Por Tamara Lorenzoni
Beyoncé acaba de dar um passo importante na construção do próprio patrimônio de marca.
Ao comprar a participação da Moët Hennessy, divisão de vinhos e destilados do grupo LVMH, na SirDavis, a cantora passa a deter 100% da marca de uísque que criou em parceria com o conglomerado francês.
Os valores da transação não foram divulgados, mas o movimento chama atenção por uma razão que vai muito além do negócio em si.
Beyoncé deixa de compartilhar a propriedade de uma marca e passa a ter controle integral sobre um ativo que nasceu de sua própria narrativa, de sua identidade e de seu capital cultural.
Existe uma diferença muito grande entre emprestar relevância para uma marca e construir uma marca que carrega uma parte da sua própria herança.
Beyoncé está fazendo essa transição. Ela não está apenas associando seu nome a um uísque, está assumindo o controle de um ativo que nasceu de uma narrativa pessoal e que pode ganhar permanência própria.
A SirDavis foi lançada em 2024 e recebeu o nome em homenagem a Davis Hogue, bisavô de Beyoncé, que teria produzido uísque durante o período da Lei Seca nos Estados Unidos.
A marca também estabelece uma conexão com Houston, cidade natal da cantora. Essa combinação de família, território e produto é estratégica. A herança é um código muito poderoso no mercado de alto padrão porque cria profundidade.
Quando uma marca consegue contar uma história que tem origem, território e significado, ela não depende apenas da novidade. Ela começa a construir permanência.
A parceria com a Moët Hennessy teve um papel importante nesse processo. A expertise, a distribuição e o conhecimento do mercado de destilados ajudaram a colocar a SirDavis em uma escala internacional.
Agora, com a saída da companhia francesa da sociedade, Beyoncé assume integralmente o negócio. Esse movimento acompanha uma transformação que considero cada vez mais evidente: artistas e personalidades com grande capital cultural estão deixando de apenas licenciar seus nomes ou participar de campanhas para construir e controlar ativos próprios.
Celebridade pode gerar atenção imediata. O desafio é transformar essa atenção em desejo e, depois, em permanência. É aí que começa a construção de uma marca de verdade. Beyoncé parte de uma posição privilegiada.
Ela possui um capital cultural extraordinário, construído ao longo de décadas. Existe repertório, estética, narrativa, reconhecimento global e uma identidade muito bem estabelecida. Quando esses elementos são organizados de maneira estratégica, deixam de ser apenas atributos da pessoa e passam a funcionar como ativos de marca.
O movimento da SirDavis acompanha uma transformação no próprio conceito de luxo. Durante muito tempo, exclusividade esteve diretamente associada à tradição, à história centenária, aos materiais e à escassez.
Hoje, esses códigos continuam relevantes, mas convivem com outros elementos: experiência, cultura, narrativa, pertencimento e singularidade. Não é necessário ter cem anos de história para construir uma marca desejada. É preciso ter uma história que faça sentido e seja difícil de reproduzir.
A raridade contemporânea também pode estar na narrativa. É isso que torna a SirDavis interessante. Existe uma história familiar, uma conexão territorial e uma construção estética que parte da identidade de Beyoncé, mas que pode, com o tempo, ganhar autonomia.
A exclusividade também deixou de ser apenas uma questão de quantas pessoas conseguem comprar determinado produto. Ela pode estar na sensação de pertencimento a uma narrativa.
Quando uma marca cria um universo próprio, ela passa a oferecer experiência e não apenas produto.
Uma marca criada por uma celebridade nasce naturalmente muito próxima da imagem de sua fundadora. No início, é comum que o consumidor pense nela como “o uísque da Beyoncé”.
O estágio mais sofisticado acontece quando essa relação evolui. O objetivo estratégico é chegar ao momento em que o consumidor reconheça a SirDavis pela sua própria identidade, pela excelência, pela experiência, pela narrativa e pela singularidade, sabendo que existe uma mulher extraordinária por trás dela.
Essa autonomia é fundamental para a construção de patrimônio. Beyoncé já possui uma das imagens mais fortes da indústria do entretenimento.
Ao assumir integralmente a SirDavis, ela transforma parte dessa influência em propriedade e amplia a fronteira entre artista, empresária e construtora de ativos.
No fim, não estamos falando apenas de uma cantora que decidiu investir em uísque.
Estamos falando de uma mulher que compreendeu que presença também pode se transformar em patrimônio quando existe estratégia para transformar capital cultural em desejo, desejo em marca e marca em permanência.
Quando presença, desejo, exclusividade, herança e narrativa encontram coerência, a marca deixa de depender apenas da pessoa que a criou.É nesse momento que ela começa a construir seu próprio legado.
