Os poderes do café: conheça os surpreendentes benefícios da bebida para a saúde

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Os poderes do café: conheça os surpreendentes benefícios da bebida para a saúde

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Antes da primeira reunião do dia, da aula na faculdade ou do treino na academia, vem um ritual quase sagrado: passar um café fresquinho.

O hábito atravessa gerações, marca o despertar e as pausas no ofício, embala conversas e inspira encontros em espaços que levam até seu nome. Ao lado da água e do chá, ele é a bebida que mais frequenta o cotidiano dos habitantes deste planeta: entre o nascer e o pôr do sol, mais de 2 bilhões de xícaras são ingeridas no mundo.

Mas, durante muito tempo, o café dividiu opiniões e suscitou preocupações na mesa da saúde. De uns anos para cá, no entanto, para a alegria geral das nações, ele se tornou um dos alimentos mais investigados e celebrados pela nutrição.

Se antes boa parte das pesquisas se concentrava na cafeína e em seus possíveis efeitos adversos, hoje os holofotes estão nos mais de mil compostos bioativos presentes no grão, alguns deles com notável ação antioxidante.

Essa mudança de perspectiva ajuda a revelar uma faceta pouco falada da bebida: quando consumido com moderação, o café faz muito bem à saúde.

Sim, centenas de estudos relacionam sua ingestão regular a um menor risco de problemas cardiovasculares, diabetes tipo 2, gordura no fígado, alguns tipos de câncer e males neurodegenerativos. Tudo leva a crer que quem aprecia um cafezinho vive realmente mais.

Embora nem todas as pesquisas atestem uma relação direta de causa e efeito entre a ingestão e a proteção ao corpo, o conjunto de evidências se mostra cada vez mais sólido.

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Para coroar essa fase de glórias, a Associação Americana do Coração (AHA, na sigla em inglês) publicou uma robusta revisão concluindo que o consumo moderado de café — algo em torno de três a cinco xícaras ao dia — não só é seguro para a maioria das pessoas como também é associado a um menor risco de doenças cardíacas.

“Esse documento derruba diversos mitos”, afirma o médico Sergio Francisco, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular (SBCCV) e divulgador científico no perfil @cafecomcardio nas redes. “Hoje, com uma exceção ou outra, não é mais preciso pedir que o paciente pare de tomar café, o que também significa menos interferência em seus hábitos e na qualidade de vida.”

Quase ao mesmo tempo foi publicada na revista científica Clinical Gastroenterology and Hepatology uma das provas mais consistentes sobre os benefícios do café para o fígado.

Os pesquisadores analisaram dados de quase 355 mil britânicos e constataram que, quanto maior a ingestão da bebida, menor o risco de problemas sérios no órgão, entre eles a prevalente esteatose hepática. “Há muito tempo recomendo café aos pacientes”, conta o hepatologista Raymundo Paraná, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

A bebida não é remédio nem faz milagre, mas pode dar aquela mãozinha às engrenagens do organismo.

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Nesta reportagem você vai ler:

    • O café no banco dos réus
    • Mitos sobre café
    • Benefícios ao coração
    • Café faz bem ao fígado
    • Aliado contra o diabetes
    • Café como amigo do cérebro
    • Segredo da bebida: os compostos fenólicos
    • Receita para cafés saudáveis
Infográfico sobre café com quatro ícones e textos: Brasil é o maior produtor e exportador; mais de 2 bilhões de xícaras consumidas diariamente; café é a terceira bebida mais consumida; mais de 1000 compostos químicos identificados no café
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O café no banco dos réus

Sabia que uma visão positiva da bebida contrasta com os altos e baixos na reputação do café ao longo da história?

Ele enfrentou forte resistência moral e religiosa entre os séculos 16 e 18, sendo acusado de estimular vícios, insônia e até comportamentos subversivos.

Sua fama mudou à medida que o hábito de bebê-lo ajudou a moldar a nova cultura do trabalho urbano. Ao substituir o consumo de álcool ao longo do dia, o café mantinha quem trabalhava em fábricas, no escritório ou no comércio mais desperto e atento.

No século 19, o cultivo do cafeeiro viveu seu grande auge e elevou o Brasil ao status de maior produtor global — sim, o grão está na base da modernização do país.

Mas foi no século passado que a bebida se consolidou como companheira inseparável da rotina. As xícaras invadiram gabinetes, hospitais, redações… Alimentando um ritmo de vida cada vez mais frenético.

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E foi aí que o consumo entrou de novo em xeque: conforme a mortalidade por doenças do coração aumentava, especialistas não hesitaram em culpar o café por causar arritmias, hipertensão, úlcera e outros problemas de saúde.

Só que não era exatamente assim.

Podemos dizer que o café foi vítima de uma grande injustiça. Ele estava no lugar errado, na hora errada, e acabou levando a culpa por problemas que, na verdade, tinham outras causas.

De fato, entre os anos 1950 e 1990, os maiores apreciadores dessa bebida carregavam jornadas de trabalho mais intensas, níveis elevados de estresse, alimentação ruim (com maior ingestão de gordura e menor de vegetais), além de baixos índices de atividade física.

Todos esses fatores sopravam a favor de doenças cardiovasculares e outras condições potencialmente graves. Só que os estudos da época tinham dificuldade para separar o efeito do café das consequências do estilo de vida como um todo — e ele acabou virando vilão.

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Nesse contexto, a associação que mais prejudicou a reputação da bebida foi o altíssimo consumo dentre os tabagistas. E há até uma explicação biológica para isso: substâncias presentes na fumaça do cigarro aceleram a degradação da cafeína pelo organismo, fazendo com que os fumantes precisem consumir mais café para obter o mesmo efeito estimulante.

Como o cigarro aumenta o risco de infarto, câncer e outras doenças, as análises foram colocando na conta da bebida uma repercussão que se devia essencialmente ao tabaco.

O maior susto, no entanto, viria quando a IARC, a agência de pesquisas de câncer da Organização Mundial da Saúde (OMS), classificou a bebida como “possivelmente carcinogênica para humanos” em 1991. Foi um baque.

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Décadas depois, com a evolução da epidemiologia (a ciência que investiga a saúde e a doença em grupos de populações) e o surgimento de grandes estudos que conseguiram separar melhor as variáveis na vida dos participantes, o café foi sendo inocentado.

Um marco nessa mudança de perspectiva foi uma pesquisa publicada no reputado periódico The New England Journal of Medicine em 2012, que acompanhou mais de 400 mil pessoas por anos. Os cientistas apontaram explicitamente que, no passado, o café era associado a um estilo de vida menos saudável (incluindo o tabagismo).

Ao ajustarem estatisticamente os dados para o fumo, descobriram o oposto: o consumo de café estava, na verdade, associado a uma redução da mortalidade por diversas causas.

Ao mesmo tempo, pesquisadores começaram a investigar outros compostos presentes na bebida, atestando suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Foi daí que deslancharam os estudos acerca de possíveis efeitos positivos para o corpo.

Em 2016, à luz das novas provas, a agência da OMS retirou o café da lista de elementos “possivelmente carcinogênicos” e concluiu que não havia indícios de que o consumo aumentasse o risco de câncer. Pelo contrário, para alguns tipos de tumor, como os de fígado e endométrio, as evidências já sugeriam uma associação protetora.

Para você ter ideia, esse caso é tão emblemático e marcante na história da epidemiologia nutricional que manuais atuais de saúde pública usam o exemplo “café, cigarro e câncer” como um clássico para explicar o que os cientistas chamam de fator de confusão: uma situação em que duas características aparecem juntas e uma acaba levando a culpa por causa da outra.

Assim, a bebida passou por um verdadeiro rebranding: deixou de ser apenas um estimulante vazio e agora é reconhecida como uma fonte de compostos bioativos que podem fazer a diferença em diversos processos do organismo.

“O café tem só 2% de cafeína e de 10 a 16% de antioxidantes, a depender da torra”, destaca a barista Isabela Raposeiras, fundadora da torrefação, escola de café e cafeteria Coffee Lab, em São Paulo. “Há muitos benefícios à saúde que precisam ser mais divulgados.” E estudo é o que não falta nesse sentido.

Mitos sobre café

Faz mal ao coração
Pelo contrário, faz bem. Revisões recentes mostram que quantidades moderadas de café (de 3 a 5 xícaras por dia) estão associadas a menor risco de infarto, insuficiência cardíaca e até morte por doenças cardiovasculares.

Aumenta a pressão
A cafeína pode provocar uma elevação temporária da pressão arterial, ainda mais em quem não tem o hábito de tomar café. Porém, esse efeito costuma durar poucas horas e não se traduz em hipertensão crônica na maioria das pessoas.

Causa desidratação
Apesar de a cafeína ter um leve efeito diurético, ele é insuficiente para causar desidratação em quem consome regularmente. A água presente na bebida compensa essa perda, e o café conta, sim, para a ingestão diária de líquidos.

Gera úlceras
Pessoas mais sensíveis a cafeína ou com doenças como a síndrome do intestino irritável podem ter sintomas de azia ou refluxo piorados. Mas ele não causa gastrite e úlcera. A bactéria H. pylori ou o uso frequente de anti-inflamatórios é que costumam estar por trás dos problemas.

Corta o efeito de remédios
O café não reduz eficácia, mas pode interferir na absorção ou potencializar a ação de alguns deles, ainda mais daqueles recomendados para ingestão em jejum. Na dúvida, consulte seu médico.

Xícara de vidro transparente com café preto sobre uma pilha de grãos de café torrados, em fundo vermelho
O café foi inocentado de todas as acusações falsas! (Fotos: Bruno Marçal/Veja Saúde)

Benefícios ao coração

Nada melhor que começar a destrinchar as benesses do café por ninguém menos do que a bomba que sustenta a vida: o coração.

“Estudos no passado, com mais de 25 a 30 anos, achavam que o café poderia fazer mal por dois motivos, sempre focados na cafeína: aumento dos batimentos cardíacos e da pressão arterial”, relata o cardiologista Luiz Antonio Machado César, do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP).

“Mas eles mostravam, na verdade, o efeito imediato do café. Ao tomar de forma regular, essa consequência é reduzida porque o organismo se adapta à cafeína”, explica.

O professor do InCor não ficou apenas no discurso: em 2005, quando o café ainda era visto com desconfiança por boa parte da comunidade médica, ele foi um dos responsáveis pela criação da Unidade de Pesquisa Café-Coração, uma parceria do InCor com a Embrapa Café para investigar, de forma rigorosa, os efeitos da bebida sobre a saúde cardiovascular.

O projeto deu origem a uma série de ensaios clínicos com voluntários saudáveis e pacientes com doença cardíaca, exigindo, inclusive, que eles suspendessem o café (e outras fontes de cafeína) três semanas antes do começo dos testes para eliminar qualquer viés.

Durante o estudo, as pessoas receberam uma quantidade padronizada de café por quatro semanas e passaram por testes ergométricos, Holter (aparelho que registra a atividade elétrica do coração durante 24 horas), monitorização da pressão arterial e exames laboratoriais.

Os resultados, publicados ao longo da década seguinte, mostraram que o consumo habitual de café não aumentou arritmias, não piorou a pressão arterial nem a isquemia cardíaca. Por outro lado, elevou o número de antioxidantes atuando no corpo, esteve associado a uma maior tolerância ao exercício etc.

Agora, o documento da Associação Americana do Coração (AHA) consolida todos esses e demais achados.

“Para ser sincero, eles miraram na cafeína e acertaram no café”, comenta Francisco. “A revisão começou tentando entender os efeitos cardiovasculares da cafeína, mas acabou mostrando que as evidências favoráveis dizem respeito à bebida como um todo. Tanto que o próprio posicionamento ressalta que esses benefícios não devem ser extrapolados a bebidas energéticas ou cafeína em cápsula.”

É o café, consumido puro e sem açúcar, com sua combinação de centenas de compostos bioativos, que leva o crédito.

De forma geral, o documento crava que o consumo moderado de café faz parte, sim, de um padrão alimentar compatível com a boa saúde cardiovascular. E ele também detalha as evidências por doença, chegando a conclusões bem relevantes.

Primeiro: o hábito de tomar café não causa hipertensão arterial crônica. Ponto. Segundo: está totalmente descartada a hipótese de que o café aumentaria o risco de entupimentos das artérias do coração e infarto. Pelo contrário: o consumo leve a moderado (de uma a três xícaras) foi associado a um risco 10% menor de obstrução. Apreciadores de café — inclusive das versões descafeinadas — também estão menos sujeitos a sofrer com acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência cardíaca.

Outra lenda que se encerra de vez é a de que o café estaria por trás de arritmias. “Ele pode acelerar o coração, especialmente se você tomar uma dose muito alta. Mas não de forma irregular, como na fibrilação atrial”, esclarece Machado César, fazendo referência a um dos principais distúrbios do ritmo cardíaco.

Além disso, o posicionamento da AHA ressalta que pessoas com essa doença controlada não precisam parar de ingerir a bebida. “O café deixa de ser um inimigo automático de quem tem arritmia”, resume Francisco.

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A única pedra no sapato, no entanto, está relacionada ao colesterol: de fato, componentes oleosos do café, como o cafestol, estão associados a um leve aumento das taxas de LDL e HDL — respectivamente, o colesterol ruim e o bom.

Não se sabe ao certo se isso é permanente ou transitório, mas a recomendação que fica é: para pessoas que precisam regular a gordura no sangue, o ideal é evitar preparações como prensa francesa ou café fervido sem coar, que não retêm esses compostos.

Mas um filtrado em papel está totalmente liberado!

Café faz bem ao fígado

Os efeitos da bebida, como mencionado antes, não se restringem ao peito ou aos vasos sanguíneos. Tem saltado à vista seu papel protetor para o fígado.

Em um trabalho recém-publicado na revista acadêmica Nutrition Journal, com dados de mais de 180 mil pessoas ao longo de dez anos, indivíduos que consumiam mais de duas xícaras de café sem açúcar por dia apresentaram um risco significativamente menor de desenvolver gordura no fígado.

“Esse benefício é visto inclusive nas versões descafeinadas”, afirma Raymundo Paraná.

Além disso, o estudo enorme citado no início da reportagem foi realmente marcante para a relação fígado e café. Ele avaliou, entre milhares de pacientes, desfechos clínicos, exames de ressonância magnética do órgão e a análise de mais de 4 mil proteínas circulantes no corpo.

Resultado: pessoas que bebiam mais xícaras por dia apresentaram 32% menos risco de cirrose, 47% menos risco de câncer de fígado e 42% menos risco de morrer por doença hepática.

“O café ajuda a reduzir fibrose, melhora a recepção de insulina pelo fígado, o que é positivo para o metabolismo, e a ação antioxidante auxilia a proteger contra a esteatose”, destrincha o hepatologista.

“Pacientes com doença crônica de fígado podem enfrentar fadiga mental e física, e o café auxilia a manter a vigília, podendo ajudar nesse contexto também”, complementa o médico.

Aliado contra o diabetes

Falando em metabolismo, cada vez mais estudos confirmam a ação protetora do café contra doenças como o diabetes tipo 2.

Existia uma grande dúvida quanto a isso pelo fato de a cafeína elevar levemente a glicose no sangue no curto prazo, já que ela estimula o sistema nervoso e promove a liberação de hormônios como adrenalina e cortisol, o que sinaliza ao fígado para liberar a glicose armazenada.

Mas, novamente, esse é apenas um efeito imediato: quando entra na rotina, há uma autorregulação. “Como também pontua o documento da AHA, consumidores habituais de café acabam apresentando menor risco de desenvolver diabetes”, destaca o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da USP de Ribeirão Preto.

Se olharmos com lupa, veremos que a trigonelina, um dos compostos bioativos da bebida, é quem leva a fama pelos benefícios no controle glicêmico.

Experimentos com animais indicam que ela atua melhorando a resposta das células corporais (especialmente nos músculos periféricos) à insulina. Isso facilita a captação e a absorção do açúcar da corrente sanguínea para ser utilizado como energia. O corpo parece ficar pronto para o que der e vier — e menos vulnerável ao diabetes.

Café como amigo do cérebro

Outro papel que o café está botando em seu currículo é o de amigo do cérebro.

Uma pesquisa, publicada neste ano no jornal da Associação Médica Americana, acompanhou adultos por vários anos e observou que pessoas que consumiam regularmente de duas a três xícaras por dia apresentavam menor risco de desenvolver demência e, em média, melhor desempenho em testes cognitivos do que aquelas que ingeriam pouco ou nenhum café.

Nesse contexto, uma dúvida genuína é se o café, um estimulante natural, piora os sintomas de ansiedade.

Mas as evidências atuais têm refutado até isso: um trabalho que avaliou dados de mais de 140 mil indivíduos concluiu que o consumo moderado da bebida, na verdade, foi associado a uma menor propensão a transtornos de ansiedade e depressão, em comparação com não consumidores e com pessoas que ingerem doses muito elevadas.

“Antigamente, eu indicava que pacientes com ansiedade ou condições como síndrome do pânico parassem de tomar café”, recorda o psiquiatra Luiz Dieckman, diretor do Instituto Brasileiro de Farmacologia Prática (BIPP). “Hoje, eu não dou mais essa orientação. Pelas evidências disponíveis, o café só parece piorar a ansiedade em doses bem elevadas, pois gera cafeinismo, uma espécie de intoxicação, e é isso que resulta na sensação de coração disparado, suor frio, mal-estar”, esclarece.

Apreciada com moderação, contudo, a bebida não parece prejudicar o cérebro — pelo contrário.

Infográfico sobre os efeitos do café no organismo, com grãos de café formando o contorno de um corpo humano. Textos detalham benefícios para coração, cérebro, fígado, microbiota, metabolismo, longevidade e intestino, com grau de evidência científica para cada um. O café contém compostos bioativos como ácidos clorogênicos, trigonelina, melanoidinas, cafestol e kahweol
Benefícios do café para todo o corpo (Fotos: Bruno Marçal/Veja Saúde)

Segredo da bebida: os compostos fenólicos

Agora, diante de tantas benesses, você já parou para pensar no que exatamente o café tem de especial?

Bom, para além da cafeína, estima-se que ele possua ao menos 400 compostos fenólicos potencialmente protetores.

Entre eles, o mais estudado e citado são os ácidos clorogênicos. Eles são, na realidade, uma família de mais de 30 moléculas, e atuam em diversas frentes: combatem os radicais livres que causam o estresse oxidativo e danos nas células; melhoram a sensibilidade à insulina; reduzem a absorção de glicose pelo intestino; exercem efeitos anti-inflamatórios; e parecem até modular a microbiota intestinal.

Mas é importante frisar que o efeito do café não depende de um único ingrediente, mas da interação entre centenas deles — bem como de quantidade e modo de preparo.

Consumir a bebida de forma excessiva ou insistir na ingestão se você é uma pessoa sensível não parece ser proveitoso ao organismo

Infográfico sobre os efeitos do café, com uma xícara de café quente e grãos de café torrados em primeiro plano. O texto lista os aspectos Potencialmente Prejudicial (cafeína, cafestol e kahweol, excesso de cafeína) e Protetor (polifenóis, ácidos clorogênicos, trigonelina, melanoidinas, diterpenos)
A complexidade do café (Fotos: Bruno Marçal/Veja Saúde)

E você sabe qual é o café favorito do brasileiro? Segundo relatório da Nespresso de 2025, o consumo da bebida com leite tem aumentado, assim como do preparo sem açúcar, impulsionado pelas preferências e pelo paladar dos mais jovens. Será que é a melhor receita para a saúde?

Receita para cafés saudáveis

“Todas as grandes pesquisas com café são com ele puro e sem açúcar, mas, como a gente está na Faculdade de Saúde Pública, precisávamos corresponder ao hábito da nossa população. Daí a ideia de estudar também o café com leite e o adoçado”, conta a nutricionista Camila Marques Crivelli, pesquisadora da USP.

Ela é autora de um trabalho, apresentado numa conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que caracterizou o volume dos bem-vindos compostos fenólicos de diferentes tipos de preparo.

A investigação descobriu que acrescentar leite realmente reduz a carga de antioxidantes disponíveis. “Mesmo assim, ainda é melhor tomar café com leite do que não tomar café”, pondera Crivelli.

E os métodos de preparo também interferem nos compostos que a bebida fornecerá para a saúde. A alta pressão do expresso extrai mais compostos fenólicos e cafeína por mililitro. Então ele é o mais cafeinado por ml. Mas, claro, se uma pessoa beber um shot de espresso (40ml) e uma caneca de coado (200ml), é basicamente a mesma cafeína — ou o coado vai acabar tendo um pouco a mais.

Métodos sem filtro, como a cafeteria italiana e a prensa francesa, preservam mais lipídios e compostos aromáticos, gerando uma bebida de maior corpo e complexidade sensorial.

Mas não há uma forma ideal de consumi-lo. Vai depender do estilo de vida e dos objetivos de cada um”, completa a pesquisadora da USP.

Infográfico comparando cinco métodos de preparo de café: Coado, Espresso, Solúvel, Cafeteira Italiana e Prensa Francesa. A tabela avalia Antioxidantes, Compostos Oleosos, Cafeína, Sabor e Praticidade com estrelas, de uma a cinco. Espresso e Prensa Francesa se destacam em quase todas as categorias
Cada método leva a diferentes bebidas! Referências: 10.1016/j.foodres.2018.10.022; 10.1007/s10068-022-01100-4; 10.1021/jf9037375; 10.3390/antiox12101888 (Design: Estúdio Coral/Veja Saúde)

É inegável, porém, que há um preparo mais aplaudido pela ciência: a versão filtrada em papel, de preferência com grãos de torra clara ou média.

A torra modifica toda a composição do café, menos a quantidade de cafeína, que é estável do ponto de vista térmico”, ensina Raposeiras.

“A escura, muitas vezes usada para mascarar defeitos dos grãos, pode deixar resíduos carbonizados que reduzem os antioxidantes e dificultam a digestão para algumas pessoas, embora isso não represente exatamente um risco à saúde”, completa a barista.

É claro que um café especial, cultivado em solo de boa qualidade, com agricultura regenerativa, grãos selecionados e torra mais leve, oferece mais substâncias vantajosas, além de um perfil sensorial bastante superior.

No Brasil, impulsionado pelos consumidores mais jovens, esse mercado cresce rapidamente, e o segmento premium já responde por entre 5 e 10% das vendas nacionais. Esse movimento também popularizou diferentes métodos de filtragem em papel.

“O método Origami carrega o minimalismo e a precisão técnica japoneses, oferecendo um café com acidez e corpo equilibrados”, exemplifica Melissa Hsu, barista que trouxe a técnica ao Brasil.

+Leia Também: Tipos de café: entenda a diferença entre Especial, Gourmet, Tradicional e Extraforte — e se interfere na saúde

Se você ainda não aderiu aos cafés especiais, tudo bem: os estudos mostram que o café tradicional, mais acessível, também oferece os benefícios.

Infográfico sobre ingestão saudável de café, com título Manual da Ingestão Saudável e cinco seções: Quantidade (limite de 400 mg de cafeína), Horário (melhor pela manhã), Preparo (café moído na hora, água filtrada), Armazenamento (recipiente fechado) e Combinações (pouco ou nenhum açúcar)
Dicas para consumir café de forma saudável! (Design: Estúdio Coral/Veja Saúde)

Filtrado ou espresso, quente ou gelado, no fim tanto faz. A moral da história é que essa bebida finalmente conquistou o merecido reconhecimento da ciência pelos trabalhos prestados ao nosso corpo.

E aí, ficou com vontade de passar um cafezinho?

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