O conto da aia é um romance da escritora canadense Margaret Atwood. O livro é uma obra pós-modernista, publicada, pela primeira vez, em 1985. Ela apresenta caráter distópico, ao retratar uma sociedade futura comandada por um regime teocrático, em que as mulheres são controladas pelos homens.
O livro conta a história da Aia Offred. No passado, ela teve uma filha e foi casada com Luke. Porém, com a implantação do novo regime, ela é obrigada a ser uma Aia. As Aias são usadas na procriação. Assim, Offred vai morar na casa do Comandante e de sua esposa Serena Joy, com o objetivo de gerar um filho para o casal.
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Resumo sobre O conto da aia
- O conto da aia é um romance da escritora canadense Margaret Atwood.
- Um regime de caráter teocrático é instaurado em determinado país e tem início a República de Gilead.
- As mulheres perdem direitos e passam a ser comandadas por homens.
- É uma sociedade de castas: Comandante, Esposa do Comandante, Guardiões, Tias, Aias, Marthas.
- Devido à crise de infertilidade, Aias treinadas para a procriação são reservadas às famílias mais ricas.
- A Aia Offred, narradora do romance, é enviada para a casa de Serena Joy, esposa de um Comandante.
- No passado, Offred foi casada com Luke, com quem tinha uma filha, e era amiga de uma mulher chamada Moira.
- As relações sexuais com Offred, em presença da esposa, são programadas e acontecem durante a Cerimônia.
- O Comandante acaba tendo encontros secretos com a Aia, a qual também se envolve amorosamente com Nick, o Guardião da casa.
- Ao final, Offred é levada por supostos agentes do regime, os quais talvez sejam parte da resistência, sendo a prisão de Offred um resgate.
Análise da obra O conto da aia

→ Personagens da obra O conto da aia
- Cora: uma Martha.
- Dolores: Aia.
- Elizabeth: uma Tia.
- Helena: uma Tia
- Janine: Aia.
- Luke: marido de Offred.
- Lydia: uma Tia.
- Moira: antiga amiga de Offred.
- Nick: Guardião.
- Offred: a narradora.
- Ofglen: Aia.
- Rita: uma Martha.
- Serena Joy: Esposa do Comandante.
→ Tempo da obra O conto da aia
Na narrativa O conto da aia, sobressai o tempo cronológico, isto é, linear, um tempo focado na sequência de ações dos personagens. Porém, em alguns momentos, o universo interno da protagonista é evidenciado, além de lembranças do passado.
Por sua vez, a época em que os fatos ocorrem é o futuro (em relação à data de publicação da obra), um ano não especificado.
→ Espaço da obra O conto da aia
O romance é ambientado em um espaço fictício, a República de Gilead.
→ Narrador da obra O conto da aia
O conto da aia conta com uma narradora-personagem, pois quem narra, a Aia, também participa da história narrada como personagem.
→ Enredo da obra O conto da aia
Em uma realidade distópica, temos mulheres que são chamadas de “Martha”. Assim, a narradora descreve a personagem Rita:
Ela está com seu vestido habitual de Martha, que é verde desbotado como um traje cirúrgico dos tempos anteriores. O feitio de suas roupas é muito parecido com o das minhas, o vestido comprido escondendo as formas, mas com um avental de peitilho por cima e sem a touca com abas brancas e o véu. Ela põe o véu para sair, mas ninguém se importa muito com quem vê o rosto de uma Martha. As mangas estão arregaçadas até o cotovelo, deixando à vista seus braços morenos. Ela está fazendo pão, atirando os cones de massa para a rápida amassada final e depois dar a forma.
A narradora não é uma Martha. Ela está naquele “posto” com a função de servir a família do Comandante. A narradora é uma Aia, e mulheres como a narradora têm esta aparência:
Uma forma, vermelha com touca de abas brancas ao redor da cabeça, uma forma como a minha, uma mulher de aparência sem graça e desinteressante, de vermelho, carregando uma cesta, se aproxima pela calçada de tijolos vindo em minha direção. Ela me alcança e examinamos uma o rosto da outra, olhando pelos túneis brancos de tecido que nos cercam.
A obra revela um contexto de total opressão dessas mulheres, que não podem expressar seus pensamentos e têm que ter muito cuidado com o que falam. Nessa realidade distópica, teocrática, a religião comanda e oprime a vida de todos. Percebemos que tal sociedade possui castas ou funções, tais como: Marthas, Aias, Comandantes, Esposas de Comandantes, Guardiões, Econoesposas (casadas com homens pobres), Tias.
O nome da narradora é Offred. Porém, não é seu nome real, que ficou no passado, sendo agora proibido. A narrativa apresenta lembranças da protagonista, lembranças do passado em liberdade, mas também dos ensinamentos de tia Lydia (as Tias treinam e vigiam as Aias). E como tudo começou?
Tudo começou com a mudança do regime. Novas leis, como proibir mulheres de possuírem bens, foram promulgadas. Elas passaram a depender dos homens, não podiam trabalhar. Seu marido, Luke, a filha deles e ela até tentaram fugir, cruzar a fronteira, mas foram capturados, e Offred desconhece o paradeiro tanto de Luke quanto de sua filha.
A narradora vive na República de Gilead:
Este é o coração de Gilead, onde a guerra não pode penetrar nem intrometer-se, exceto pela televisão. Onde ficam os limites não sabemos ao certo, eles variam, de acordo com os ataques e contra-ataques; mas este e o centro, onde nada se move. A República de Gilead, dizia tia Lydia, não conhece fronteiras. Gilead está dentro de você.
Ela faz amizade com outra Aia, uma moça chamada Ofglen, mas não pode confiar inteiramente em ninguém. Na casa do Comandante, Rita e Cora trabalham nos afazeres domésticos, pois são Marthas. Já a Aia exerce outras funções:
Rita para de cortar as cenouras, se levanta, tira os embrulhos da cesta, quase que avidamente. Está impaciente para ver o que eu trouxe, embora sempre franza o cenho enquanto abre os embrulhos; nada que eu traga a agrada plenamente. Está pensando que ela poderia ter feito melhor. Preferiria fazer as compras, escolher exatamente o que quer; ela me inveja pela caminhada. Nesta casa todas nós invejamos umas às outras por alguma coisa.
A Aia tem um quarto na casa do Comandante. Volta e meia, ela relembra o passado, quando o mundo ainda não era dominado por religiosos, quando ainda não era teocrático. Era uma mulher independente, agora é uma Aia, e sua função é gerar filhos para famílias como a do Comandante. A rotina das pessoas de Gilead é guiada pela religião. Inclusive, a relação sexual entre o homem e a Aia ocorre em uma ocasião chamada de Cerimônia, na presença de Serena Joy, esposa do Comandamente.
Apesar disso, o Comandante pede para a Aia encontrá-lo no escritório por meio de Nick, o Guardião da casa. Nessa ocasião, ele propõe jogar mexe-mexe com ela, um jogo de tabuleiro, e, além disso, pede a ela um beijo. Esses encontros se repetem sem que a esposa dele saiba. Em seus encontros clandestinos, cresce a intimidade entre os dois. Enquanto isso, a amizade entre Offred e a Aia Ofglen se fortalece.
Apesar das relações sexuais na Cerimônia, Offred não engravida, o que preocupa a esposa do Comandante, que propõe que ela se relacione com Nick, embora as duas saibam que isso é ilegal.
Às escondidas, o Comandante leva Offred a uma espécie de prostíbulo. Ali, surpreendentemente, Offred encontra Moira, sua melhor amiga antes da implantação do regime.
A partir de então, Offred passa a ter relações sexuais com o Comandante sem a companhia da esposa e sem que ela saiba. Ela também procura sexualmente por Nick, e os dois têm um envolvimento amoroso. Além disso, a Aia Ofglen se mata, e uma nova Ofglen a substitui.
No final da obra, Offred é levada da casa por supostos agentes do regime, acusada de violação de segredos de Estado. Porém, tudo indica que, com a ajuda de Nick, aqueles homens foram resgatá-la, sendo eles da resistência.
O desfecho da obra fica em aberto. Ela termina assim:
A camionete está na entrada para carros, as portas duplas permanecem abertas. Os dois, agora um de cada lado, me seguram pelos cotovelos para me ajudar a entrar. Se isto é o meu fim ou um novo começo não tenho nenhum meio de saber: eu me entreguei às mãos de desconhecidos; porque não há outro jeito.
E assim eu entro, embarco na escuridão ali dentro; ou então na luz.
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Características da obra O conto da aia
→ Estrutura da obra O conto da aia
O conto da aia, publicado, pela primeira vez, em 1985, apresenta as seguintes partes:
- I — Noite (capítulo 1);
- II — Compras (capítulo 2 a 6);
- III — Noite (capítulo 7);
- IV — Sala de espera (capítulo 8 a 12);
- V — Um cochilo (capítulo 13);
- VI — Pertences da casa (capítulo 14 a 17);
- VII — Noite (capítulo 18);
- VIII — Dia do nascimento (capítulo 19 a 23);
- IX — Noite (capítulo 24);
- X — Escritos da alma (capítulo 25 a 29);
- XI — Noite (capítulo 30);
- XII — A casa de Jezebel (capítulo 31 a 39);
- XIII — Noite (capítulo 40);
- XIV — Salvamento (capítulo 41 a 45);
- XV — Noite (capítulo 46).
Além dessas partes, há também o capítulo final ou epílogo: “Notas históricas”.
→ Estilo literário da obra O conto da aia
O conto da aia é um romance pós-modernista. Ele possui viés político, já que evidencia a questão de gênero e o conservadorismo e mostra o quão é catastrófico quando política e religião se misturam. A obra pode ser associada a uma literatura feminista, já que critica a opressão patriarcal sofrida pela mulher na sociedade.
O livro tem caráter distópico, pois mostra uma situação futura não ideal e catastrófica no que tange à limitação ou à extinção da liberdade individual e feminina. Apresenta, portanto, o desencantamento típico do Pós-modernismo, em que não mais há espaço para utopias, daí a presença de narrativas distópicas.
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Contexto histórico da obra O conto da aia
No contexto fictício da obra O conto da aia, o novo regime é instaurado após acontecimentos históricos como este:
Foi depois da catástrofe, quando mataram a tiros o presidente e metralharam o Congresso, e o exército declarou um estado de emergência. Na época, atribuíram a culpa aos fanáticos islâmicos.
Em seguida:
Foi então que suspenderam a Constituição. Disseram que seria temporário. Não houve sequer nenhum tumulto nas ruas. As pessoas ficavam em casa à noite, assistindo à televisão, em busca de alguma direção. Não havia nem um inimigo que se pudesse identificar.
Por fim:
As coisas continuaram naquele estado de animação suspensa durante semanas, embora algumas de fato tenham acontecido. Os jornais foram censurados e alguns foram fechados, por motivos de segurança, disseram. As barreiras nas estradas começaram a aparecer, e Identipasses. Todo mundo aprovava isso, uma vez que era óbvio que não se podia ser cuidadoso demais. Eles diziam que novas eleições seriam realizadas, mas que levaria algum tempo para prepará-las. A coisa certa a fazer, diziam, era continuar como de costume.
E assim o regime teocrático se instala e passa a reprimir as pessoas, principalmente as mulheres. Como a narradora não especifica o ano em que isso acontece, não é possível associar os fatos a algum acontecimento histórico da realidade. No entanto, a obra O conto da aia começou a ser produzida em 1984, quando a autora estava em Berlim.
No início da década de 1980, ainda havia a Guerra Fria (tensão política entre Estados Unidos e União Soviética, que polarizou o mundo). Além disso, houve um aumento do conservadorismo nos Estados Unidos, o qual influenciaria outros países. De acordo com os pesquisadores Lima, Golpspan e Santos:
Na perspectiva de Apple [teórico educacional], na década de 1980, nos Estados Unidos, se formou o que o autor chamou de uma aliança conservadora, composta por uma coalizão tensa de forças, que se contrapunha à ampliação das políticas sociais para as minorias, atacando o Estado. Os quatro grupos que formam essa aliança, segundo Apple, são os neoliberais, os neoconservadores, os populistas autoritários e a nova classe média profissional. Os neoliberais constituem a liderança da Nova Direita e representam o grupo que se preocupa com a orientação político-econômica atrelada à noção de mercado. Os neoconservadores são aqueles que compreendem os valores do passado como muito melhores do que os atuais e que lutam pelas “tradições culturais”.
Os pesquisadores informam:
Segundo Lacerda [cientista política], assim como também destaca Moll , nos EUA, o neoconservadorismo se inicia como um movimento intelectual a partir do começo da Guerra Fria, articulando pressupostos do libertarianismo econômico, tradicionalismo moral e do anticomunismo e, posteriormente, se assume como um movimento político, especialmente tornando-se basilar para a eleição de Ronald Reagan nos EUA em 1980.
No Canadá, tal conservadorismo também estava em voga, o que levou à ascensão ao poder, em 1984, do primeiro-ministro Brian Mulroney, do Partido Conservador Progressista. No entanto, ele apresentava um conservadorismo moderado, nada comparado ao forte conservadorismo do presidente Ronald Reagan, dos Estados Unidos, e da primeira-ministra britânica Margaret Thatcher.
Assim, o romance de Margaret Atwood foi escrito durante um período histórico da humanidade marcado pela ascensão do conservadorismo e da politização da fé cristã. Isso, ao que parece, fez a autora preocupar-se com a situação das mulheres na sociedade e com uma possível ameaça à democracia.
Filme e série de O conto da aia
Em 1990, foi lançado o longa-metragem O conto da aia, uma coprodução entre Estados Unidos e Alemanha. A obra foi dirigida por Volker Schlöndorff e conta com atuações de atores famosos, como Faye Dunaway, Aidan Quinn e Robert Duvall.

Por sua vez, a série de televisão é uma criação de Bruce Miller. É uma produção estado-unidense, com seis temporadas, lançadas entre 2017 e 2025. É estrelada por Elisabeth Moss e também conta com a participação do ator Joseph Fiennes.
Margaret Atwood, autora de O conto da aia

Margaret Atwood é a escritora de O conto da aia. Ela nasceu em 18 de novembro de 1939, em Ottawa, no Canadá. Mais tarde, fez bacharelado em Artes na Universidade de Toronto e mestrado em Artes no Radcliffe College. É vencedora de vários prêmios, como Booker, Giller e Mondello. Atuou como professora universitária de Inglês. Em 1985, publicou O conto da aia.
Além disso, presidiu a União de Escritores do Canadá. Ela foi casada com o escritor Graeme Gibson, com quem teve uma filha. Atwood foi homenageada com a Ordem do Canadá, uma importante condecoração civil de seu país. Em 2019, publicou a continuação de O conto da aia: o romance Os testamentos.
Créditos de imagem
Editora Rocco (reprodução)
Fontes
AGUILAR, Andrea. Margaret Atwood, autora de O conto da aia: “Para mim é natural ser uma ‘raposa velha’ malvada”. El País, Londres, 7 set. 2019.
ATWOOD, Margaret. O conto da aia. Tradução de Ana Deiró. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.
LIMA, Iana Gomes de; GOLBSPAN, Ricardo Boklis; SANTOS, Graziella Souza dos. Mapeando o conservadorismo na política educacional brasileira. Educar em Revista, Curitiba, v. 38, 2022.
MARGARET ATWOOD. Biography. Disponível em:
MARINS, Rayssa Pereira; FERNANDES, Rosa Maria Valente. As intertextualidades dos aspectos sociais, culturais e políticos em O conto da aia. Leopoldianum, Santos, v. 48, n. 134, 2022.
SILVA, Cássia Benemann da. O papel da mulher no matriarcado da Gilead de Os Testamentos e de O conto da Aia, de Margaret Atwood. 2021. Dissertação (Mestrado em Letras) – Centro de Letras e Comunicação, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2021.