Em um artigo publicado na The Verge há alguns meses, David Pierce escreveu sobre o que ele chamou de uma revolução do software pessoal. Recomendo a leitura toda, mas a abertura (em tradução minha, sorry) é a seguinte: “A tirania do software está quase no fim. Desde que os primeiros programadores escreveram os primeiros programas de computador, nós, os usuários desse software, fomos forçados a viver nos mundos que esses programas criavam. As funcionalidades são as funcionalidades. O design é o design. Quer outra coisa ou algo melhor? Aprenda a programar, eu acho”. Mas, ele completa, a chegada de versões mais avançadas de ferramentas de IA mudaram esse cenário, permitindo que usuários comuns (a gente aqui) possam criar e programar seus softwares pessoais do mesmo jeito que costumamos fazer planilhas ou editar textos.
O seu programinha caseiro pode ser um pequeno sistema de organização de agenda de compromissos somado à logística da casa, juntando a planilha de orçamentos. Quem sabe, uma integração das listas de compras no supermercado nos mesmos dias em que você leva as crianças para a escola. Ou, uma calculadora de calorias e atividades físicas que não esteja enviando seus dados para um serviço de marketing de empresas farmacêuticas. E por aí vai.
Eu sei, já tem algo “tipo assim” no seu celular e disponível na internet, mas não propriamente um “tipo assim” do jeito exato que você precisa. E para uma variedade de pequenas atividades, em vez de buscar um novo app para te ajudar, você vai desenvolver o seu próprio a partir de comandos de voz ou texto, tal como já faz para garantir que seu marido entenda di-rei-ti-nho o que e como ele deve organizar aquelas benditas caixas largadas na garagem.
Não me refiro, evidentemente, às complexas estruturas de desenvolvimento e código que seguirão demandando engenheiros, cientistas, arquitetos e designers para serem criadas e mantidas (além de sistemas de infraestrutura e segurança). Mas, para o desafio rotineiro de lidar com as máquinas, aí sim, podemos afirmar que os obstáculos para domesticar a programação estão cada vez menores.
As versões mais recentes dos modelos de IA já ajudam nisso. O recurso de programação ainda é restrito aos modelos mais novos e geralmente pagos, mas a velocidade com que isso avança é surpreendente. Dos que testei, Claude Code (se puder, leia essa história sobre o lançamento do Code), Gemini Pro e ChatGPT Codex têm essas funções de programação. Entre os modelos chineses, confesso que ainda não desci fundo o bastante.
No mês passado, redesenhei, desenvolvi e publiquei um site inteiro em menos de um dia. Para mexer no design das páginas, anexei uma captura de tela que tinha em mãos e pedi ao Claude: “use essas cores e adote essa fonte”. Todos os ajustes posteriores na programação foram com comandos de texto na caixa de conversa do próprio chat. Na semana passada, só como teste, usei o Gemini para criar uma pequena calculadora que me ajudasse a projetar a velocidade e o ritmo nos meus treinos de corrida usando apenas comandos de voz. Minhas noções de código de programação são semelhantes às que tenho de sânscrito.
