E isso vale também para outras formas de consumo de nicotina, como cigarros eletrônicos e dispositivos de vaporização”, lista.
Fazer o básico funciona — consulte sempre seu médico e desconfie de modas pregadas na internet.
