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Morar em um “país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza” pode ter mais vantagens do que Jorge Ben poderia escrever em uma só canção.
É que, desde que a ciência passou a olhar com atenção para a biodiversidade do Brasil, pesquisadores vêm encontrando neste solo cada vez mais benefício para a saúde.
Esse potencial foi alvo de uma revisão científica, publicada este ano, que reuniu diversos estudos realizados nas últimas décadas sobre os frutos nativos do país tropical.
A análise indica que alimentos que brotam em nosso quintal, como jabuticaba, açaí e guaraná, são ricos em substâncias capazes de combater o envelhecimento precoce e contribuir para a prevenção de diversas doenças.
O estudo foi feito por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e analisou dados sobre 19 de nossas frutinhas, incluindo algumas pouco conhecidas, como a grumixama (uma prima da jabuticaba) e o marolo (parente “distante” da graviola).
Agora, você confere os resultados sobre sete delas:
Um saboroso apoio para a longevidade
Antes de mais nada, é importante destacar que o foco da pesquisa foram os efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios dos frutos, dois processos ligados ao combate ao envelhecimento e doenças crônicas.
Enquanto os antioxidantes desarmam os radicais livres — moléculas instáveis que aceleram o envelhecimento celular —, os compostos com ação anti-inflamatória dão uma forcinha para a regulação de respostas imunes do corpo. “O chamado ‘estresse oxidativo’ acontece quando há um desequilíbrio entre a produção de radicais livres e a capacidade do organismo de neutralizá-los“, destaca a nutricionista e doutora pela USP Maria Carolina Zsigovics Alfino, autora da pesquisa.
Em excesso no corpo, essas partículas podem danificar estruturas importantes das células, como proteínas ou mesmo o DNA. É por isso que a ação antioxidante é tão importante. Por sorte, ela pode ser favorecida por uma boa alimentação.
Já a inflamação não é, em si, uma vilã. “É uma resposta natural e necessária do organismo para combater infecções e reparar danos“, explica Alfino.
O problema ocorre quando essa resposta permanece ativada por longos períodos, o que é chamado de inflamação crônica de baixo grau.
“Ela pode contribuir para o desenvolvimento e a progressão de doenças crônicas não transmissíveis, como obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares“, diz a nutricionista.
Vale destacar que não existe alimento ou “dieta anti-inflamatória” sozinhos. Mas a ciência estuda como certas substâncias dão um suporte para que o próprio corpo regule suas defesas. E um padrão alimentar não saudável, por outro lado, pode prejudicá-las.
E é aí que os frutos da nossa terra entram em cena.
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Jabuticaba

Ela já foi eleita uma das 10 melhores frutas do mundo. E, não à toa, é uma das iguarias brasileiras mais levadas aos laboratórios pelo mundo.
“É uma das frutas que mais se destaca em termos de quantidade e consistência das evidências experimentais em relação à ação antioxidante e anti-inflamatória”, afirma Alfino.
De cara, a cor arroxeada da casca dessa fruta já denuncia a presença de alguns compostos antioxidantes: as antocianinas, pigmento responsável por dar às frutas e folhas cores vibrantes, como vermelho, roxo e azul.
Na natureza, a cor protege as plantas contra o excesso de luz solar e a radiação ultravioleta. No corpo humano, as antocianinas ajudam a combater os radicais livres, a inflamação e os danos vasculares.
Esse é o poder dos flavonoides, um grupo de substâncias que, além das antocianinas, engloba compostos como os elagitaninos, taninos e ácidos fenólicos. Todos abundantes na jabuticaba (inclusive na casca, folhas e ramos).
“Assim, em relação à jabuticaba, foram observadas reduções de marcadores inflamatórios, melhora de parâmetros relacionados à resistência à insulina e à inflamação hepática, efeitos sobre a microbiota intestinal e proteção contra danos cardíacos em modelos experimentais”, diz Alfino.
“No entanto, é importante fazer uma ressalva: a maioria dos estudos ainda é pré-clínica, ou seja, realizada em animais ou células, mas não em humanos”, alerta a autora.
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Açaí

Cultivado há milhares de anos nas regiões tropicais da América Central e do Sul, ele é considerado um alimento multifuncional.
Segundo estudos, o açaí guarda uma série de compostos fenólicos bioativos, presentes não só na polpa e no fruto, mas também nas suas folhas, casca e nas sementes.
Essas substâncias têm ação antioxidante e se unem aos carboidratos (fonte de energia do organismo), fibras, vitamina E (mais um antioxidante!), proteínas e minerais presentes nesse fruto.
O açaí ainda conta com ácidos graxos insaturados, sobretudo ômegas 6 e 9, que são “gorduras boas“, relacionadas à manutenção da saúde cardiovascular.
Por isso tudo, estudos indicam efeitos protetores da fruta sobre coração, fígado, rins, sistema nervoso e metabolismo, além de sinais de melhora na resistência à insulina e nas taxas de colesterol e triglicérides.
Mas, não vá se empolgar sem razão. Esses resultados, é claro, dizem respeito ao consumo da polpa ou extratos da fruta pura e não do açaí batido com açúcar ou farto de leite condensado.
Grumixama

Pouco conhecida, a grumixama guarda uma particularidade rara: enquanto, na maioria das frutas, as folhas costumam concentrar mais compostos ativos que a polpa, nela os dois têm poder antioxidante semelhante.
Essa atividade é atribuída principalmente a dois compostos: o ácido gálico e a epicatequina, ambos com forte ação contra radicais livres.
Mas o interesse por essa fruta de nome esquisito ainda vai além.
Em testes com animais, extratos de grumixama também mostraram potencial para conter neutrófilos, células de defesa que, quando migram em excesso para um tecido, amplificam o processo inflamatório.
Para ter ideia da sua potência, em alguns desses experimentos, a eficácia do extrato se aproximou da observada com a do medicamento anti-inflamatório dexametasona.
Para os cientistas, esse conjunto de achados sugere que parte dos compostos dessa fruta agem neutralizando o dano oxidativo e parte controla o recrutamento de células inflamatórias.
Mesmo assim, o caminho até que essa frutinha lilás tenha seus benefícios para humanos comprovados ainda demandará muitos estudos.
Pitanga

Nativa, saborosa e acessível, a pequena pitanga não demonstrou, até o momento, efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios para o corpo todo como as suas conterrâneas.
Mas ela parece ser uma fortíssima aliada de um sorriso mais jovem.
Estudos já realizados buscaram observar se a pitanga conseguiria “acalmar” a reação inflamatória que a gengiva dispara ao entrar em contato com bactérias ligadas à doença periodontal.
O que eles viram foi que há evidências de que a frutinha desempenha um papel de destaque no reforço da imunidade de barreira (primeira linha de defesa encarregada de proteger as nossas mucosas).
Quer dizer que, na cavidade oral, ela pode auxiliar o corpo a se defender da proliferação de bactérias nocivas. Isso porque ela contribui para a estabilidade do ambiente gengival e reduz o risco de processos inflamatórios locais.
Dessa forma, os pesquisadores consideram que o seu consumo representa uma estratégia nutricional promissora para a prevenção de danos crônicos aos tecidos.
“Porém, é importante destacar que essa evidência ainda é bastante específica e não permite extrapolar para benefícios sistêmicos gerais”, reforça Alfino.
Ainda assim, a fruta ainda é uma boa amiga da saúde geral, graças às propriedades como vitaminas C e E, carotenoides, polifenóis e tióis.
Guaraná

“O guaraná apresentou no estudo um perfil particularmente interessante para a proteção contra estresse oxidativo e neuroinflamação”, adianta Alfino.
Conhecida nacionalmente como sinônimo de energia e disposição, a fruta amazônica tem mostrado, em laboratórios do mundo, que pode ser uma aliada do cérebro contra o envelhecimento e o estresse.
O segredo parece estar na combinação de seus compostos. É que esse fruto é rico em metilxantinas (substâncias que aceleram o sistema nervoso central, como a cafeína) e um exército de catequinas (antioxidantes de alta potência).
Essa combinação, mostram análises preliminares, pode proteger os neurônios e combater agressões químicas e ambientais antes que causem estragos permanentes.
Em modelos de estudos com animais, o consumo de guaraná demonstrou, inclusive, melhorias em parâmetros comportamentais e locomotores.
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Cupuaçu

Famoso pelo sabor inconfundível na culinária nortista, o cupuaçu abriga compostos fenólicos, flavonoides e alcaloides.
A essa altura, você já sabe: essa combinação ajuda o organismo na proteção contra processos inflamatórios e estresse oxidativo.
Além disso, pesquisas apontam que, quando submetido à fermentação, os microrganismos “ativam” esses nutrientes, tornando-os muito mais fáceis de serem absorvidos pelo nosso corpo.
Assim, o consumo do cupuaçu fermentado demonstra trazer benefícios como o controle de taxas de glicose e gordura no sangue, prevenção de danos ao fígado, redução na absorção de gorduras vindas dos alimentos, e equilíbrio das respostas das células de defesa do corpo.
Juçara
Essa fruta pode até ficar na sombra de seu parente mais famoso, o açaí. Mas a juçara também merece atenção, já que concentra compostos bioativos associados à proteção das células que vão além do combate aos radicais livres.
“[A juçara] demonstra capacidade de orquestrar uma mudança no microambiente inflamatório celular”, escrevem os autores da revisão da USP.
Traduzindo, essa fruta parece influenciar a produção de citocinas, substâncias que funcionam como mensageiras do sistema imunológico e ajudam a coordenar a resposta de defesa do corpo.
Além disso, a juçara também pode interferir no comportamento dos macrófagos, células que participam da proteção do organismo e podem tanto estimular quanto reduzir processos inflamatórios.
Um Brasil de frutas
Depois de passear por jabuticabas, açaís, grumixamas e juçaras… Alfino conta que a grande questão levantada ao fim da sua pesquisa foi: por que sabemos tão pouco sobre frutas que são de casa?
Segundo ela, existe um contraste entre a exuberante biodiversidade brasileira e a pouca variedade de frutas que, de fato, chega ao prato da população.
“Entre as dez frutas mais consumidas pelos brasileiros, apenas duas são nativas: o açaí e o maracujá”, diz.
Para a nutricionista, isso reforça que o Brasil tem uma riqueza alimentar ainda mal aproveitada (inclusive pela ciência).
“Valorizar essas frutas pode representar uma oportunidade de ampliar a diversidade e a qualidade da alimentação, mas também de fortalecer sistemas alimentares mais sustentáveis“, destaca.
Por fim, a a pesquisadora sublinha que nem todas as frutas agem da mesma forma no organismo. Isto é, cada um tem um benefício específico e, por isso, uma dieta colorida é tão importante.
“É importante não buscarmos uma ‘superfruta‘, mas valorizarmos a diversidade delas e dos mecanismos pelos quais elas cada uma pode contribuir para a saúde”, conclui.
