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Só em 2025, 18,6 mil brasileiras congelaram óvulos, um crescimento de mais de 135% em cinco anos.
Os dados do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio/Anvisa) reforçam o crescimento do desejo de adiar a gravidez com a ajuda da tecnologia. Tendência que se espalha inclusive com as postagens das celebridades.
“Eu daria qualquer coisa para que alguém tivesse me dito ‘Congele seus óvulos. Faça um favor a si mesma’. Você simplesmente não pensa sobre isso. E aqui estou eu hoje. Esse barco já partiu.”
A declaração é da atriz Jennifer Aniston, a eterna Rachel da série Friends, publicada em uma entrevista em 2022.
À época com 53 anos, ela abria o jogo sobre a frustração por nunca ter engravidado. Os médicos lhe diziam que, se tivesse guardado óvulos, as chances de sucesso seriam bem maiores, mesmo se tentasse uma gestação mais tarde na vida.
No Brasil, Juliette, Paolla Oliveira e Sabrina Sato — agora grávida aos 45 — viraram notícia nos últimos tempos por procurar e propagar a técnica. A popularidade se justifica.
Embora hábitos saudáveis e recursos médicos ajudem, nada é mais determinante na probabilidade de engravidar do que a idade da mulher.
E, se não é possível parar o relógio, a ciência hoje permite literalmente congelar o tempo dos gametas femininos, os óvulos.
“Hoje o método é indicado a todas as mulheres que pensam em ter filhos mas ainda não possuem um planejamento para isso no curto prazo”, diz a ginecologista Karla Giusti Zacharias, especialista em reprodução humana de São Paulo.
Mas o que está por trás dessa decisão — e até onde a técnica é capaz de preservar as chances de uma gravidez no futuro? Nesta reportagem, você entende os principais pontos sobre o congelamento de óvulos:
- Por que a idade importa
- Como funciona o congelamento
- Custos do procedimento e chances de gravidez
- Limitações e riscos
- Indicações formais do procedimento
- Hábitos que ajudam a melhorar a qualidade dos óvulos
Por que a idade importa
Estimulados e coletados quando a pessoa ainda é jovem, os óvulos podem permanecer anos esperando a hora da fertilização. Mas atenção à palavra “jovem”.
“É muito melhor termos menos óvulos de uma mulher mais nova do que muitos de uma mais velha”, resume a ginecologista Rafaella Petracco, especialista em reprodução assistida e professora da Escola de Medicina da PUC-RS.
Estigmas relacionados à maternidade também dão força à estratégia, vale dizer.
Lá fora, gigantes de tecnologia como a Apple e a Meta começaram a custear o congelamento de óvulos de funcionárias que priorizaram crescer dentro da empresa e deixaram para constituir família só depois.
“O mercado de trabalho é extremamente competitivo e muitas mulheres optam por postergar a gravidez porque a gestação pode ser encarada como um problema”, comenta Luiz Eduardo Albuquerque, ginecologista especialista em reprodução assistida e diretor médico do Centro de Reprodução Humana Fertivitro, em São Paulo.
Não que o congelamento em si seja uma novidade. A técnica já era utilizada para preservar a fertilidade em tratamentos de cânceres ginecológicos ou em doenças que afetam o sistema reprodutivo, como a endometriose.
O Sistema Único de Saúde (SUS), inclusive, oferece o serviço nessas circunstâncias.
O que mudou nos últimos anos é o aumento da procura pelo que os médicos chamam de “congelamento social”: a decisão voluntária de guardar os óvulos por razões eletivas, que não envolvem uma indicação clínica por questões de saúde.
Os motivos podem ser vários: de aguardar o “parceiro certo” para ter um bebê até focar nos estudos e na carreira durante os anos em que a fertilidade está a mil — uma etapa que começa já na entrada na vida adulta, aos 18 anos.
Em teoria, a partir desse momento, já seria possível discutir o congelamento, e até seria melhor, considerando o irrefreável relógio biológico.
Mas convenhamos que, nessa idade, pouca gente pensa nisso. Não é à toa que o mercado se expandiu entre mulheres que já têm uma carreira consolidada e condições financeiras de arcar com os custos do tratamento — que não é nada barato, como veremos.
Só que há limite de idade para realizar o procedimento. Embora o Conselho Federal de Medicina libere o uso da reprodução assistida até o 50º aniversário, no caso do congelamento de óvulos, os especialistas recomendam não deixar para depois dos 35.
“Na maioria das pessoas, a fertilidade e as taxas de gravidez começam a cair nessa fase, diminuindo um pouco mais aos 38 e drasticamente aos 40 anos”, esclarece Zacharias. Pois é, nem sempre dá para driblar o tempo.
A saga de um óvulo começa ainda na gestação: não naquela que a mulher deseja ter no futuro, mas na que deu origem a ela.
Quando os ovários terminam de se formar dentro de um feto, eles já carregam todas as células germinativas femininas de que disporão pelo resto da vida — são os oócitos, popularmente conhecidos como óvulos.
A menina nasce com esses gametas na casa dos milhões e, a partir daí, nunca mais produzirá nenhum.
É o que os especialistas chamam de reserva ovariana. Quando uma adolescente atinge a puberdade, momento em que a idade reprodutiva realmente começa, “só” restam menos de meio milhão de óvulos ainda viáveis.
A cada ciclo menstrual, a reserva vai sendo gasta, todos os meses, até a menopausa.
A regra geral é simples. “Quanto maior a idade, menor a reserva de óvulos”, sintetiza Albuquerque. Fatores hormonais e genéticos e o estilo de vida podem fazer com que esse estoque se esgote mais rapidamente em algumas pessoas.
Como funciona o congelamento
Quando a mulher decide congelar os óvulos, o primeiro passo é entender como anda a reserva. Para isso, o médico solicita alguns exames.
Atualmente, o mais indicado é a dosagem do hormônio antimülleriano, o AMH, produzido pelos ovários e obtido com uma coleta de sangue realizada durante o ciclo menstrual: o número possui uma grande correlação com o tamanho da reserva, embora não entregue uma contagem exata de óvulos.
Com os níveis de AMH e outros indicadores em mãos, os experts determinam a intensidade do tratamento que vem a seguir.
Se o congelamento for mesmo uma opção, começa a fase da estimulação ovariana, uma das partes mais caras da jornada: envolve medica – mentos importados que, em um único ciclo menstrual, chegam a custar entre R$ 5 mil e R$ 10 mil, a depender da dosagem empregada.
Como o corpo não produz óvulos novos, a estimulação busca garantir que o máximo possível de folículos ovarianos (as “sementes” dos óvulos) se tornem gametas viáveis ao fim do tratamento.
“O objetivo é fazer com que todos esses folículos desenvolvam um óvulo maduro em seu interior”, explica Petracco.
Para isso, são utilizados medicamentos injetáveis contendo doses extras de hormônios que o corpo já produz naturalmente, o folículo-estimulante (FSH) e o luteinizante (LH), que induzem a ovulação.
Aplicados de forma subcutânea e relativamente simples, eles podem ser administrados pela própria mulher ou quem a acompanha, sem a necessidade de sair de casa para tomar as injeções.
Nas semanas seguintes, ultrassons monitoram o desenvolvimento e o tamanho dos folículos, e ajudam os profissionais a determinar o momento exato em que a coleta deve ser feita para otimizar os resultados.
“É um procedimento simples, mas realizado em centro cirúrgico, sob anestesia e sedação”, detalha a professora da PUC-RS.
Com a ajuda de um ultrassom transvaginal, uma pequena agulha é inserida no fundo da vagina até atingir o ovário, onde entra nos folículos e aspira o líquido de seu interior, que contém o óvulo.
Na prática, é o mesmo procedimento que antecede uma fertilização in vitro.
A diferença fundamental é que, em vez de tentarem fecundar os óvulos coletados para gerar embriões logo na sequência, os gametas femininos são imediatamente congelados para uso futuro.
Isso ocorre por meio da vitrificação, método de congelamento ultrarrápido capaz de manter íntegras as características dos óvulos, garantindo uma taxa de sobrevivência que pode superar os 90% no ato do descongelamento.
Em tese, se mantidos nas condições adequadas, não há um prazo limite para que eles sejam utilizados depois.

Custos do procedimento e chances de gravidez
Tudo isso, é claro, tem custos. Além dos medicamentos, há o preço a ser pago por cada procedimento médico desde o começo do acompanhamento até a coleta, além de uma taxa anual de armazenamento — em média, pode custar R$ 1 mil por ano, dependendo da região do país e do número de óvulos.
Ao todo, os valores podem ultrapassar facilmente os R$ 20 mil em um único ciclo de estimulação, que não é coberto por convênios quando não há indicação clínica.
E, em pessoas com reservas menores ou óvulos menos viáveis em função da idade ou da saúde geral, pode ser necessário repetir o processo para obter um número de gametas que realmente dê boas chances de engravidar no futuro.
As estimativas apontam que um óvulo preservado aos 35 anos tem em torno de 50% de chances de render uma gravidez bem-sucedida após passar pela fertilização in vitro.
“Costumamos dizer que, abaixo dos 35, com o congelamento de aproximadamente dez óvulos maduros de boa qualidade, a paciente passa a ter uma possibilidade real de gravidez”, estima Petracco.
Mas essa porcentagem cai conforme se envelhece — e também pode ser interessante guardar ainda mais óvulos se você não pretende parar em apenas um bebê.
É preciso ter em mente, contudo, que o congelamento de óvulos não garante a gravidez.
A ideia por trás de conservar o máximo possível deles é justamente tentar vencer um jogo de probabilidades: como há uma janela considerável de falha, quanto mais opções a mulher tiver, maiores suas chances de gestar.
Obviamente, existem pontos fora da curva: tem quem engravide com um único óvulo viável, tem quem tente diversas vezes e não consiga.
O insucesso pode vir no próprio descongelamento, em que há perda de 5 a 15% dos óvulos, dependendo das condições em que ele foi conservado e da própria qualidade do gameta, mas também há riscos em cada fase subsequente do processo, que é sempre delicado.
Primeiro, é necessário submeter aquele óvulo a uma fertilização in vitro e, depois, implantar o embrião resultante no útero, com a expectativa de que a gestação se desenvolva a partir dali. Essas etapas dependem de diversos outros fatores além do próprio óvulo.
Ou seja, mesmo com os avanços da ciência, que aumentaram bastante as taxas de sucesso, nenhuma fase tem índices de 100% de êxito.
“Não há como fugir disso: o gameta é a parte mais frágil, e uma perda de viabilidade é algo normal do procedimento em si”, afirma a ginecologista Mylena Rocha, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA).
Para deixar parte da incerteza para trás, muitos casais preferem avançar algumas etapas e só congelar embriões, isto é, os óvulos já fecundados pelos espermatozoides.
“A desvantagem do embrião é que a mulher perde parte de sua autonomia reprodutiva. Ela fica vinculada ao material genético de determinado espermatozoide, mesmo que decida fazer isso de forma independente, com sêmen de um doador”, diferencia Petracco.
E também entra em jogo um complicador legal: os dois passam a ter direitos sobre o embrião, o que pode render disputas em um eventual término do relacionamento.
Para os homens, existe a possibilidade de congelar apenas os espermatozoides, uma opção bem mais simples que ainda não ganhou muita popularidade: é mais procurada antes de tratamentos de saúde que podem afetar a viabilidade dos gametas masculinos.

Limitações e riscos
A melhor escolha depende da situação de vida dos interessados, e, no caso das mulheres, a corrida contra o tempo é muito mais determinante.
Aí que está: o congelamento de óvulos ainda é uma técnica que muitas só procuram tardiamente, quando as taxas de sucesso são naturalmente menores.
Hoje, mais da metade (57%) dos procedimentos desse tipo feitos no Brasil são realizados por mulheres acima dos 35 anos, que podem estar chegando tarde demais para assegurar a sonhada gestação no futuro.
“Há alguns anos, estimava-se que entre 1 e 2% das mulheres entravam na menopausa antes dos 40. Hoje, o índice pode chegar a 4%. Muitas estão tendo uma reserva ovariana menor”, elucida Carlos Link, ginecologista especialista em reprodução assistida e diretor técnico da Clínica ProSer, em Porto Alegre.
A razão para essa “falência precoce” dos ovários é discutida pela ciência. As hipóteses mais fortes apontam para o estilo de vida, o que inclui alimentação desregrada, rotina estressante e sedentarismo, e uma maior exposição cotidiana aos chamados disruptores endócrinos, uma ampla gama de produtos nocivos à saúde reprodutiva que vai dos agrotóxicos aos microplásticos, passando pelos ultraprocessados que ingerimos.
Além disso, embora congelar os óvulos permita bloquear o avanço do relógio em relação ao gameta feminino, o corpo continua a envelhecer.
As chances de uma fertilização in vitro bem-sucedida para um óvulo congelado aos 30 anos permanecem intactas no momento do descongelamento, mas o risco de insucesso da gestação é muito diferente uma década mais tarde.
É verdade que hoje vemos mais mulheres anunciando a gravidez e tendo filhos saudáveis na casa dos 40 e até 50 anos, mas as estatísticas apontam para riscos mais elevados nessa fase da vida.
“Depois dos 40, há uma maior probabilidade de elas terem diabetes, pressão alta e outros problemas ligados ao avançar da idade”, nota Link.
Não é impossível nem necessariamente perigoso, mas exige certo cuidado extra.
Mesmo com os altos custos e a incerteza, para muitas mulheres o congelamento representa a chance de manter vivo o sonho da maternidade sem abrir mão de outros objetivos.
E a tecnologia pode ajudar até quem não botou os óvulos no freezer.
Em alguns casos, seja por mudar de planos, seja por ter conseguido engravidar naturalmente, eles nem sequer serão usados — o que abre margem para doá-los a casais que lutam contra a infertilidade mas não conseguem custear o tratamento.
“Congelar óvulos é como ter um seguro de carro: você faz para ter uma garantia, mas até reza para não precisar usar”, brinca Albuquerque.
Pelo visto, o número de gente entrando nessa “fria” por precaução não deve parar de crescer.
A quem é destinado?
Entenda as indicações formais do procedimento
Pacientes oncológicas
Tratamentos comuns contra o câncer, como quimio e radioterapia, podem prejudicar a reserva ovariana e acelerar a menopausa.
Falência ovariana
A “menopausa precoce” acontece quando os ovários param de funcionar muito mais cedo que o previsto, até bem antes dos 40 anos.
Doenças ginecológicas
Endometriose ou cirurgias ovarianas repetidas podem encurtar a idade fértil drasticamente.
Quem quer esperar
Mulheres saudáveis que preferem postergar a maternidade, por motivos pessoais e profissionais, podem fazer o congelamento.
A qualidade dos óvulos
Hábitos ajudam, mas não fazem milagre
Idade
É o fator mais determinante: quanto mais cedo é feito o congelamento dos óvulos, maior a chance de uma gravidez depois.
Estilo de vida
Comer bem, fazer exercícios e evitar álcool e cigarro ajudam a ter óvulos mais saudáveis por mais tempo. Mas não param o tempo.
Questões ambientais
Exposição à poluição ou ao estresse constante pode gerar respostas oxidativas no organismo que pioram a qualidade dessas células.
Prazo
A tecnologia estendeu a viabilidade do óvulo. Se armazenado de forma correta, não há um prazo máximo para utilizá-lo.
