Há cem anos, a passagem de duas cientistas pelo Brasil causou burburinho, registrado em jornais e boletins acadêmicos. Eram Marie Curie, a única pessoa até hoje a ganhar dois prêmios Nobel em categorias científicas distintas (Física e Química), e sua filha mais velha, Irène Joliot-Curie, mais tarde também laureada com o de Química.
Naquela viagem, Marie presenteou o país com um conjunto de agulhas contendo sais de rádio-226. O material chegou a ser usado no tratamento de câncer, mas depois acabou guardado e virou rejeito. No ano passado, foi levado aos Estados Unidos para ser reprocessado. E, em um acordo com duração de três anos, espera-se que retorne a pesquisadores brasileiros na forma de um novo material.
Mãe e filha desembarcaram do navio Pincio no Rio de Janeiro em 15 de julho de 1926. Marie tinha 58 anos, e sua filha, 28.
Ao longo de 44 dias de viagem, elas participaram de conferências, foram a gabinetes da Presidência e da prefeitura e receberam homenagens. Também visitaram a serra fluminense, cidades da antiga Estrada de Ferro Central do Rio, a capital paulista, Águas de Lindóia (SP) e Belo Horizonte (MG).
Nesta última, entre 16 e 18 de agosto, Marie doou as agulhas com sais de rádio-226 ao recém-formado Instituto do Radium —hoje, Hospital Borges da Costa, ligado ao Hospital das Clínicas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).
As agulhas, embora tenham sido um ponto de partida para o desenvolvimento da radioterapia no país, não tinham identificação tampouco registro detalhado, como quantas eram ou suas dimensões. Sabe-se que se pareciam com agulhas de costura e que a franco-polonesa as trouxe na mala.
À época, as agulhas foram adotadas na braquiterapia, também chamada de curieterapia. A técnica consiste em aproximar os tubos radioativos do foco tumoral para reduzi-lo. O Radium foi o primeiro instituto do país a fazer o procedimento.
“A braquiterapia, que é aquilo que Marie fez lá atrás, ainda é utilizada, porém não com os mesmos materiais”, afirma o médico radioterapeuta Eduardo Baldon, do Hospital de Clínicas da Unicamp (SP). “Os novos equipamentos trabalham com fontes com um tempo de vida muito mais curto e que são expostas só na hora do tratamento. No caso das agulhas da curieterapia, tinha exposição não só do paciente, mas de toda a equipe.”
No início do século 20, a braquiterapia foi amplamente utilizada.
“O que a madame Curie fez foi sintetizar rádio a partir de minério de urânio, que foi colocado em agulhas e distribuído para diversos lugares que ela visitou”, diz Rogério Mourão, chefe do Serviço de Gerência de Rejeitos do CDTN (Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear) da CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) em Belo Horizonte.
Marie investigou a radiação dos minérios de urânio e cunhou o termo radioatividade. Em razão das pesquisas de radioatividade, em 1903 ela ganhou seu primeiro Nobel, o de Física, dividido com o marido, Pierre Curie (1859-1906), e com Antoine Henri Becquel (1852-1908).
Alguns anos depois, ela descobriu os elementos químicos rádio e polônio (batizado em homenagem ao seu país natal), com propriedades radioativas. O achado lhe rendeu mais um Nobel, o de Química (1911).
Mourão explica que o decaimento do rádio pode produzir um gás altamente contaminante, o radônio, e por isso fontes de rádio foram seladas no século passado para evitar o vazamento. “Essa pressão interna produzida pelo gás gerava fissuras, e a radiação podia vazar, trazendo um elevado risco a médicos e pacientes.”
Embora de alto risco, não se sabe por quanto tempo as agulhas doadas por Marie foram usadas até serem isoladas para conter uma eventual contaminação.
Ainda segundo o chefe do CDTN, em meados de 1990, após o mais grave episódio de contaminação por radiação no país, quando quatro pessoas morreram por contaminação por césio-137 em Goiânia, houve um pedido da então ANSN (Autoridade Nacional de Segurança Nuclear), hoje CNEN, para que hospitais, indústrias e demais serviços que ainda tinham fontes radioativas comunicassem à agência para fazer o recolhimento.
“Depois do assalto se põe tranca na porta, então foi depois do acidente que a CNEN organizou essa ação sistematizada”, diz ele.
O uso dessas fontes foi gradualmente abandonado e substituído por tecnologias mais seguras.
“Foi por volta também do início dos anos 2000 que se descobriu que o rádio-226 tinha na verdade um alto potencial: é necessária uma pequena quantidade de rádio para produzir o actínio. Isso fez com que vários locais que tinham a matéria-prima disponível fossem convocados para fazer esse processo”, afirma Mourão.
O actínio tem sido adotado, com sucesso, no tratamento de tumores agressivos metastáticos e que não respondem bem aos radioterápicos tradicionais, com baixo risco.
Passaram-se décadas até que as agulhas doadas, acondicionadas em tubos de chumbo e concreto mantidos na sede do CDTN na capital mineira, ganhassem um novo destino.
Em 2023, durante uma reunião com a agência internacional em energia atômica (IAEA, na sigla em inglês), em Viena, o Brasil disponibilizou seu estoque de rádio, entre os quais as agulhas, para novas parcerias tecnológicas.
Na hora de selar o acordo de doação do material entre CNEN com a farmacêutica Niowave (EUA), entraram também pesquisadores do Ipen (Instituto de Pesquisas Energia Nuclear), sediado no campus Cidade Universitária da USP, zona oeste de São Paulo.
A Niowave se comprometeu a produzir o actínio a partir de rádio puro por três anos. Em contrapartida, a empresa fará estágios de treinamento com cientistas brasileiros e enviará periodicamente doses de actínio para estudos no Ipen.
“O que tínhamos são, de fato, rejeitos e, há alguns anos, eles não eram pensados como aproveitáveis. É isso que a gente vê como principal vantagem, o principal resultado que a gente já vê desde o começo da parceria, que é a possibilidade de avanço na saúde, tecnologia e radiofarmácia a partir de algo que tinha um passivo ambiental”, afirma Isolda Costa, diretora do Ipen.
Procurada, a Niowave não retornou ao contato da reportagem até o fechamento deste texto.
As agulhas doadas por Marie voltarão ao país em um novo formato, ainda com seu papel de contribuir para a ciência nacional.
Para Ildeu de Castro Moreira, físico e professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), o maior legado da cientista ao país foi como ela ajudou a alavancar as pesquisas e o protagonismo feminino no início do século 20.
“A maior doação que ela fez foi sua própria visita”, avalia ele. “Muitas pessoas não sabem, mas ela foi professora da UFRJ por um mês e meio, ao dar 11 conferências, todas elas lotadas. Ela é o símbolo de uma pessoa dedicada, que não patenteou seus inventos, deu forças para o próprio Borges da Costa, médico do Instituto do Radium, iniciar a radioterapia e também destacou a importância da mulher na sociedade e na ciência.”
