Onde você estava no 11 de setembro? Nem tudo o que lembramos sobre a data é verdade

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Onde você estava no 11 de setembro? Nem tudo o que lembramos sobre a data é verdade

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Há 25 anos, em uma manhã de um 11 de setembro, o mundo era assombrado por imagens que pareciam saídas de um filme de Hollywood: o que parecia um acidente logo se mostrou um atentado terrorista de dimensões jamais vistas e as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, foram atingidas por aviões comerciais, colapsando horas depois.

Enquanto milhares de pessoas morriam na metrópole, na capital norte-americana. Washington, o Pentágono era atingido por outro ataque. No interior da Pensilvânia, mais um avião que seria usado nos ataques só não chegou ao seu destino porque os passageiros, informados do que havia acontecido em outras partes do país, entraram em confronto com os terroristas e conseguiram fazer o voo United Airlines 93 cair em um descampado.

Quem viveu (mesmo que de longe) 11 de setembro de 2001 não esquece onde estava ou o que estava fazendo no momento em que viu as torres em chamas (ou caindo) pela primeira vez. Ao menos, é isso que repetimos para nós mesmos ao longo desses 25 anos.

Mas será que realmente lembramos tão bem assim? Pode ser que a resposta surpreenda. A menos que você tenha uma memória fotográfica, são boas as chances de estar enganado em algum ponto do seu relato.

Entenda melhor por que a memória que você tem de um evento, mesmo traumático, pode estar repleta de armadilhas.

A memória reescrita por outras vivências

O fenômeno das “falsas memórias” é estudado e debatido por psicólogos, cientistas sociais e historiadores há décadas. Especificamente no caso do 11 de setembro, um famoso trabalho publicado em 2015 ajudou a mapear as lembranças erradas: pesquisadores ouviram mais de 2 mil norte-americanos na semana seguinte aos ataques, questionando-os sobre as circunstâncias em que ouviram falar do atentado e sobre os próprios fatos envolvendo o episódio.

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Depois, eles voltaram a fazer o mesmo um ano, dois anos e dez anos mais tarde. Conforme o tempo passava, essas memórias se tornavam cada vez mais difusas: embora seja realmente muito difícil esquecer os pontos centrais do que aconteceu naquele dia, era comum que algumas das lembranças se confundissem.

Uma pessoa que esteve no trabalho em algum ponto do dia pode recordar erroneamente que viu as torres caírem em uma TV no escritório, quando ainda estava em casa, por exemplo.

Vista de baixo para cima de arranha-céus modernos com fachadas de vidro refletindo o céu azul e nuvens, e uma estrutura escura de pedra no canto inferior direito, possivelmente um memorial. O sol brilha intensamente, criando reflexos luminosos nas superfícies dos edifícios. Algumas árvores sem folhas aparecem no horizonte, indicando inverno.
Memorial às vítimas do 11 de setembro fica no Marco Zero do atentado, ao lado do One World Trade Center, nova torre inaugurada na região em 2014 (Maurício Brum/Veja Saúde)

Mais do que isso: suas memórias não são exatamente uma lembrança do fato em si, mas da última vez que você recordou o evento. Esquecer é parte natural da forma como processamos os acontecimentos da vida e, para cada omissão involuntária, temos uma tendência a preencher esses espaços com alguma lembrança que faça sentido na narrativa que construímos.

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Conte a mesma história várias vezes e ela parece cada vez mais verdadeira na sua cabeça – mesmo se estiver cheia de erros.

E não é só o que você viveu em primeira pessoa que entra aí: relatos de outras pessoas, livros que você leu, filmes e documentários que viu sobre o assunto, podem influenciar a maneira como você “revive” um evento por tabela.

Ainda nos anos 1940, o sociólogo francês Maurice Halbwachs – que se tornaria ele próprio uma vítima de outro evento traumático, morrendo no campo de concentração nazista de Buchenwald em 1945 – desenvolveu o conceito de “memória coletiva” para explicar essas influências externas.

“É muito comum atribuirmos a nós mesmos, como se apenas em nós se originassem, as ideias, reflexões, sentimentos e emoções que nos foram inspirados pelo nosso grupo”, escreveu.

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O mito do episódio de Dragon Ball

No Brasil, as falsas memórias do 11 de setembro têm um exemplo que se tornou conhecido na internet, especialmente entre os Millennials: quem era criança e estava em casa naquela manhã passou anos contando suas memórias vívidas de como o episódio de Dragon Ball Z que via na TV Globo foi interrompido pelo Plantão informando dos atentados.

Só que… isso nunca aconteceu.

Se você lembra de algo assim, pode ter certeza que é uma falsa memória que sua cabeça criou com base em outros relatos (também imprecisos) que deve ter visto na internet.

A própria Globo checou seus acervos e confirmou que o anime nunca foi exibido naquela manhã: a primeira entrada do Plantão interrompeu As Aventuras de Mickey e Donald; já a cobertura que derrubou a programação do resto do dia foi iniciada de vez durante um intervalo comercial subsequente.

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Mais recentemente, isso ganhou o nome de “efeito Mandela”, uma memória que muitas pessoas dizem ter, mas que não tem base concreta nos fatos.

A referência ao líder sul-africano vem de um suposto fenômeno em que várias pessoas alegam “lembrar” de ouvir falar da morte de Nelson Mandela na prisão nos anos 1980, mesmo que ele na verdade tenha vivido até 2013 e inclusive governado a África do Sul nesse meio-tempo.

Qual era a cor do céu naquela manhã?

Parede de concreto com milhares de quadrados azuis em tons variados, formando um mosaico. No centro, uma frase em relevo escuro: NO DAY SHALL ERASE YOU FROM THE MEMORY OF TIME Virgil. O chão polido reflete a parede e uma barreira preta de segurança.
Instalação no Memorial do 11 de Setembro, em Nova York, reconhece a diversidade de memórias em torno do evento, a partir de como cada pessoa lembra da cor do céu no dia do atentado (Maurício Brum/Veja Saúde)

Em Nova York, o Memorial do 11 de Setembro, construído no subsolo das torres originais, conta com uma instalação artística que ajuda a ilustrar como as memórias se modificam ao longo dos tempos: Trying to Remember the Color of the Sky on That September Morning, de Spencer Fintch, reúne 2.983 quadrados com tons diferentes de azul – um para cada vítima dos dois atentados no World Trade Center, incluindo também um ataque a bomba ocorrido em 1993, que deixou seis vítimas.

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O trabalho ressalta como a percepção de cada indivíduo é única: aquela manhã é recordada como um dia que nasceu com céu intensamente azul em Nova York, com o horizonte limpo após tempestades na véspera.

Mas, em meio ao caos da destruição, também há quem lembre da cor do céu com tons cinzentos e quase brancos, como se a fumaça do atentado já estivesse presente de alguma forma. Ninguém, afinal, lembra do mesmo jeito.