O preconceito também aparecia durante atendimentos médicos. Ela contou que sua ficha em clínicas era identificada de forma diferente por causa do acidente, o que frequentemente despertava a curiosidade de funcionários. Segundo ela, uma recepcionista insistiu em saber por que sua guia médica era “zerada” e passou a observá-la após descobrir que ela era vítima da contaminação.
As recepcionistas insistem para saber por que ela é zerada. Um dia, uma gritou. E fui pertinho dela e falei: ‘sou obrigada a explicar o porquê?’. Quando o médico me chamou, ela fez questão de me acompanhar até o consultório. Eu disse que era uma vítima do césio. O tempo todinho que fiquei esperando, se ela não estava escrevendo, estava olhando para mim. Eu era uma pessoa estranha para ela. Lourdes

A discriminação atingiu toda a família. Lourdes afirmou que vítimas do césio enfrentaram dificuldades até para matricular os filhos em escolas de Goiânia e de Aparecida de Goiânia. Segundo ela, diversas famílias receberam recusas antes de conseguir vagas, reflexo do medo e da desinformação que persistiam décadas depois da tragédia.
A família também preservava lembranças de solidariedade. Apesar dos episódios de preconceito, Lourdes contou ao UOL que a história da filha Leide das Neves, primeira vítima fatal do acidente, também mobilizou gestos de carinho ao longo dos anos. Ela relatou o caso de uma mulher que fez uma promessa em nome da menina para conseguir engravidar. Após ter uma filha, deu a ela o nome de Leide, que, segundo Lourdes, se tornou biomédica.
Lucimar era irmão de Leide
Ele foi encontrado morto no último sábado (25). A causa da morte não foi divulgada. Lucimar tinha 14 anos quando foi contaminado pela radiação, em 1987, e fazia parte da família mais diretamente atingida pelo maior acidente radiológico com material radioativo ocorrido fora de uma usina nuclear.
