
Ler Resumo
Os resultados de estudos em humanos com a polilaminina, substância experimental brasileira para o tratamento de lesões medulares, acabam de ser publicados, pela primeira vez, em uma revista científica.
O artigo foi disponibilizado nesta terça-feira, 4, no jornal “Spinal Cord”, do grupo Nature.
O documento não apresenta dados novos, mas traz os resultados de um estudo piloto, realizado em 2016. Essa foi a pesquisa que serviu de base para que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizasse o início dos estudos clínicos com a substância — pesquisas mais robustas para avaliar segurança e eficácia.
Até então, os resultados sobre a polilaminina ainda não haviam sido publicados em uma revista científica com revisão por pares, processo em que especialistas independentes, de uma mesma área, avaliam a qualidade e a validade do estudo antes da publicação.
No meio científico, essa é uma etapa necessária para que uma pesquisa seja reconhecida. Os dados sobre a substância estavam disponíveis apenas em formato de pré-print, uma versão prévia e não avaliada.
Por que a pesquisa ainda não estava publicada
Segundo a pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, responsável pela criação da polilaminina, o trabalho havia sido rejeitado anteriormente por, ao menos, outros três periódicos científicos.
Entre as justificativas para a rejeição do artigo estavam dúvidas sobre a taxa de recuperação dos pacientes, a ausência de registro prévio do ensaio clínico e a falta de informações sobre o mecanismo de ação da polilaminina.
A pesquisadora também reconheceu, em entrevista ao G1, uma inconsistência nos registros do estudo: um paciente que morreu poucos dias após o procedimento aparecia na análise com dados de melhora cerca de 400 dias depois.
Recentemente, porém, a bióloga havia informado à imprensa que faria novas revisões no material e tentaria publicá-lo mais uma vez.
Entre as correções feitas na versão publicada está a exclusão do dado sobre o paciente falecido e a inclusão de mais informações sobre o que foi feito para garantir que os participantes não estavam em choque medular.
Isso é importante porque o choque, que ocorre logo após a lesão, pode mascarar temporariamente a função da medula. Quando essa fase passa, pode ocorrer uma recuperação espontânea, o que dificulta distinguir o efeito do tratamento da evolução natural do quadro.
O Spinal Cord, embora faça parte do grupo Nature, dono do periódico renomado de mesmo nome, é uma revista com perfil diferente e, por isso, também possui um fator de impacto distinto.
Essa métrica indica quantas vezes, em média, os artigos publicados por uma revista são citados em outros estudos científicos, uma meta que aponta a relevância da publicação.
Enquanto a Nature tem fator de impacto de 56.1, o Spinal Cord apresenta índice de 1.8, taxa considerada baixa, mas que pode ser influenciada pelo fato de se tratar de um periódico com tema restrito.
+Leia também: Polilaminina: por que notícias sobre a celebrada molécula devem ser lidas com cautela
Em que pé estão os estudos
Para que a polilaminina seja aprovada para uso em humanos, precisa passar por ensaios clínicos de fases 1, 2 e 3 (saiba mais sobre eles abaixo) registrados e acompanhados pela Anvisa.
Em entrevista exclusiva à VEJA SAÚDE, Sampaio revelou que o estudo clínico da polilaminina ainda não começou.
A fase 1 da pesquisa, que visa testar a segurança da molécula, foi autorizada pela Anvisa e pretende incluir cinco pacientes com lesão medular, que serão acompanhados por seis meses após o procedimento.
A expectativa dos pesquisadores era concluir essa etapa em cerca de um ano, considerando a capacidade de atendimento do Hospital das Clínicas da USP, onde o estudo deve ser realizado.
No entanto, o início da pesquisa ainda não teve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da instituição.
“Como eles são a instituição principal a tocar a pesquisa [agora], está tudo parado, só aguardando que o HC consiga avançar”, disse Sampaio.
+Leia também: Tatiana Coelho de Sampaio: conheça a história da criadora da polilaminina
O que ainda falta saber
O trabalho disponível até hoje sobre a polilaminina é um estudo piloto, feito com poucos pacientes e sem um grupo de comparação.
Segundo especialistas, esse tipo de pesquisa serve para levantar hipóteses e observar questões iniciais, mas não consegue responder definitivamente diversas perguntas, como:
- A melhora ocorreu por causa da polilaminina?
- A recuperação aconteceria mesmo sem o tratamento?
- Quais são todos os possíveis riscos da substância?
O artigo recém-publicado, aliás, alerta que os resultados “não permitem conclusões sobre a eficácia” da polilaminina.
O caminho para que a molécula possa se tornar um medicamento aprovado um dia ainda envolverá outras etapas típicas dos estudos chamados “clínicos”. São elas:
Fase 1 — segurança: o primeiro teste em humanos, com poucos participantes. Aqui, o objetivo principal é observar se a substância causa efeitos adversos importantes e como o organismo reage ao tratamento. No caso da polilaminina, essa fase foi autorizada pela Anvisa, mas ainda não começou porque depende da aprovação do comitê de ética da organização que irá conduzir o estudo.
Fase 2 — eficácia e dose: envolve mais participantes, reafirma a segurança e avalia se há sinais de benefício. Essa etapa ajuda a definir a melhor dose e continua acompanhando possíveis efeitos colaterais.
Fase 3 — confirmação: inclui um número ainda maior de pacientes e, normalmente, compara o tratamento com o padrão disponível ou com placebo, quando possível. Serve para confirmar se o benefício realmente existe e se os riscos são aceitáveis.
Só depois dessas etapas, se os resultados forem positivos, a instituição responsável pode solicitar um registro sanitário.
+Leia também: Laís Souza fica de pé em homenagem à Tatiana Sampaio, mas não por causa da polilaminina; entenda
Críticas da comunidade científica
O principal ponto de crítica sobre a empolgação com a polilaminina é a ausência de um grupo controle no estudo feito até agora.
Em estudos clínicos, esse grupo recebe um placebo (um remédio “de mentirinha”) ou o tratamento padrão disponível, e funciona como uma referência para comparar os resultados e entender se uma melhora observada ocorreu de fato por causa do tratamento ou por outros fatores.
Um estudo piloto, como esse, não exige um grupo controle, mas também não permite inferir a eficácia do medicamento.
No caso da lesão medular, essa comparação é especialmente importante porque parte dos pacientes pode apresentar alguma recuperação espontânea, dependendo das características do trauma.
Lesões consideradas incompletas, por exemplo, preservam alguns circuitos nervosos que podem recuperar funções ao longo do tempo.
Segundo especialistas, mesmo em casos classificados como lesão medular completa (quando há uma interrupção mais grave das vias nervosas) existe uma parcela de pacientes que pode recuperar algum movimento sem o uso da polilaminina.
Por isso, para determinar o real efeito da substância, serão necessários estudos mais robustos, com acompanhamento padronizado e comparação entre grupos.
Tatiana, porém, questiona a necessidade de um grupo controle neste caso específico, argumentando que privar pacientes da possível terapia poderia levantar uma questão ética.
“Não podemos ficar discutindo valor de grupo controle no estudo clínico, tem muita coisa importante para discutir lá na frente e a comunidade fica mobilizada como se isso fosse uma grande questão”, disse à VEJA SAÚDE.
Outro ponto ainda sem resposta é quem, de fato, se beneficiou das aplicações anteriores da proteína feitas por meio de decisões judiciais.
Como esses pacientes receberam o medicamento dentro de um programa de uso compassivo, não há uma base de dados sistematizada com informações detalhadas sobre evolução clínica.
Para pesquisadores independentes, faltam informações essenciais para interpretar esses relatos: qual era o tipo de lesão, o nível da medula afetado, há quanto tempo o paciente havia sofrido o trauma e qual era sua condição antes da aplicação.
