Todo mundo já usa IA. O que acontece agora?

Início Ciência Todo mundo já usa IA. O que acontece agora?
Todo mundo já usa IA. O que acontece agora?

Para efeito de comparação, estima-se que existam 1,5 bilhão de carros em circulação no mundo e 1,8 bilhão de lares com televisores. Levou algumas décadas para que esses produtos chegassem a esse patamar de uso. Minha comparação não é um paralelo de utilidade e nem leva em conta processos fabris, custo etc., mas para chegar a um ponto que me parece importante aqui: a inteligência artificial já é uma tecnologia normalizada do ponto de vista de consumo, o que consolida essas ferramentas em um patamar bastante avançado de adoção.

Adoção, vale lembrar, não é difusão. Tem muita gente acessando e usando esses serviços, mas a difusão que consolida o uso leva tempo. Os chatbots que se popularizaram acabaram se tornando a interface pela qual as pessoas identificam a inteligência artificial e consomem os modelos de linguagem que os alimentam (para completar a lista, além de Gemini e ChatGPT, dá para somar Claude, Grok, MetaAI, DeepSeek, Qwen e Kimi). Modelos esses que, aplicados em outras circunstâncias, também são usados em tantas outras finalidades, sem necessariamente uma interface de conversação.

Assumindo que a pergunta deixou de ser “se” estamos usando IA no dia a dia, talvez seja útil pensarmos em “como” estamos fazendo isso e “para quê”. Um artigo recente publicado pela Harvard Business Review levantou os principais usos de IA, comparando, em um ranking, com o ano anterior. Em primeiro lugar, pelo segundo ano seguido, “Terapia/companhia”. Em segundo lugar, “resolução de problemas”. Em terceiro, “diversão e nonsense”. E por aí a coisa segue. Tópicos ligados a trabalho e produtividade estão no fim da lista.

Se você não tinha mais esperança de que o ser humano faria uso de novas soluções em favor do progresso e bem comum, bom, acho que agora você pode confirmar sua tese.

Eu sei, eu sei, tem uma lista grande de outras questões que derivam disso. Mas não vai dar para falar de todas elas hoje (recebi uma bronquinha feedback do editor essa semana dizendo que meus textos por aqui estão demasiado longos. Portanto, piedade, leitor, piedade), mas isso não deixará de ser assunto tão cedo e cada uma merece um debate próprio. Por enquanto, quero me concentrar em um aspecto dessa situação: como essa adoção em larga escala desses assistentes altera as dinâmicas sociais?

É improvável que aconteça qualquer passo atrás nessa curva de consumo e posto que essa é uma realidade cujos efeitos teremos que administrar em plena operação, fica ainda mais urgente que levantemos as discussões necessárias para tentar garantir que qualquer nova tecnologia seja desenvolvida a partir de princípios e regras claras que sirvam ao bem comum e, claro, evitem que estejamos aqui de novo, uma década adiante, olhando para isso em retrospecto sem que um debate crítico tenha acontecido.