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Nenhum corpo humano é perfeitamente simétrico. Se fotografarmos um rosto, dividirmos a imagem ao meio e criarmos dois novos rostos usando cada metade e sua versão espelhada, teremos duas pessoas surpreendentemente diferentes. Um olho pode estar discretamente mais alto, uma sobrancelha pode ter outro formato e até os lados do tórax apresentam pequenas diferenças.
Com as mamas acontece o mesmo. É extremamente comum que uma seja um pouco maior, tenha formato diferente ou apresente o mamilo e a aréola em posição discretamente distinta.
Na maioria das mulheres, essas diferenças são pequenas e fazem parte da anatomia normal. O problema aparece quando a assimetria é suficientemente acentuada para incomodar, dificultar o uso de roupas ou sutiãs e, em alguns casos, afetar a autoestima.
A cirurgia pode reduzir essas diferenças, mas existe uma informação que precisa estar clara desde a primeira consulta: o objetivo é melhorar a simetria, não produzir duas mamas matematicamente idênticas.
Antes de escolher a cirurgia, é preciso descobrir o que é assimétrico
Dizer apenas que uma mama é diferente da outra não estabelece o diagnóstico. A diferença pode estar no volume, no formato, na quantidade de pele, na posição do sulco abaixo da mama, na altura dos mamilos e aréolas ou em uma combinação desses fatores.
Existem ainda alterações do próprio desenvolvimento mamário. A mama tuberosa, por exemplo, pode apresentar base mais estreita, alterações da aréola e distribuição diferente do tecido. Em situações mais raras, a assimetria pode estar associada a condições congênitas como a síndrome de Poland, que envolve desenvolvimento incompleto de estruturas da parede torácica.
A literatura ressalta justamente que reconhecer essas diferenças anatômicas antes da cirurgia é fundamental para obter um bom resultado.
É por isso que não existe “a cirurgia da assimetria mamária”. Existem diferentes operações que podem ser escolhidas ou combinadas de acordo com aquilo que encontramos em cada paciente.
A solução pode ser aumentar uma mama, diminuir a outra ou operar as duas
Imagine uma mulher com duas mamas pequenas, mas uma delas significativamente menor. Dependendo da anatomia e do desejo da paciente, podemos utilizar implantes de volumes ou características diferentes para aproximar os dois lados.
Em determinados casos, a transferência de gordura da própria paciente também pode ajudar a corrigir diferenças de volume e contorno, isoladamente ou associada a outras técnicas. O uso de enxertia de gordura vem ganhando espaço justamente pela possibilidade de realizar ajustes mais localizados.
Em uma mulher com mamas grandes e uma delas maior, o raciocínio pode ser exatamente o contrário: realizar uma mamoplastia redutora, retirando quantidades diferentes de tecido para buscar maior equilíbrio. Se existe flacidez ou diferença importante na posição das mamas, pode ser necessária uma mastopexia para remodelá-las e reposicionar o complexo aréolo-mamilar.
Há ainda situações em que uma mama apresenta tamanho e formato considerados adequados pela paciente e apenas o outro lado precisa ser corrigido. Em outras, operar os dois lados permite maior controle sobre formato, posição e volume. É uma decisão que só pode ser tomada depois de avaliar o conjunto.
A cirurgia também não congela a simetria
Esse é um aspecto pouco discutido quando falamos sobre o resultado de longo prazo. As mamas continuam sendo estruturas vivas depois da cirurgia. Envelhecimento, variações de peso, gravidez, amamentação, ação hormonal e características individuais dos tecidos continuam modificando-as.
Um estudo sobre resultados de longo prazo da correção de assimetria mamária, publicado em 2025, reforça justamente a dificuldade de alcançar e manter uma equivalência absoluta entre os dois lados. O próprio título do trabalho resume bem o conceito: Sisters But Not Twins, ou “irmãs, mas não gêmeas”.
Isso acontece também porque tecidos diferentes podem envelhecer de maneiras diferentes. Se uma mama recebeu um implante e a outra foi reduzida, por exemplo, cada lado continuará respondendo ao tempo de acordo com suas próprias características. Gravidez, amamentação e alterações importantes de peso também podem modificar um resultado que inicialmente apresentava bom equilíbrio.
O objetivo não é perseguir uma perfeição que o corpo nunca teve
A tecnologia e a combinação de técnicas ampliaram muito as possibilidades de tratar assimetrias mamárias. Implantes, redução, mastopexia e enxertia de gordura podem ser utilizados de maneiras diferentes e, algumas vezes, associados na mesma paciente. Estudos recentes continuam avaliando essas combinações justamente para melhorar volume, contorno e naturalidade dos resultados.
Mas talvez a evolução mais importante esteja no planejamento. Em vez de aplicar a mesma cirurgia aos dois lados, tratamos cada mama de acordo com sua anatomia e depois avaliamos como as duas funcionam em conjunto.
O corpo humano nunca foi perfeitamente simétrico. A cirurgia plástica pode corrigir diferenças importantes, melhorar proporções e aproximar bastante uma mama da outra, mas não deveria vender a promessa de transformar estruturas naturalmente diferentes em cópias exatas.
Em cirurgia de assimetria mamária, um bom resultado não é aquele medido em milímetros. É aquele em que as diferenças deixam de chamar atenção e o conjunto passa a parecer naturalmente equilibrado.
*Fabio A. Naccache é cirurgião plástico e membro da Brazil Health.
(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)

