Quando eu comecei minha carreira, o tédio fazia parte. Esperar a vez, observar alguém mais experiente trabalhar, participar de reuniões longas sem entender metade do que estava sendo discutido. Ficar olhando o movimento da loja ou a dinâmica da reunião sem a válvula de escape do bolso. O tédio era obrigatório porque o celular simplesmente não existia. Era chato. Mas era ali que eu aprendia a ter paciência, a escutar antes de falar, a entender que nem tudo se resolve rápido.
Hoje, o jovem que chega numa empresa já viveu anos num ambiente onde cada segundo oferece uma recompensa. Um like, uma notificação, um vídeo novo. O cérebro dele foi treinado para isso. E de repente alguém pede para ele liderar um projeto que vai durar seis meses, com reuniões semanais, sem resultado visível até o terceiro mês.
Não é que ele não queira. É que o cérebro dele foi moldado para outra velocidade.
E aqui está o problema para as empresas. Liderar exige exatamente o que o scroll pode ter comprometido. Foco prolongado. Paciência com processos que não dão resultado imediato. Capacidade de sustentar o desconforto de não saber a resposta. Tolerância ao tédio de acompanhar uma Equipe dia após dia, semana após semana, sem aplausos.
Ninguém ensinou essa geração a ficar parada. Ensinaram a scrollar.
Não faz sentido colocar a culpa no jovem. Nós construímos esse ambiente. Mas agora cabe a todos encontrar o caminho de volta. O jovem precisa reconhecer que foco é uma habilidade que se treina, não um talento que se tem ou não. E as empresas precisam entender que formar essa geração para a liderança vai exigir mais paciência, mais acompanhamento e mais clareza sobre por que o esforço de longo prazo vale a pena. A boa notícia é que o cérebro é plástico. A reversão é possível. Mas exige substituir o hábito, não só reduzir o tempo de tela.
