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Durante muito tempo, algumas doenças ginecológicas pareciam conduzir quase inevitavelmente a uma mesma solução: retirar o útero.
A histerectomia continua sendo uma cirurgia extremamente importante e, em determinadas situações, é realmente o melhor tratamento. Mas a ginecologia cirúrgica mudou. Hoje, diante de muitas doenças benignas, uma das primeiras perguntas que fazemos é: precisamos retirar esse órgão ou existe uma maneira segura de tratar a doença preservando-o?
Essa mudança não aconteceu apenas porque surgiram equipamentos mais modernos. Mudou também a maneira como enxergamos a paciente. Idade, intensidade dos sintomas, extensão da doença, desejo de engravidar e projeto de vida passaram a fazer parte da decisão cirúrgica.
Preservar quando é possível
Os miomas são um bom exemplo. São tumores benignos muito frequentes que podem provocar sangramento menstrual intenso, anemia, dor e, dependendo da localização, interferir na fertilidade. Mas ter mioma não significa precisar retirar o útero.
Quando existe indicação cirúrgica e desejamos preservá-lo, podemos realizar a miomectomia, retirando apenas os miomas. Dependendo do tamanho e da localização, o procedimento pode ser feito por histeroscopia, laparosopia ou, em algumas situações, cirurgia aberta.
Na endometriose, o raciocínio também precisa ser individualizado. A doença pode comprometer ovários, intestino, bexiga e outras estruturas da pelve, e a cirurgia, quando indicada, procura remover as lesões preservando os órgãos sempre que possível. A retirada do útero não é tratamento obrigatório e nem sequer garante, isoladamente, o desaparecimento de todos os sintomas.
A adenomiose apresenta outro desafio porque a doença está localizada na própria musculatura uterina. Ainda assim, dependendo da extensão, dos sintomas e do desejo reprodutivo, existem alternativas clínicas e procedimentos conservadores que podem ser discutidos antes da histerectomia.
É importante, porém, não criar uma falsa promessa: preservar o útero não significa automaticamente preservar a fertilidade. Cada doença e cada cirurgia podem interferir de maneira diferente na capacidade reprodutiva.
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Cirurgias menores por fora, sofisticadas por dentro
Outra grande transformação ocorreu na forma de chegar aos órgãos. Na histeroscopia, introduzimos uma pequena câmera pelo colo do útero, sem necessidade de cortes no abdômen. É uma via particularmente útil para tratar determinadas alterações localizadas dentro da cavidade uterina, como alguns tipos de miomas.
Na laparoscopia, utilizamos pequenas incisões no abdômen para introduzir uma câmera e instrumentos cirúrgicos. Em comparação com a cirurgia abdominal aberta, procedimentos minimamente invasivos adequadamente indicados costumam proporcionar menor dor pós-operatória, menor tempo de internação e retorno mais rápido às atividades.
A cirurgia robótica acrescentou outra possibilidade. O cirurgião controla os instrumentos a partir de um console e dispõe de visão ampliada e movimentos de grande precisão, características que podem ser úteis especialmente em determinados procedimentos complexos.
Mas é importante desfazer uma ideia comum: a cirurgia robótica não é automaticamente melhor simplesmente porque utiliza um robô. Para doenças benignas, não há demonstração de superioridade geral sobre a laparoscopia convencional. O benefício depende do procedimento, da complexidade do caso e da experiência da equipe.
A melhor cirurgia pode ser não operar
Talvez essa seja a principal evolução da ginecologia cirúrgica. Ter tecnologia disponível não significa que precisamos utilizá-la. Uma mulher com miomas pequenos e sem sintomas pode não precisar de cirurgia.
Outra com endometriose pode controlar a doença inicialmente com tratamento medicamentoso. Uma terceira, com sangramento intenso, anemia e grandes miomas, pode ter indicação cirúrgica. Até duas mulheres com a mesma doença podem receber tratamentos completamente diferentes.
Quando uma paciente deseja engravidar, essa decisão se torna ainda mais delicada. Precisamos considerar idade, reserva ovariana, localização das lesões, cirurgias anteriores e o possível impacto do próprio procedimento sobre a fertilidade.
Por outro lado, preservar o útero a qualquer custo também não é boa medicina. Existem situações em que a histerectomia continua sendo a opção mais segura, definitiva ou adequada, e ela não deve ser apresentada como fracasso do tratamento. A verdadeira evolução está em termos mais possibilidades.
A cirurgia ginecológica moderna deixou de perguntar apenas “como podemos retirar esta doença?”. Hoje acrescentamos outras questões: quanto conseguimos preservar? Qual será o impacto desse tratamento na recuperação, na sexualidade, na fertilidade e na qualidade de vida dessa mulher?
Tecnologia é parte dessa transformação, mas não é a principal.
O avanço mais importante talvez seja compreender que uma cirurgia bem-sucedida não é necessariamente aquela que retira mais. É aquela que trata o que precisa ser tratado, preservando o que pode ser preservado, com segurança e respeitando os planos de vida de cada mulher.
*Marcos Vinícius Maia da Mata é ginecologista e obstetra com especialização em endometriose.
(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)

