“Vi meu filho desfalecer em meus braços”: falta de vacinas na gravidez expõe bebês a doenças graves

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“Vi meu filho desfalecer em meus braços”: falta de vacinas na gravidez expõe bebês a doenças graves

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Sofia tinha apenas dois meses de vida quando um quadro que começou com uma tosse a levou, em menos de 48 horas, ao respirador em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI).“Foi assim que eu aprendi, de uma forma muito dura, que o VSR [vírus sincicial respiratório] é violento – e se agrava rápido”, conta a sua mãe, a empresária Mariana Maciel, de 33 anos.

Nascida prematura, a neném contraiu o patógeno em abril do ano passado. Segundo a mãe, um dia e meio após os primeiros sinais de infecção, a menina já precisou ser internada, pois tinha dificuldades para respirar e se alimentar. 

Em mais algumas horas, seu quadro piorou e ela foi encaminhada à UTI, onde ficou sete dias, à beira de uma intubação. Ela não estava imunizada por vacinas.

“Esse vírus leva vidas. E eu não tinha a dimensão disso”, desabafa Maciel. Na época, por uma série de contratempos, a mãe não conseguiu receber o imunizante, indicado para gestantes, e ainda recente no país — até então, ele estava disponível apenas na rede privada.

O VSR é culpado pela maioria dos casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) em bebês, quadro enfrentado por Sofia. Somente entre 2025 e setembro de 2026, além dela, outras 61 mil crianças com menos de dois anos tiveram essa complicação por causa do patógeno. Delas, 456 morreram.

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A boa notícia é que a vacina foi incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS) em dezembro de 2025. De lá para cá, os casos de doenças respiratórias graves entre menores de seis meses caíram 52,5% no Brasil, conforme divulgado pelo Ministério da Saúde recentemente.

O avanço chama atenção para uma estratégia de proteção que começa antes mesmo de o bebê nascer. É que a vacina contra o VSR não é aplicada nas crianças, mas sim em suas mães, ainda na gravidez. Graças ao método, o bebê recebe os anticorpos maternos e vem ao mundo com proteção já garantida.

Com 86% de cobertura vacinal já alcançados até agora, pode-se dizer que a adesão ao novo imunizante vai bem. Acontece que o mesmo êxito não tem se estendido para os veteranos do calendário obrigatório da gestante, que inclui as vacinas dTpa (contra difteria, tétano e coqueluche), hepatite B, influenza e covid-19.

Estamos longe de ter o nível que precisamos”, avalia a pediatra Isabella Ballalai, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e do Grupo de Trabalho Intersetorial de Vacinação do Adulto e do Idoso (VAI).

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A adesão à vacinação, portanto, ainda enfrenta desafios. Mas, afinal, o que está em jogo quando esses imunizantes são deixadas de lado? Pra que serve cada um deles? E o que o país poderia enfrentar caso a vacinação em gestantes siga caindo? 

VEJA SAÚDE conversou com mães, filhos, autoridades e médicos para entender como a falta de cada uma delas pode fazer diferença na saúde das famílias e na proteção da população. Saiba mais a seguir.

Por que vacinar a mãe

Em 2026, a cobertura da dTpa entre grávidas caiu pelo segundo ano consecutivo. Em outro exemplo negativo, a taxa de cobertura da vacina contra a covid-19 está em 55,56%, enquanto a meta seria vacinar 90% das gestantes brasileiras.

Ao mesmo tempo, de acordo com o Ministério da Saúde, em 2025 houve um aumento de 6,5% nos casos de hepatite B em crianças pequenas no Brasil. E a preocupação com uma alta de outras doenças preveníveis por vacinas também está no radar de especialistas.

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A estratégia é tão bem quista porque alguns imunizantes conseguem realizar a façanha de gerar anticorpos no corpo da mãe que podem ser transferidos ao bebê por meio da placenta, com total segurança.

Essa é uma engenharia muito bem-vinda para os recém-nascidos, já que estão na fase mais vulnerável de suas vidas, quando o sistema imunológico ainda está em construção. Ademais, muitas vacinas ainda não podem ser ofertadas diretamente aos nenéns em seus primeiros meses.

“Com os anticorpos da mãe, o bebê vai ter o tempo que precisa para criar seus próprios anticorpos e se proteger para o resto da vida”, explica Ballalai.

É por isso que Maciel, mãe de Sofia, ainda lamenta a falta de proteção no período em que a sua filha adoeceu, embora hoje ela esteja bem. “Mesmo em um cenário em que ela contraísse o vírus, se estivesse vacinada, os desfechos teriam sido muito menos agressivos“, calcula.

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Na época em que estava grávida, desafios da rotina, dúvidas sobre o momento certo para se imunizar e o nascimento da bebê antes do previsto contribuíram para que ela perdesse a janela de oportunidade.

Depois da internação da criança, a mãe passou a usar as redes sociais para alertar sobre a importância da vacinação e compartilhar o que gostaria de ter sabido antes.

Como funciona a transferência de anticorpos

Em primeiro lugar, uma vacina apresenta ao sistema imunológico uma espécie de “amostra” do agente infeccioso ou de partes dele. Dependendo do imunizante, pode ser uma proteína, um fragmento do micro-organismo ou outra forma segura de estimular as defesas. Esses gatilhos para o sistema imune são chamados de antígenos.

Quando uma grávida toma vacina, suas células imunológicas reconhecem aquele antígeno e produzem anticorpos específicos contra ele, principalmente um tipo chamado imunoglobulina G (IgG).

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Depois disso, o pulo do gato é que, durante a gravidez, existe uma transferência natural de substâncias entre a circulação sanguínea materna e a fetal. Entre elas estão, justamente, os anticorpos IgG.

Aliás, a placenta possui um mecanismo específico para essa tarefa, as proteínas chamadas receptores Fc neonatais (FcRn). Elas capturam IgG presente no sangue materno e ajudam a transportá-la através das células da placenta até a circulação do feto.

Uma vez lá, poderão trabalhar em defesa do bebê por um tempo determinado, até que ele tome suas próprias vacinas.

Infográfico ilustra a proteção de mãe para bebê em uma vacina. Uma gestante é vacinada, seu corpo produz IgG, que atravessa a placenta e chega ao feto, protegendo-o temporariamente
(Laura Luduvig/Veja Saúde)

Segurança em dose dupla

É importante reforçar, porém, que a vacinação das gestantes vai além da proteção ao filho. Ela também garante segurança à própria mãe, já que há um aumento do risco de complicações respiratórias durante a gravidez.

“Então, estamos falando de um binômio materno-fetal; uma proteção dupla”, diz a obstetra Susana Aidé, atual presidente da Comissão Nacional Especializada de Vacinas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

A médica explica que, na gestação, o sistema imunológico abaixa um pouco a guarda para permitir que o organismo conviva com o feto sem rejeitá-lo, enquanto o coração precisa trabalhar dobrado para bombear mais sangue.

Essas alterações podem fazer com que algumas infecções tenham maior chance de causar complicações para as mães, como deficiências respiratórias e miocardite (inflamação no músculo cardíaco).

“E, logicamente, se você evita a complicação materna, também vai evitar parto prematuro, baixo peso ao nascer e morte fetal”, completa a Aidé.

As doenças evitáveis com a vacinação na gestação

Diante da relevância desse escudo duplo, vale conhecer mais a fundo quais são as doenças preveníveis por vacinas e o que está em jogo quando a proteção não chega a tempo:

VSR

O VSR é o principal vírus associado à bronquiolite, uma inflamação dos bronquíolos, pequenas vias aéreas que levam o ar até os pulmões. Essa condição, por sua vez, pode levar à síndrome respiratória aguda grave (SRAG).

Trata-se de um vírus comum e que pode infectar pessoas de todas as idades, mas tende a causar quadros mais graves em bebês, especialmente nos primeiros seis meses de vida, idosos e pessoas com algumas condições de saúde.

Segundo o Ministério da Saúde, ele é responsável por 80% dos casos de bronquiolite e até 60% das pneumonias em menores de dois anos.

Na maioria dos casos, a infecção provoca sintomas semelhantes aos de um resfriado, como coriza e tosse, embora possa levar a problemas respiratórios graves e exigir hospitalizações dos grupos mais vulneráveis. O vírus é especialmente perigoso entre os nenéns com menos de seis meses, que concentram as maiores taxas de incidência, gravidade e letalidade de SRAG por VSR.

Gráfico de barras mostrando a letalidade por SRAG associada ao VSR em crianças menores de 2 anos, de 2023 a 2025. A letalidade é maior em crianças menores de 6 meses, seguida por 6 meses a 1 ano, e 1 a 2 anos, em todos os anos. Em 2023, a letalidade para menores de 6 meses foi de 1,2%, para 6 meses a 1 ano de 1,1%, e para 1 a 2 anos de 0,8%. Em 2024, os valores foram 1,0%, 0,7% e 0,7%. Em 2025, os valores foram 0,8%, 0,6% e 0,7%

 

Somente este ano, foram 25.279 casos de SRAG entre crianças menores de dois anos causados pelo vírus. Assim, no somativo desde a pandemia, o Brasil também acumula milhares de mortes.

E aqui vai um parêntese: além da recente vacinação para gestantes, disponível gratuitamente no SUS, bebês que já nasceram podem ser imunizados contra o quadro com anticorpos monoclonais, como o nirsevimabe (vendido sob o nome Beyfortus). No entanto, o fármaco pode custar até R$3.900,00.

Infográfico com fundo bege e título preto: 1.092 crianças menores de 2 anos morreram por agravamento da infecção por VSR entre 2020 e 2026. Abaixo, centenas de pequenas cruzes vermelhas, representando as mortes, preenchem a maior parte da imagem
(Laura Luduvig/Veja Saúde)

Coqueluche

A coqueluche é uma infecção respiratória, altamente transmissível, causada pela bactéria Bordetella pertussis. Sua principal característica são as crises de tosse seca que podem ser intensas a ponto de comprometer a respiração.

Larissa Oscar, influenciadora digital de 30 anos, conhece bem essa cena. No ano passado, o seu filho, Benjamin, contraiu a infecção aos cinco meses de idade. “Eu vi meu filho ‘desfalecer’ em meus braços“, conta sobre um episódio em que a criança enfrentou crises tão fortes de tosse a ponto de parecer desmaiar.

A doença pegou a família de surpresa. “Eu nunca tinha ouvido falar sobre coqueluche”, conta. Ela diz que, embora mantenha as vacinas em dia, nem sempre sabe exatamente contra quais doenças cada uma oferece proteção.

Além disso, durante a gestação, ela não havia recebido a dTpa. Depois do nascimento, porém, Benjamin começou a ser imunizado com a pentavalente e aguardava completar seis meses para tomar a sua última dose.

Ainda assim, o menino acabou contraindo a infecção, mas a mãe deixa claro o valor das doses que ele tinha recebido: “se com vacinas ele ficou mal, imagine o que teria acontecido se ele não tivesse nenhuma”, diz. É que, apesar do quadro difícil, o menino não precisou ser internado.

O tratamento foi feito em casa por cerca de dez dias. Ver o filho tão pequeno enfrentar crises tão intensas trouxe angústia pra família. “Foi aterrorizante. Eu e meu marido chorávamos muito”, conta.

Casos como esse já foram muito comuns no Brasil. Antes das vacinas, a estimativa era de que uma pessoa infectada pudesse transmitir a bactéria para cerca de 12 a 17 indivíduos, taxa semelhante a do sarampo, um dos vírus mais contagiosos do mundo. 

Assim, no começo dos anos 1980, mais de 40 mil indivíduos ficavam doentes por ano no Brasil – a cada 100 mil habitantes, mais de 30 pegavam a infecção.

“Antigamente, quando algo estava na moda ou famoso, as pessoas falavam: ‘isso é a coqueluche do momento!’, já que a coqueluche causava epidemias importantes”, lembra Ballalai.

Gráfico de linha mostrando o número de casos de coqueluche de 2014 a 2026. Picos em 2014 (8.622 casos) e 2024 (7.757 casos), com queda acentuada em 2020 (232 casos) e 2021 (159 casos)
(Laura Luduvig/Veja Saúde)

Ao longo das décadas seguintes, graças aos imunizantes, esse número caiu progressivamente. A título de comparação, em 2023, o índice havia baixado para apenas 0,1 caso por 100 mil habitantes, segundo o Ministério da Saúde. Ao todo, o país contabilizou apenas 216 infecções naquele ano.

Em 2024, porém, o cenário mudou e foram registrados 7,4 mil casos, o maior número da última década, além de 29 mortes. E 80% das internações ocorreram entre crianças menores de 1 ano, segundo estimativas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Para especialistas, a alta pôde ser explicada por fatores como ausência de vigilância e desigualdades na cobertura vacinal pelo país, mas também a própria natureza cíclica da circulação do vírus.

Agora, o cenário é de, novamente, declínio de casos, mas ainda em estado de alerta. Em 2026, até 3 de setembro, o país havia confirmado 379 casos, dos quais 177 foram entre crianças menores de 1 ano.

Gráfico de barras e linha mostrando a incidência de coqueluche por 100 mil habitantes e a cobertura vacinal no Brasil de 1990 a 2024. A incidência (barras vermelhas) diminuiu após 1990, com picos em 2012-2014 e 2024. A cobertura vacinal (linha bege) oscilou, com queda durante a pandemia de COVID-19 em 2020-2021
(Laura Luduvig/Veja Saúde)

A vacinação contra o quadro faz parte do calendário infantil obrigatório e é realizada com a vacina pentavalente, que também age contra difteria, tétano, hepatite B e Haemophilus influenzae e é aplicada aos dois, quatro e seis meses de idade. Mas a proteção pode começar antes mesmo do nascimento, por meio da vacina dTpa em gestantes.

“Com a vacinação das mães, temos um impacto tremendo na redução da incidência de doenças graves na população”, afirma Lívio Dias, infectologista do Grupo Santa Joana, um dos maiores conglomerados voltadas à medicina materno-infantil da América Latina.

Atualmente, a cobertura da dTpa é de 82,20%, um número menor do que o de 2024, quando o Brasil alcançou os 86,73%, e ainda longe da meta de 95% estabelecida pelo PNI.

Infográfico com 100 ícones de gestantes. 17 ícones vermelhos representam gestantes desprotegidas (17,32%), e 83 ícones bege representam gestantes protegidas (82,68%). O título informa: A cada 100 gestantes brasileiras, em 2026, cerca de 17 não estão protegidas
(Laura Luduvig/Veja Saúde)

Difteria

A difteria é mais uma infecção bacteriana que costuma afetar amígdalas, faringe, laringe e nariz, mas também pode causar lesões na pele. Um de seus sinais mais característicos é a formação de placas branco-acinzentadas na garganta, que podem se espalhar e dificultar a passagem do ar.

Essa bactéria também produz uma toxina que entra na corrente sanguínea, com potencial para alcançar diferentes órgãos e causar problemas como inflamação no músculo do coração (miocardite) ou nos neurônios (neurite), podendo levar a paralisia, comprometimento da respiração e lesões nos rins e fígado.

Antes dos imunizantes, até 1990, a cada um milhão de brasileiros, cerca de cinco poderiam ter difteria. Ou seja, ela nunca foi tão comum como a coqueluche, mas, hoje, a doença se tornou tão rara que a incidência se aproxima de zero. Entre 2014 e 2026, foram confirmados 59 casos, segundo o Ministério da Saúde. Este ano, até o momento, houve duas confirmações.

Ainda assim, o quadro preocupa. Isso porque a doença pode ser fatal para 30% dos indivíduos não vacinados e sem tratamento adequado. Também, as crianças pequenas são o público mais vulnerável.

Infográfico sobre difteria. Um círculo com 10 ícones de pessoas, 3 são caveiras vermelhas e 7 são silhuetas brancas. O texto indica que 3 a cada 10 pessoas não vacinadas que adoecem podem morrer. O risco é maior para crianças pequenas

O sumiço da difteria caminha junto à ascensão das vacinas pentavalente e dTpa. E manter essas coberturas elevadas é ideal, pois, embora a quantidade de infectados seja baixa, a doença não deixou de ser uma ameaça. Aliás, em junho deste ano, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS) publicou um alerta sobre aumento de casos de difteria nas Américas.

Segundo a instituição, até aquele período haviam sido confirmados 163 casos e cinco mortes na região. Mais que o dobro do registrado em todo o ano de 2025, quando houve 72 casos.

O aumento está concentrado principalmente no Haiti, responsável por 159 dos casos e pelas cinco mortes. O episódio serve de alerta às demais nações do continente e reforça que, quando a cobertura vacinal cai, doenças que pareciam controladas podem voltar a encontrar espaço para circular.

Gráfico de linha mostrando o número de casos de difteria de 2014 a 2026. Os casos foram: 6 em 2014, 16 em 2015, 4 em 2016, 5 em 2017, 1 em 2018, 4 em 2019, 2 em 2020, 1 em 2021, 2 em 2022, 4 em 2023, 8 em 2024, 4 em 2025 e 2 em 2026 (até 02/07)

Tétano neonatal

Imagine um recém-nascido que, dias depois de vir ao mundo, começa a ter dificuldade para mamar. Logo depois, o seu corpo enrijece e se arqueia para trás, como um arco. E qualquer barulho ou toque dispara espasmos. Esse é o retrato do tétano neonatal, uma condição rara, mas muito agressiva.

O vilão aqui é a bactéria Clostridium tetani, que costuma entrar pelo coto umbilical quando ele é cortado ou cuidado sem higiene adequada. No corpo, o patógeno libera uma toxina, a tetanospasmina, que sobe pelos nervos até o cérebro e desliga o “freio” que controla a contração muscular.

Esse descontrole é altamente perigoso. Estudos estimam que entre quatro a nove em cada 10 bebês infectados sem tratamento não sobrevivem, geralmente falecendo por parada respiratória.

É por isso que, desde 1989, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu a meta de eliminar o tétano neonatal como problema de saúde pública no mundo. A principal estratégia para isso era, justamente, vacinar as mães

O Brasil aderiu à medida em 1992, com a criação do Plano de Eliminação do Tétano Neonatal. Assim, os casos despencaram de 215 em 1993 para 16 em 2003 – 92% a menos em uma década.

“O tétano é muito grave em bebês. Mas acontecia. Eu mesma cheguei a ver casos”, lembra Ballalai. Hoje, porém, a doença é tão rara que, segundo o último grande balanço, divulgado há dois anos pelo Ministério da Saúde, entre 2014 e 2024 foram confirmados apenas três casos no Brasil: um em 2014, um em 2016 e um em 2020.

Gráfico de barras mostrando a queda de casos de tétano neonatal no Brasil de 1982 a 2024. Em 1983, mais de 700 casos; em 2024, zero. Uma tesoura dourada corta uma fita, simbolizando o fim da doença
(Laura Luduvig/Veja Saúde)

Hepatite B

A hepatite B é uma inflamação no fígado causada pelo vírus HBV. Ela pode ser aguda, resolvendo-se em até seis meses, com a eliminação do vírus no corpo, ou crônica, quando o organismo não consegue exterminá-lo completamente.

Nesse último caso, a agressão ao órgão resulta, estimam estudos, em um risco, pelo menos, 20% maior de morte por cirrose ou por câncer de fígado ao longo da vida.

E são justamente as crianças o público mais suscetível à cronificação, explica o hepatologista Raymundo Paraná, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

“A chance de um recém-nascido que contraiu o vírus não se curar e desenvolver a forma crônica da doença é de 90%. Já para o adulto, a probabilidade de permanecer com o HBV depois de uma infecção aguda é de 5%“, explica o médico.

Infográfico sobre casos de hepatite B entre 2000 e 2025. À esquerda, um ícone masculino com um fígado, indicando 173.895 casos em homens. À direita, um ícone feminino com um fígado, mostrando 141.017 casos em mulheres. O fundo é bege e os ícones são brancos em círculos vermelhos
(Laura Luduvig/Veja Saúde)

Bebês e crianças pequenas não conseguem produzir de forma eficaz uma resposta imune capaz de eliminar o vírus. É por isso que a vacinação é indicada para as mães e, após o nascimento, para as crianças, ainda nas primeiras 12 horas de vida.

A grande preocupação com a transmissão vertical (de mãe para filho): o HBV pode ser transmitido pelo contato com fluídos corporais contaminados, e se faz presente no sangue e no leite materno. Assim, pode ser passado da mãe para bebê durante a gestação, no parto, ao amamentar ou mesmo no convívio em casa.

Sem a vacina contra hepatite B ainda na gestação, a transmissão do vírus de mãe para filho seria um importante mecanismo de perpetuação da doença – e os dados recentes mostram que essa via ainda responde por uma parcela relevante dos casos.

Segundo o Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais 2026, do Ministério da Saúde, o Brasil registrou 31.712 casos de hepatite B em gestantes entre 2000 e 2025. Somente no ano passado, foram 671 casos.

Já a transmissão vertical respondeu por 151 casos em 2025. Olhando para a série histórica, vemos também que, os óbitos entre crianças com menos de cinco anos caíram 15,5% quando se compara 2025 (98 casos) a 2015 (116 casos). Entretanto, entre 2024 e 2025, ocorreu um aumento de 6,5% dos casos nessa faixa etária.

Infográfico com 151 ícones de bebês em rosa e branco, representando o número de recém-nascidos infectados por hepatite B em 2025, com alto risco de problemas hepáticos futuros

Mesmo que a gestante não tenha hepatite B, não tenha histórico da doença e não se considere em situação de risco, a vacina continua indicada caso ela não tenha sido vacinada anteriormente ou esteja com o esquema incompleto. E o bebê ainda deve receber a vacina conforme o calendário.

“A vacina é universal. Toda criança deve ser vacinada, independentemente de a mãe ter ou não sido infectada”, diz o médico.

Influenza

Em 2026, até o momento, mais de 1 milhão de doses da vacina contra a influenza foram aplicadas em gestantes. Já a cobertura vacinal para esse imunizante é calculada de forma conjunta para grávidas, idosos com 60 anos ou mais e crianças de seis meses a menores de seis anos, classificados como “grupo prioritário“. Nessa conta, a cobertura está apenas em cerca de 50%.

A vacina contra o vírus influenza, assim como a da covid-19, tem um objetivo um pouco diferente das demais do calendário. Aqui, é o risco à própria gestante que justifica a vacina em primeiro lugar, embora também aconteça a transferência de anticorpos que protegem o neném.

Em uma revisão, pesquisadores estimaram que gestantes tiveram 144% mais chances de ser internadas por complicações da influenza do que mulheres não grávidas, embora tenha havido grande variação entre as pesquisas avaliadas.

Outros estudos calculam que, no terceiro trimestre, a chance de uma gestante ser internada por problemas respiratórios durante uma temporada de gripe pode ser 5,1 vezes maior do que antes da gestação.

“Portanto, embora a gente saiba que os anticorpos produzidos pela vacina também chegam ao bebê, no caso da influenza e covid-19, o nosso principal objetivo é proteger a mãe das formas graves da doença“, diz Aidé.

Segundo o Observatório Obstétrico Brasileiro SRAG (OOBr SRAG), ao menos 285 gestantes e puérperas enfrentaram quadros de SRAG causados por gripe em 2025.

Infográfico sobre o risco de internação por problemas respiratórios em grávidas. Uma mulher não grávida em círculo bege e uma mulher grávida em círculo vermelho maior, com um feto desenhado no útero. O texto indica que o risco é 5 vezes maior para gestantes
(Laura Luduvig/Veja Saúde)

Covid-19

A vacinação contra a covid-19 entre gestantes teve grandes avanços nos últimos anos. A cobertura passou de 6,74% em 2024 para 54,94% em 2025 e chegou a 55,56% em 2026, segundo o painel de Cobertura Vacinal de Gestantes do MS. Apesar disso, ainda está muito abaixo da meta de 90%.

Isso representa um risco para as mães e bebês. Dados de dois grandes hospitais paulistanos, enviados com exclusividade à VEJA SAÚDE, ajudam a dimensionar a queda nas complicações por covid-19 entre gestantes hoje.

No Einstein Hospital Israelita, foram registrados 11 casos de internação por covid-19 entre 3.576 partos realizados até agosto de 2026, o equivalente a 0,31% deles.

Já nos hospitais do Grupo Santa Joana, foram 48 internações no mesmo período. É um número bem abaixo do visto em 2022 na mesma rede, por exemplo, quando 1.277 gestantes passaram por internações relacionadas ao vírus.

“A gente não consegue separar exatamente quanto dessa redução se deve à vacinação das gestantes e quanto está relacionado à menor circulação do vírus na população em geral. Mas, claro, a inclusão da vacina no calendário oficial das gestantes tem um papel importante nesse cenário”, pondera Dias, infectologista do Santa Joana.

Para ter ideia, em julho de 2020, um estudo publicado no periódico International Journal of Gynecology and Obstetrics  calculou que 124 mulheres gestantes ou que estavam no puerpério haviam morrido por covid-19 no Brasil.

O número, dizia a pesquisa, representava 77% das mortes entre esse público registradas em todo o mundo até aquele momento.

Infográfico sobre mortes de gestantes e puérperas por Covid-19. Um círculo rosa e bege, com um feto dentro de um útero estilizado no centro. A porção rosa, maior, representa 77% das mortes globais concentradas no Brasil. O título informa: Na pandemia, o Brasil concentrou 77% das mortes de gestantes e puérperas por Covid-19 registradas no mundo
(Laura Luduvig/Veja Saúde)

Outro estudo, feito com quase seis mil gestantes, mostrou que, após a 20ª semana, contrair covid-19 grave esteve associada a um risco 2,8 vezes maior de parto prematuro, em comparação com casos leves ou moderados.

Além disso, crianças que contraem o vírus podem enfrentar quadros intensos e preocupantes para as famílias.

São casos como o de Arthur, filho da engenheira química Débora Melo, de 32 anos. Hoje com dois anos e meio, o menino nasceu prematuro. Devido a uma complicação na gestação da mãe a síndrome de HELLP, tipo grave de pré-eclâmpsia , ele veio ao mundo antes do previsto, pesando 1,4 quilo.

Apesar dos desafios e meses de internamento, o pequeno recebeu alta e seguia em tratamentos em casa quando foi surpreendido pela infecção por coronavírus. Na gestação, Melo não recebeu a vacina contra a covid-19. Ela conta que a médica que acompanhava seu pré-natal não a orientou sobre a imunização, que havia entrado no calendário obrigatório das gestantes há pouco tempo.

Assim, aos cinco meses, o bebê teve a doença e enfrentou febre alta, coriza e dificuldade para respirar. “Foi um sufoco“, desabafa a mãe. Ele pôde ser cuidado em casa, mas Melo precisou lidar com a culpa pelo adoecimento do bebê. “Foi uma coisa que eu tive que trabalhar muito na psicoterapia”, diz.

A covid, portanto, não trouxe muitas complicações para o neném. No entanto, aos 11 meses, Arthur enfrentou outro quadro grave: uma bronquiolite por VSR que o levou a sete dias de internação na UTI.

“O VSR foi bem difícil, até porque a gente já tinha um trauma da covid”, conta Melo, que, na época, foi diagnosticada com transtorno de estresse pós-traumático. Naquele ano, o imunizante contra esse vírus ainda não tinha chegado ao Brasil.

E a jornada não acabou aí. Três meses depois de receber alta pela bronquiolite, o menino voltou à UTI por insuficiência respiratória e, segundo a mãe, tem episódio de problemas para respirar com frequência, precisando, até hoje, de fisioterapia respiratória.

As complicações são associadas à displasia broncopulmonar, uma doença pulmonar crônica que afeta recém-nascidos prematuros. Assim, o caso do pequeno Arthur traz um outro alerta importante em relação às vacinas para gestantes. Quando um bebê nasce prematuro, as doenças infecciosas respiratórias são riscos ainda maiores para as suas vidas.

Por isso a proteção extra é tão importante. “Na prática, acompanhando famílias de bebês prematuros, vemos o quanto a prevenção pode mudar essa trajetória”, afirma Denise Suguitani, diretora executiva da ONG Prematuridade.com — onde Melo também é voluntária.

Para uma família que já viveu semanas ou meses dentro de uma UTI neonatal, evitar uma reinternação tem um significado enorme”, completa Suguitani.

As vacinas importantes antes da gravidez

“O calendário vacinal da gestante deve começar ainda no período da pré-concepção”, considera Aidé. Isso porque algumas fórmulas importantes para proteger a futura mãe e o bebê não podem ser aplicadas durante a gravidez.

É o caso principalmente da tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, e da vacina contra a varicela.

Como são imunizantes de vírus vivos atenuados, acabam contraindicados durante a gestação, mas ter imunidade prévia contra esses patógenos é importante para evitar infecções que trazem desfechos negativos para os fetos.

A varicela, por exemplo, pode gerar complicações para a mãe e, em determinadas fases da gestação, provocar a chamada síndrome da varicela congênita, associada a alterações nos membros, olhos, cérebro e pele dos nenéns.

Outra grande preocupação é a rubéola, uma infecção viral que já foi muito comum no Brasil, mas, graças às vacinas, hoje é rara. Enquanto em 1997 ela foi responsável por 32.825 infecções, desde 2009 o país não tem nenhum registro de infectados, com exceção de um caso vindo de outro país em 2014.

Se uma gestante contrai a doença, o vírus pode atravessar a placenta e causar a síndrome da rubéola congênita, que pode provocar no bebê problemas de visão, malformações no coração e, principalmente, perda auditiva.

Por isso, o Ministério da Saúde orienta que mulheres que não estejam imunizadas com a tríplice viral recebam a vacina antes de engravidar e aguardem pelo menos quatro semanas para tentar a gestação.

A influenciadora carioca Beatriz Lopes, de 21 anos, tem o quadro. “Minha mãe tinha apenas 15 anos quando engravidou. E eu nasci com surdez severa a profunda bilateral, devido à rubéola”, diz.

A jovem conta que sua vida foi marcada por exames, consultas, fonoaudiólogos e uso de aparelhos auditivos doados. Aos três anos, recebeu um implante coclear e, por causa dele, pôde, inclusive, tornar-se oralizada. Mas, não faltaram desafios: “vivi muitas situações de exclusão por causa da minha deficiência“, afirma.

Apesar disso, Lopes hoje cursa faculdade de Medicina Veterinária e tem se destacado como criadora de conteúdo, usando as redes sociais para combater estereótipos e a falta de acessibilidade.

Entre as mensagens que pretende deixar com sua jornada, a jovem alerta para a importância da vacinação e do pré-natal para as gestantes.

“A minha história mostra como uma doença durante a gestação pode trazer consequências para a vida toda” diz. “Se compartilhar a minha experiência fizer pelo menos uma pessoa buscar mais informação, conferir a carteira de vacinação ou se cuidar antes da gravidez, já vai valer a pena.”

Hesitação vacinal também atinge gestantes

Uma revisão que reuniu 19 estudos sobre vacinação contra influenza, coqueluche e covid-19 durante a gravidez identificou os principais obstáculos da imunização.

Entre eles, está o medo de que a vacina possa fazer mal ao bebê. Segundo a análise, dúvidas sobre segurança e efeitos adversos aparecem de forma recorrente, assim como a percepção de que a doença não representa um risco tão grande.

Quando a mulher considera baixo o risco de adoecer, pode parecer mais fácil adiar ou recusar uma vacina. Além disso, segundo a pesquisa, existem outras barreiras práticas, como questões socioeconômicas, dificuldade de acesso, falta de conveniência e ausência de uma recomendação clara durante o atendimento e pré-natal.

A informação que chega à gestante fora do consultório também pesa. Redes sociais, notícias, desinformação, familiares e grupos de convivência podem reforçar tanto a confiança quanto o medo.

Segundo especialistas, melhorar a cobertura exige tornar a vacinação mais fácil e a decisão mais segura, com informação clara, recomendação ativa durante o pré-natal e profissionais preparados para conversar sobre os riscos e benefícios.

“É muito importante que a gente crie estratégias para que as mães se sintam seguras quanto à importância dessas vacinas para a proteção delas e dos seus bebês, tendo consciência de que, ao serem ofertadas para elas, elas já comprovaram segurança mundialmente”, resume Aidé.

 

Assim, histórias como a de Sofia, Benjamin, Arthur e Beatriz poderão se tonar cada vez mais raras. “Hoje eu sei o valor da vacina, porque muda todo o contexto e desfechos de uma doença. O período em que Sofia passou internada foi muito traumatizante. Por isso, incentivo todas as gestantes a se vacinarem”, conta Maciel. 

Os verdadeiros “efeitos colaterais” das vacinas