Por Ana Claudia Paixão – Via MiscelAna
Um dos grandes testes de virtuosismo do balé clássico voltou ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Depois de mais de três anos, Don Quixote abriu nesta quinta-feira (20) uma nova temporada reunindo o Ballet e a Orquestra Sinfônica da casa, com música de Ludwig Minkus e coreografia de Marius Petipa, em concepção, remontagem e adaptação de Hélio Bejani e Jorge Texeira.
Inspirado no romance de Miguel de Cervantes, o balé deixa o cavaleiro que lhe dá nome quase como fio condutor para acompanhar, sobretudo, a história de amor de Kitri e Basílio. É também um dos títulos mais populares do repertório por combinar humor, teatralidade, danças de inspiração espanhola e uma sucessão de desafios técnicos que transformam os papéis principais em prova de resistência — e presença cênica.
Para Juliana Valadão, primeira bailarina do Municipal, que interpreta Kitri ao lado do convidado Gabriel Lopes nos dias 21 e 23, a dificuldade está justamente em esconder a dificuldade. “O maior desafio de viver Kitri é equilibrar a exuberância com o controle técnico”, diz. “A coreografia exige muita resistência e segurança. Para mim, o desafio é fazer com que toda essa dificuldade técnica pareça natural. A Kitri precisa parecer livre e cheia de energia 100% do tempo.”
Juliana destaca ainda a comunicação imediata de Don Quixote com a plateia. “É um balé que tem uma energia muito contagiante, e o público reage aos momentos de humor e também à relação entre Kitri e Basílio. Você sente a plateia junto com você, e isso acaba alimentando ainda mais a energia do espetáculo.”
É justamente essa relação entre técnica e interpretação que, para Wagner Carvalho, primeiro bailarino da Ópera de Kazan, na Rússia, diferencia uma grande execução de Basílio de uma noite realmente memorável. “A narrativa é muito importante. As cenas de teatro contam a história, humanizam o personagem e tiram um pouco desse foco do ‘salta, abre, rasga, vira, gira'”, afirma. Para ele, o entrosamento em cena impede que o balé se transforme apenas em “um amontoado de coreografias” e faz dele, de fato, um espetáculo.
Carvalho também chama a atenção para algo essencial nesta temporada carioca: a música ao vivo. “A orquestra é a nossa fala”, resume. “No palco os artistas estão contando a história, mas no fosso os artistas também estão contando a história.”
Com regência de Tobias Volkmann, Don Quixote fica em cartaz até 30 de agosto, com diferentes formações nos papéis de Kitri e Basílio. A montagem reúne ainda Márcia Jaqueline e Cícero Gomes, Manuela Roçado e Rodrigo Hermesmeyer, além de Marcela Borges e Mateus Imperial.
