
No livro de Andy Weir, Project Hail Mary (publicado no Brasil como Devoradores de Estrelas*), micro-organismos semelhantes a uma bactéria viajam pelo espaço se alimentando da matéria de que são feitas as estrelas, colocando, inesperadamente, estes astros na cadeia alimentar, daí o nome de astrófagos, os comedores de estrelas.
Digo inesperadamente porque consideramos a cadeia alimentar como uma sucessão de “almoços” dos menores animais para os maiores (daí o ditado “sempre há um peixe maior”) e a energia dos alimentos vai assim caminhando de baixo para cima.
No livro (leia antes de ver o filme), são os pequenos astrófagos que comem as estrelas, muito maiores do que eles, pegando sem intermediários sua energia.
Nós sabemos que algo parecido ocorre com os vírus, que se “alimentam” de células que são centenas ou até milhares de vezes maiores do que eles; podemos dizer que eles são citófagos, comedores de células. Mas alguém na cadeia alimentar come vírus? Alguém é virófago? Sim, é o que diz um artigo científico publicado na conceituada revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
Nessa publicação, colegas da Suiça trabalharam com um micro-organismo parecido com um protozoário e que faz parte do plâncton, chamado de Halteria sp., que vive em água doce de rios e lagos e é um bacteriófago, ou seja, comem bactérias (não vale fazer cara de nojo, pois nós também comemos bactérias sempre que comemos qualquer coisa).
Por sua vez, a Halteria serve de alimento para amebas, crustáceos, insetos e peixes.
Só que a Halteria também come um vírus chamado de Chlorovirus, um vírus enorme (virologicamente falando, é claro) que infecta algas que, como a Halteria, vivem na água. Uma vez que os Chlorovirus matam uma célula de alga, eles ficam livres e desprotegidos na água. Uma única Halteria consegue ingerir de dez mil a um milhão de Chlorovirus por dia.
Muitos organismos similares a ela também comem vírus, mas sem querer. Acontece que para a Halteria, os vírus não são só aperitivos. A energia bioquímica e nutrientes como gorduras, aminoácidos e açúcares parecem ser parte relevante da sua alimentação, fluindo das algas para as Halterias e daí para cima na cadeia alimentar, tudo iniciado com uma conexão viral.
Para tornar esse fato surpreendente mais digerível, a relação presa-predador entre a Halteria e o Chlorovirus possivelmente empurre a evolução deste último, resultando em vírus mais aptos a fugir de seus predadores (aqui vamos voltando à ficção científica até que se prove esta especulação).
E nós humanos, comemos vírus?
O tempo todo! Quando comemos células animais ou vegetais, lá vão juntos os vírus. Vírus também podem contaminar os alimentos e a água “por fora”, como norovírus e rotavírus, causando gastroenterites.
Se os considerarmos puramente sob o ponto de vista nutricional, comer vírus faz alguma diferença para nós? Nenhuma! É insignificante o que obtemos de energia e nutrientes pelo que normalmente ingerimos de vírus. Mas voltemos à ficção científica.
Para fazer o equivalente a um bife de hambúrguer de uns 150g precisaríamos de 150 quatrilhões de partículas virais. Para uma maçã, 180 quatrilhões, suficientes para cobrir umas 50 viagens de ida e volta à Lua se alinhadas.
Para alimentar toda a humanidade por um dia, 12,15 sextilhões de partículas virais seriam a receita. Números astronômicos à parte, nossos organismos complexos jamais conseguiriam todos os nutrientes necessários comendo só vírus.
Vírus predadores como tratamento?
E, já que existem micro-organismos que comem vírus, não podemos usá-los como tratamento para doenças virais? O problema é que os vírus causam doenças quando estão dentro das células e não fora, onde são predáveis.
Mas talvez desse para usar algo como a Halteria para comer vírus que estão em águas e esgotos, um tipo de tratamento biológico, algo como (alerta de spoiler) acontece na novela de Andy Weir.
A cadeia alimentar, na qual os vírus, como qualquer ser vivo, estão tanto acima quanto abaixo, é um imenso ciclo bioquímico de reciclagem e fluxo de energia e nutrientes que são parte da própria definição de Vida.
Há 2.600 anos, Lao-Tsé, autor do Tao Te Ching, já sabia disso quando escreveu: “A natureza não se apressa, mas tudo é realizado. A vida se move em ciclos, alimentando-se de si mesma para criar algo novo.”
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