O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou ao jornal Clarín que a Argentina precisa “parar com as agressões” contra Lula para que as relações entre os dois países se normalizem.
Em longa entrevista ao diário argentino, o chanceler brasileiro afirmou que as relações entre Brasil e Argentina foram rebaixadas “devido às agressões do presidente argentino (Javier Milei) não apenas contra pessoas, mas contra o Brasil, as instituições brasileiras, os Poderes e o ministro do Supremo que teve papel fundamental para impedir um golpe militar e punir os culpados.”
Vieira ressaltou que “Milei não fez isso uma única vez, mas em várias ocasiões em menos de uma semana, a primeira delas na convenção” do PL. “As imagens daquele evento, aquela atitude do presidente argentino, com palavras graves, foram algo surpreendente para brasileiros e argentinos… Algo espantoso, que depois ele repetiu outras vezes.”
Na semana passada, como revelou a Folha, o Itamaraty informou ao embaixador argentino, Guillermo Daniel Raimondi, que ele poderia voltar para Buenos Aires, já que o governo passaria a fazer tratativas apenas com o encarregado de negócios argentino em Brasília. A saída de Raimondi do Brasil estava prevista para este domingo (9).
A medida de rebaixamento das relações bilaterais, que inclui também a permanência no Brasil de Julio Bitelli, embaixador brasileiro na Argentina, foi uma resposta aos ataques do presidente Javier Milei a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nos últimos dias.
O rebaixamento das relações é a mais grave crise em décadas com a Argentina, um dos principais parceiros comerciais e aliado histórico do Brasil.
O conflito com a Argentina começou no final de julho, quando o mandatário argentino Javier Milei atacou autoridades brasileiras durante o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), em São Paulo.
Em um discurso inflamado, o presidente argentino se referiu a Lula como ladrão e presidiário, e chamou de “lixo careca” o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, que vetou uma visita do ultraliberal a Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar em Brasília.
No domingo (2), Milei renovou os ataques em uma entrevista à LN+, emissora do jornal La Nación. “Falam de interferência política na região. Se há alguém que interfere politicamente na região é Lula, contaminando-a por completo com as ideias imundas do socialismo”, disse.
E continuou, chamando Lula de “vigarista” e “ladrão”. “É um condenado. Saiu por meio de um recurso administrativo. Eu fui ao Brasil e não ataquei os brasileiros; falei em favor dos brasileiros. Falei sobre Lula, o corrupto, o condenado, e sobre o juiz Alexandre de Moraes, que negou a visita a Bolsonaro”.
Na entrevista ao Clarin, Vieira foi indagado sobre o que Buenos Aires deveria fazer para uma retomada das relações. “É preciso ser muito claro em nome dessa relação: esse tipo de agressão deve parar imediatamente, para que possamos trabalhar na relação bilateral, que é tão importante”, afirmou.
“Essas ofensas foram muito graves. Portanto, é preciso preservar essa relação, suspender as agressões e retomar o caminho da normalidade na relação bilateral.”
Mauro Vieira está em Cali, na Colômbia, representando o presidente Lula da Silva na posse do presidente Abelardo de la Espriella, e conversou por telefone com o Clarín.
O chanceler chamou de “mentira completa” as acusações de Milei de que o Brasil estaria financiando uma campanha internacional contra a Argentina. “Isso é totalmente falso. Não é preciso ser economista para perceber o absurdo dessa história de pagamentos de bilhões”.
Vieira também se disse surpreso de Milei chamar Lula de “comunista”. “Surpreende porque o Brasil tem uma economia aberta, hoje com a menor taxa de inflação de toda a sua história, desemprego mínimo e um enorme comércio exterior, além de enormes reservas internacionais. É um país que opera com um modelo capitalista.”
Apesar das críticas de Milei à condução que Lula faz da economia brasileira, na comparação com o Brasil, a Argentina tem inflação e desemprego superiores, e menor volume de reservas internacionais.
Vieira também abordou a crise entre Brasil e EUA e a suspensão do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, pelo governo americano. “Isso sem dúvida faz parte da ofensiva de interferência nas eleições”.
O governo Trump afirmou se tratar de um ato de reciprocidade, porque o Brasil não concedeu o agrément a Daniel Perez, requisitado por Washington em 30 de junho.
“A suspensão do visto da embaixadora do Brasil teve como objetivo pressionar pela aceitação desse candidato, mas a Convenção de Viena não estabelece prazos para a concessão do agrément. Nós sequer encaminhamos o pedido ao presidente Lula, porque ele está muito ocupado a dois meses das eleições”, disse o chanceler.
