Super El Niño e ‘IA assassina’: preparado para o fim do mundo?

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Super El Niño e ‘IA assassina’: preparado para o fim do mundo?

E há uma ironia final, como resume a crítica Naomi Klein: os mais ricos do mundo são obcecados por se preparar para o apocalipse justamente porque estão, eles próprios, nos empurrando em direção a ele.

Vivemos, hoje, em tempos de economia da atenção. Se antes as plataformas lucravam com o nosso tempo, e depois com o nosso afeto, agora descobriram um combustível mais potente ainda: o nosso medo. Nada prende mais os olhos numa tela do que a sensação de perigo iminente. O apocalipse é um ótimo modelo de negócio.

Então, você está preparado para o fim do mundo? A pergunta é uma cilada, porque assume que a única resposta é a do bilionário: blindar, estocar, fugir, salvar a própria pele.

Mas talvez a pergunta certa seja outra. Não como sobreviver ao fim do mundo, e sim como voltar a viver num mundo que, na verdade, sempre pareceu estar acabando. Toda geração teve o seu apocalipse: a bomba atômica, a Guerra Fria, o buraco na camada de ozônio, o bug do milênio, a pandemia? O mundo é, há muito tempo, um lugar que insiste em não acabar.

Não dá para controlar o El Niño, nem a guerra do outro lado do mundo, nem o que uma IA fará em dez anos. Mas dá para transformar um pouco da ansiedade em ação pequena e concreta: um voto pensado, uma cobrança direta para os políticos locais, um gesto na própria quadra, uma ajuda à vizinha do térreo cuja garagem alagou.

Não é à toa que, nas histórias de Hollywood sobre gente presa por uma tempestade, a saída quase nunca está em reforçar as paredes. Está em furar o isolamento, procurar ajuda, em descobrir que na casa ao lado também tem alguém preso lá dentro.

Talvez o mundo não precise de mais gente construindo bunkers, e sim de de gente abrindo portas, de vizinhos que ligam uns aos outros quando a luz acaba, de cidadãos que ainda acreditam que reclamar pode produzir alguma mudança, de pessoas capazes de desligar a tela por alguns minutos e olhar para o que está acontecendo na rua.

O fim do mundo é uma ótima história para vender medo. Mas, enquanto ele não chega, ainda temos uma escolha mais simples, e talvez mais difícil: continuar vivendo como se o mundo pudesse ser consertado.