A narrativa coletiva publicada no livro de 2023 conta que lhes prometeram que poderiam retornar para buscar o que deixassem. “Mas nos enganaram”, afirmaram. Parte da viagem ocorreu em caminhões-gaiola usados para transportar animais. Eles seguiram sob o sol, sem água e comida, até Cuiabá, de onde foram levados de avião para o Xingu.
Eles viveram primeiro com os K?sêdjê. Mais tarde, dividiram-se entre as terras indígenas Capoto/Jarina, dos Mebêngôkre, e Wawi. Dez dos 41 transferidos morreram depois da mudança, reduzindo a 31 o grupo levado ao Xingu,segundo o ISA (Instituto Socioambiental).
O historiador e indigenista Elias dos Santos Bigio, ex-coordenador-geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai, foi um dos organizadores para a OPAN (Operação Amazônia Nativa) do acervo de cartas, relatórios e fotografias que, com a participação da Associação Indígena Tapayuna, deu origem ao livro publicado em 2023.
“Eles não vivem no território deles. Vivem de favor. Isso é muito cruel”, afirma Bigio. “Além de toda a crueldade que aconteceu, continuam vivendo num território emprestado”, avalia.
Depois de retirar o povo, o Estado usou sua ausência como argumento para liberar a terra. Uma expedição da Funai encontrou, em 1971, aldeias queimadas e corpos sem sepultamento, mas concluiu que não haveria mais Tapayuna na reserva. Outra inspeção de 1974 recomendou liberar a reserva “para não atrasar o progresso desta região”.
O governo Ernesto Geisel extinguiu a reserva em 1976. Dois anos depois, a área passou da União para o Mato Grosso. Documentos reunidos no livro mostram que o governo estadual pretendia regularizar títulos emitidos sobre a terra indígena.
