O alienista é uma novela/sátira (e há quem considere como um conto) de Machado de Assis publicada pela primeira vez em 1882, no livro Papéis avulsos. A obra pertence ao Realismo, escola literária que predominou no Brasil entre 1881 e 1902, tendo Machado como autor de destaque no estilo.
Esse foi o sexto livro lido no Clube do Livro Brasil Escola, escolhido pelos integrantes em uma batalha que envolveu também as seguintes obras: Vidas secas, de Graciliano Ramos, Úrsula, de Maria Firmina dos Reis e A cabeça do santo, de Socorro Acioli.
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O que você vai encontrar em O alienista?
Simão Bacamarte é um médico de família rica que estudou em Portugal e veio para o Brasil, a contragosto do rei, para estudar com mais afinco a ciência de sua profissão. Casou-se com dona Evarista após observar que ela poderia lhe gerar herdeiros inteligentes e saudáveis, apesar de a pobre não ser bonita nem simpática. Vemos aqui a primeira característica da obra realista: a mulher não idealizada, opondo-se ao estilo romântico. Bacamarte a enxergava apenas como uma reprodutora e por isso se uniu a ela — não há amor envolvido. Apesar dos esforços, ele não teve os desejados filhos, não passou a ninguém legado de nossa miséria.
Magoado com o plano falido, resolve, então, dedicar-se ainda mais aos estudos, focado agora nas “patologias mentais”. “Isso de estudar sempre não é bom”, disse o padre Lopes, já nos entregando o que estaria por vir nessa história. O médico decide inaugurar um edifício para abrigar todos os loucos de Itaguaí e consegue o local com a anuência da Câmara de Itaguaí para tal feito, a ilustre Casa Verde.
Inúmeros “loucos” foram internados no asilo de Simão Bacamarte. Os motivos eram variados: loucos de amor, o boiadeiro que tinha por costume doar seu gado, o João de Deus, que achava ser a divindade em terra. O trabalho era muito: Bacamarte precisou de ajuda do boticário Crispim Soares e de mais uns quantos. Enquanto isso, dona Evarista definhava em casa, carente da atenção do marido, que só tinha olhos para a Casa Verde. Para se livrar da esposa (pobre Evarista!), concede a ela um passeio ao Rio de Janeiro, e ela parte com uma comitiva de amigos e parentes, incluindo a esposa de Crispim Soares.
O cientista da razão faz uma nobre descoberta:
A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
Agora, ele tinha o que precisava: sabia definir com clareza quem era alienado e quem era são. O hospício é ampliado, e mais “loucos” são reclusos. O fiel boticário apoia o médico em todas as decisões, é o suprassumo da inteligência, o dr. Bacamarte!
A população da pequena Itajaí fica comovida com a repercussão dos presos. Um porque gastou demais a herança, outra porque defendeu o pobre. Mateus foi levado ao hospício por admirar demais a própria casa (coitado). Enquanto isso, dona Evarista voltava da viagem, e a população, preocupada com os rumos das decisões de Bacamarte, tinha esperança de que ela botasse juízo no marido. Porém, após o jantar de boas-vindas, admirada com as belas palavras de Martim Brito, viu o infeliz ser recolhido à Casa Verde (Simão bem ciumento e possessivo para quem não ama a esposa, não é mesmo?).
Tem início o pandemônio — Itajaí está protestando contra os desmandos de Bacamarte. Gritos de ódio e de revolta são escutados por dona Evarista, que teme pelo seu esposo. A multidão é liderada pelo barbeiro com a alcunha de Canjica, e por isso a rebelião ficou conhecida como Revolta dos Canjicas. O médico tenta se explicar: é tudo pelo bem da ciência! Porfírio (o Canjica) assume a liderança do governo em nome da ordem. Crispim, o boticário, teme pela prisão do seu benfeitor, quando Canjica decide ir à casa de Bacamarte. Tal não foi o susto do alienista ao ouvir do barbeiro que ele só queria acalmar os ânimos do povo, e que a causa do médico era genuína. Não teve dúvida: doido era ele e a multidão em polvorosa.

Iniciou-se uma grande confusão. Canjica tentou dar um golpe e mandou prender João Pina, o outro barbeiro da cidade, que, por sua vez, assumiu o poder e mandou expedir decretos a torto e a direito. Não teve jeito: a guarda do rei interveio, e o alienista, muito influente, mandou prender mais pessoas com o critério “vozes da minha cabeça”. Até a desafortunada Evarista não escapou do hospício.
Dr. Simão Bacamarte era mais indeciso do que eu, que escrevo esta resenha: mandou soltar todo mundo. As teorias dele estavam equivocadas, afinal. Propôs uma série de cláusulas à Câmara. Os barbeiros foram absolvidos. Tudo aparentemente voltava à “normalidade”. Ninguém tinha ressentimento de Bacamarte, todos reconheciam a grande inteligência do médico. Dona Evarista até pensou em divórcio, mas a carência falou mais alto e decidiu ficar com o esposo.
A Câmara decidiu que o alienista teria um ano para testar uma nova teoria psicológica, e que os vereadores estavam imunes à avaliação dele, a contragosto do vereador Galvão, que afirmou não ter nenhum poder especial. Bacamarte pensou: isso só pode ser um traço de desequilíbrio mental dos demais, exceto Galvão, homem consciente.
Partiu o médico com autorização nas mãos para mais um de seus desmandos. Depois de 30 dias, prendeu o padre Lopes e a mulher do boticário. Crispim, enfurecido, foi interceder por sua esposa, e encontrou no alienista o consolo de que sua esposa logo ficaria bem e que poderia visitá-la em fins de semana e em dias santos. E assim procedeu Bacamarte, prendendo gente e ordenando por classes na Casa Verde. Ofereceram até dinheiro ao barbeiro para liderar outra revolução, sem sucesso. Sabendo disso, Bacamarte não teve dúvidas: prendeu ele também.
O ilustre alienista iniciou o tratamento para todos os loucos internados no hospício. Cada classificação de loucura recebia um remédio diferente, e assim curou todos, e era recebido com pompas e elogios. Simão Bacamarte era brilhante! Todavia, pensava ele, que não poderia ser tão perfeito. Indagou à assembleia se nem mesmo um defeito era visto em si mesmo, e a resposta foi unânime: NENHUM. Ele não teve dúvidas, era o primeiro caso científico de um problema, e deveria estudar a si próprio. Internou-se na Casa Verde e morreu 17 meses depois.
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Afinal, nós gostamos de O alienista?
→ Opinião da Nay
Machado é brilhante em tudo que se propôs a escrever, não à toa é do cânone brasileiro. O alienista é uma ótima obra para quem quer começar a ler o autor porque é curto, engraçado e envolvente. Como não ficar curioso com o destino de Bacamarte? Um ser humano dotado de muita inteligência (jamais conseguirei ser irônica com a maestria de Machado) que decide fundar um hospício e muda de ideia a cada novo acontecimento. O que dizer também dos coadjuvantes cômicos que fazem da história uma grande piada? Dei muita risada e me diverti lendo O alienista! Recomendo super!
→ Opinião da Lara
Amei reler O alienista. Sou completamente suspeita para falar, pois gosto muito das obras do Machado de Assis, e O alienista é uma de suas obras mais divertidas e irônicas. Nela, ele faz uma crítica social fortíssima e questiona os limites da sanidade e da própria loucura. Tudo isso por meio de uma narrativa envolvente e engraçada, na qual temos a figura do Dr. Bacamarte como o grande destaque, o “dono da razão”. E não é extraordinário que aquele que buscou provar a loucura de todos seja, na realidade, o verdadeiro louco? Esse, para mim, é um dos pontos mais extraordinários do livro, além de ser talvez o motivo pelo qual eu gosto tanto da obra!
O alienista é um daqueles livros que todos precisam ler pelo menos uma vez na vida, e isso por diversos motivos! Primeiro, por ser um grande clássico da literatura brasileira e um dos livros mais importantes de um dos autores mais significativos dessa literatura. Segundo, por ser um livro curtinho, sendo essa uma daquelas situações em que temos um livro pequeno no tamanho e enorme no impacto! Terceiro, por ser uma obra que apresenta a realidade do século XIX ao mesmo que reflete criticamente sobre a sociedade dessa época. Quarto, por ser um livro muito divertido de ler. Quinto, por ser uma obra que auxilia na ampliação de vocabulário: é fato que Machado de Assis usa palavras pouco comuns em seus livros, mas buscar o significado desses termos é uma oportunidade de conhecer novas palavras!
Tudo o que for falado sobre O alienista será pouco no que se refere à grandiosidade dessa importante obra! O que posso dizer a você é: leia, pois garanto que você não vai se arrepender!
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Live de encerramento do ciclo de leitura sobre O alienista
” frameborder=”0″ allow=”accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope;” allowfullscreen=”true” title=”YouTube video player”>Crédito de imagem
Editora Camelot / Grupo Online Editora (reprodução)
Fontes
Vozes da minha cabeça.
