Poesia palaciana é como ficou conhecida a poesia produzida na Europa entre os séculos XV e XVI. Portanto, faz parte do humanismo, um movimento artístico, intelectual e literário de caráter antropocêntrico, pois valorizava a razão e o ser humano. Por ser produzida no final da Idade Média, também apresenta elementos teocêntricos (valorização de Deus e da fé).
Diferente da poesia medieval ou trovadoresca, que era feita para ser cantada por trovadores, a poesia palaciana era lida ou declamada em palácios. Por isso, apresenta um cuidado maior com a metrificação, em função do ritmo do poema. As formas fixas mais comuns desse tipo de poesia são: balada, vilancete, esparsa, trova e cantiga.
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Resumo sobre poesia palaciana
- A poesia palaciana é aquela feita no final da Idade Média, entre os séculos XV a XVI, para ser lida ou declamada em palácios.
- A poesia palaciana apresenta diversas temáticas, menor idealização amorosa e uso recorrente de redondilhas.
- Quatro tipos de poema são recorrentes na poesia palaciana:
- balada: seis estrofes de oito versos cada, seguidos de estrofe final de quatro versos;
- vilancete: mote de dois ou três versos, seguido de uma ou mais estrofes de sete versos, as glosas;
- esparsa: uma única estrofe de oito a 16 versos;
- trova: sem limite de estrofes, nunca apresenta mote e possui maior liberdade formal;
- cantiga: mote de quatro ou cinco versos, seguido de uma glosa de oito a dez versos, que retoma o mote.
- A poesia trovadoresca foi produzida entre os séculos XII e XIV; diferentemente da palaciana, era feita para ser cantada pelos trovadores.
O que é poesia palaciana?
A poesia palaciana é uma poesia feita para ser declamada em palácios no final da Idade Média. É, portanto, uma poesia humanista. O humanismo foi um movimento artístico, intelectual e literário surgido no fim da Idade Média, na Itália do século XIV. Apresenta caráter antropocêntrico.
Como está inserido em um período de transição para a Idade Moderna, características medievais e, portanto, teocêntricas, convivem com a visão antropocêntrica no humanismo. Nesse contexto, há uma valorização da cultura greco-latina da Antiguidade, teor filosófico, culto à beleza e ao prazer. O teocentrismo está relacionado à valorização de Deus, considerado o centro de tudo. Já o antropocentrismo, de maneira oposta, valoriza a razão, pois considera o ser humano o centro de tudo. Assim, de um lado, temos as crenças e a fé e, de outro, a ciência e o pensamento filosófico.
A poesia humanista de autores como Petrarca é marcada pela harmonia dos versos regulares (metrificados e com rimas), com sonetos que equilibram razão e emoção, além da presença de idealização amorosa. Porém, a poesia palaciana é um tipo bem específico de poesia, com características próprias, como veremos no próximo tópico.
Assim, o humanismo nasceu na Itália e teve como principais poetas os escritores Francesco Petrarca e Dante Alighieri. Esse último é autor do famoso livro A divina comédia, em que o autor se faz personagem de sua obra para viajar ao inferno, ao purgatório e encontrar sua amada e santificada Beatriz, que está no Paraíso.
As ideias humanistas espalharam-se por toda a Europa. Em Portugal, a poesia humanista está restrita à poesia palaciana. No ano de 1516, essa poesia foi reunida e publicada na obra Cancioneiro geral. Quem organizou essa importante obra foi o poeta português Garcia de Resende.

Segundo o pesquisador Geraldo Augusto Fernandes:
A poesia portuguesa dos séculos XV e XVI passou a ser denominada “poesia palaciana” devido ao fato de que era no palácio que os nobres e cortesãos se reuniam para deleitamento e trocas culturais — não só de Portugal, mas de seu vizinho, Castela. Depois do advento da poesia trovadoresca, a poesia do Quatrocentos e do Quinhentos portugueses vão retratar a cultura e a sociabilidade de um país em que as Descobertas marítimas marcarão a riqueza e ostentação, fruto de uma economia em expansão. O Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, reunião de 880 poemas de 1459 a 1516, é tido como um documento histórico em versos, pois registra o início da grandeza de Portugal.
Já a pesquisadora Juliana Aparecida Dumont Pereira, afirma que o Cancioneiro geral é “uma coletânea de textos líricos, lírico-narrativos e lírico-dramáticos produzidos no âmbito do paço — a chamada poesia palaciana”.
Veja também: O que é o eu lírico em um poema?
Características da poesia palaciana
Poesia feita para entreter a corte, apresenta temática variada. Quanto à temática amorosa, há menos idealização. São recorrentes as redondilhas menores (versos de cinco sílabas poéticas) e as redondilhas maiores (versos de sete sílabas poéticas). No mais, existem alguns tipos específicos de poesia palaciana.

→ Características da balada
A balada, normalmente, apresenta seis estrofes compostas por oito versos, e mais uma última estrofe formada, tradicionalmente, por quatro versos (mas há variações):
E vós fostes os culpados,
causadores de meu dano,
que já passa de um ano
que andais aconselhados.
E com rostos desvairados
ma faláveis cada dia,
mas de vós não me temia,
porque éreis meus criados.
[…]
(Luís d’Azevedo)
→ Características do vilancete
Outra forma poética utilizada é o vilancete. Ele apresenta uma estrofe introdutória (mote ou tema) de dois ou três versos, seguida de uma ou mais estrofes de sete versos (glosas — desenvolvem o tema do mote, e podem apresentar variações):
Vós me quisestes perder,
eu, senhora, me ganhei,
pois de vosso me livrei.
Eu cumpri quanto abastasse
como quem vos muito amava,
vós quisestes que cuidasse
quanto contra mim errava.
Contudo não me pesava,
mas agora qu’acordei,
conheço que me salvei.
(Jorge de Resende)
→ Características da esparsa
A esparsa é uma forma poética composta por apenas uma estrofe de oito a 16 versos:
Co’estes ventos d’agora
perigoso é navegar,
que se mudam cada hora,
e quem vai de foz em fora
nunca mais pode tornar.
O navio pend’à banda,
a razão não é ouvida,
a vontade tudo manda,
e quem há d’andar desanda,
quem tem alma não tem vida.
(Dom João de Meneses)
→ Características da trova
A trova não tem limite de estrofes, não apresenta mote, além de apresentar liberdade formal, podendo apresentar regularidade métrica (mesmo número de sílabas poéticas nos versos) ou não:
[…]
Folgara por não penar
poder-vos nunca servir,
por deixar de desejar
a vida por vos amar,
a morte por não sentir.
Chorarei, porque nasci,
meus males sempre comigo,
pois, meu bem, des’que vos vi
meus suspiros após si
levam minh’alma consigo.
(Duarte de Brito)
→ Características da cantiga
Outra estrutura poética utilizada é a cantiga, com mote de quatro ou cinco versos, seguido de estrofe de oito a dez versos, na qual parte ou totalidade da estrofe introdutória é retomada:
Que m’alguns vissem subir
e me vejam tanto em fundo,
nam s’espante quem me vir,
que assim entrou o mundo
e assim há de sair.
O mundo faz movimento
pero nunca é movido,
do ganhado faz perdido,
do perdido ganhamento.
Faz subir e faz cair
do mais alto ao mais profundo,
pois não praz-me quem me vir
que assim entrou o mundo
e assim há de sair.
(Diogo Fogaça)
Diferenças entre poesia palaciana e poesia trovadoresca
A poesia trovadoresca, produzida entre os séculos XII e XIV, foi feita para ser cantada pelos chamados trovadores. Ela é dividida em cantigas de amor (sofrimento amoroso), cantigas de amigo (temática da saudade) e cantigas satíricas (de caráter irônico e crítico). Em tais cantigas, é recorrente o uso de refrão e a temática amorosa está associada à idealização.
A poesia palaciana, produzida entre os séculos XV e XVI, foi feita para ser lida ou declamada. A figura do poeta é valorizada, ele não é mais um trovador. A temática é variada. A metrificação possibilita o ritmo do poema, de forma que não é mais necessário acompanhamento com um instrumento musical. A temática do amor está mais vinculada à sensualidade, ao amor concreto.

Autores da poesia palaciana
Na lista abaixo, o nome de alguns autores da poesia palaciana apresentada na obra Cancioneiro geral:
- Afonso de Albuquerque;
- Álvaro de Brito Pestana;
- Antón de Montoro;
- Bernardim Ribeiro;
- Diogo Brandão;
- Diogo de Meneses;
- Dom Francisco de Portugal (conde de Vimioso);
- Dom João de Meneses;
- Dom Jorge Manrique;
- Dona Filipa de Almada;
- Dona Filipa de Vilhena;
- Duarte de Brito;
- Fernão Brandão;
- Fernão da Silveira (coudel-mor);
- Fernão de Pina;
- Gonçalo Coutinho;
- Garcia de Resende;
- Garci Sánchez de Badajoz;
- Gil Vicente;
- Henrique da Mota;
- João Gomes de Abreu;
- João Roiz de Castelo-Branco;
- Jorge de Aguiar;
- Jorge de Vasconcelos;
- Juan de Mena;
- Juan Rodríguez de la Cámara;
- Nuno da Cunha;
- Pedro de Coimbra;
- Sá de Miranda;
- Tristão da Cunha.
Você pode acessar a lista completa de autores da poesia palaciana reunidos na obra Cancioneiro geral neste link: |1|
Exemplos de poesia palaciana
A seguir, duas estrofes das trovas de Fernão da Silveira para seu sobrinho Garcia de Melo de Serpa, a quem ensina a se vestir e a se portar:
Pois vos tacham de cortês,
sobrinho, gentil cunhado,
sobr’alto, alvo, delgado,
não há mais em um francês.
E que barba tenhais pouca,
pois bem vestir vos alegra,
regei-vos por esta regra
que fundei vindo d’Auroca.
A qual pois em si é boa,
e geralmente vem bem,
que fará ao que tem
bom corpo, boa pessoa.
E pois tendes estas ambas,
tendes quando haver mister
se o vão de amor vos der
por lugar que cubra as pernas.
[…]
De Álvaro de Brito, temos esta cantiga:
Vive mais morto que vivo
o livre que se cativa,
ledo forro sempre viva
que se livra de cativo.
Não é lei d’humanidade
nem consente descrição
deixar homem liberdade
por viver em sujeição:
sendo contra se esquivo,
contra si todos esquiva,
ledo forro sempre viva,
que se livra de cativo.
A seguir, uma esparsa de João Gomes da Ilha. Como nos dois exemplos acima, busquei adaptar a linguagem para o português atual:
Eu vi no tempo passado
afirmar-se por verdade
catividade de grado
ser inteira liberdade:
mas por certo meu motivo
é contra quem se cativa,
ledo forro sempre viva
quem se livra de cativo.
Saiba mais: A divina comédia — uma das obras mais marcantes da literatura humanista
Exercícios resolvidos sobre poesia palaciana
Questão 1
Cativo fã de cativa,
servo duma servidora,
senhora de seu senhor.
Porque sua formosura
sua gratia gratis data,
o triste que tarde mata
é por mor desaventura.
Que mais vale a sepultura
de quem é seu servidor
como a vida de seu senhor.
Não me dá catividade
nem vida para viver
nem dita para morrer,
e cumprir sua vontade.
Mas paixão sem piedade,
uma dor sobr’outra dor,
que faz servo do senhor.
Assim eu morro de manso,
nunca deixo de penar
nem desejo mais descanso
que morrer por acabar.
O que triste desejar
para quem com tanta dor
se fez servo de senhor.
(Dom João)
A poesia palaciana de Dom João, adaptada para o português atual, apresenta as características de um(a):
A) balada, com seis estrofes de oito versos cada, seguidas de estrofe final de quatro versos.
B) vilancete, com mote de dois ou três versos, seguido de uma ou mais estrofes de sete versos.
C) esparsa, com uma única estrofe de oito a 16 versos.
D) trova, com quatro estrofes, sem mote e com grande liberdade formal.
E) cantiga, com mote de quatro ou cinco versos, seguido de uma glosa de oito a dez versos.
Resolução: Alternativa B.
O poema é um “vilancete de Dom João a uma escrava sua”. Apresenta um mote de três versos, seguido por três estrofes de sete versos.
Questão 2
Marque V (verdadeiro) ou F (falso) para as seguintes afirmações:
( ) A poesia palaciana era feita para ser cantada nos palácios europeus.
( ) A poesia palaciana era cantada pelos trovadores medievais.
( ) A poesia palaciana costuma apresentar redondilhas.
A sequência correta é:
A) V, V, F.
B) V, V, V.
C) F, F, V.
D) V, F, F.
E) F, V, F.
Resolução: Alternativa C.
A poesia palaciana era feita para ser lida ou declamada. A poesia trovadoresca era cantada pelos trovadores. As redondilhas, versos de sete sílabas (redondilha maior) ou versos de cinco sílabas (redondilha menor), eram recorrentes na poesia palaciana.
Nota
|1| BLPL. Cancioneiro geral: escritores. Disponível em:
Fontes
ABAURRE, Maria Luiza M.; PONTARA, Marcela. Literatura: tempos, leitores e leituras. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2021.
BLPL. Cancioneiro geral: escritores. Disponível em:
D’AZEVEDO, Luís. Balada. In: FERNANDES, Geraldo Augusto. O Amor pela forma no Cancioneiro geral de Garcia de Resende. 2011. Tese (Doutorado em Literatura Portuguesa) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011
DUARTE DE BRITO. Trova. In: FERNANDES, Geraldo Augusto. O Amor pela forma no Cancioneiro geral de Garcia de Resende. 2011. Tese (Doutorado em Literatura Portuguesa) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011
FERNANDES, Geraldo Augusto. O Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1470-1536): festa e teatralidade, um espaço para a exaltação do “eu”. Mirabilia, v. 21, jun./ dez. 2015.
FOGAÇA, Diogo. Cantiga. In: FERNANDES, Geraldo Augusto. O Amor pela forma no Cancioneiro geral de Garcia de Resende. 2011. Tese (Doutorado em Literatura Portuguesa) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011
MENESES, Dom João de. Esparsa. In: FERNANDES, Geraldo Augusto. O Amor pela forma no Cancioneiro geral de Garcia de Resende. 2011. Tese (Doutorado em Literatura Portuguesa) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011
PEREIRA, Juliana Aparecida Dumont. Uma análise crítico-literária do episódio de Inês de Castro. Crátilo, Patos de Minas, v. 2, p. 76-87, nov. 2009.
RESENDE, Garcia de. Cancioneiro geral. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1910. tomo I.
RESENDE, Jorge. Vilancete. In: FERNANDES, Geraldo Augusto. O Amor pela forma no Cancioneiro geral de Garcia de Resende. 2011. Tese (Doutorado em Literatura Portuguesa) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.
SANTOS, Tatiane Paola Tiss dos. O trovadorismo na história literária: traços da cantiga de amor na obra nativista de Gonçalves Dias. 2022. TCC (Graduação em Letras) – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Federal de Catalão, Catalão, 2022.
