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A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga a morte da professora Giulia Silva de Araújo, de 26 anos, que faleceu na última sexta-feira (28) após procurar atendimento médico e receber alta duas vezes. Vitimada por uma parada cardiorrespiratória, ela foi liberada com os médicos atribuindo os sintomas ao seu histórico de ansiedade.
O caso trágico gerou dúvidas sobre até que ponto os sintomas de ansiedade podem ser confundidos com problemas de saúde mais sérios, que eventualmente levam a uma parada cardíaca.
Entenda melhor o que se sabe sobre o episódio e a associação entre sinais de ansiedade e questões de saúde que podem matar.
Entenda o caso
Com dores no peito, Giulia procurou o Hospital Municipal Francisco da Silva Telles, em Irajá, na zona norte do Rio de Janeiro, no começo da manhã da última sexta-feira.
Segundo as informações disponibilizadas até o momento, a professora apresentava dor esternal (outro nome para dor no peito, em referência ao osso esterno, que fica no meio do tórax) e fadiga. Ela foi submetida a um eletrocardiograma e, sem alterações, recebeu alta às 9h22, menos de uma hora após ser admitida na unidade de saúde.
Como Giulia tinha histórico de ansiedade, a equipe que a atendeu teria atribuído os sintomas a um episódio relacionado ao transtorno. No entanto, ela não melhorou, e voltou ao mesmo hospital cerca de duas horas mais tarde.
A paciente foi outra vez submetida a exames que não teriam indicado alterações importantes. Após ficar um tempo em observação, sua nova alta foi registrada às 13h19, sem um novo diagnóstico.
O quadro seguiu piorando nas horas seguintes e Giulia entrou em parada cardiorrespiratória no final da tarde.
Na última vez, ela foi levada a um hospital em Duque de Caxias, passando por procedimentos de reanimação que não deram resultados, e o óbito foi registrado às 17h25, com a causa atribuída a um tamponamento cardíaco, nome dado ao acúmulo excessivo de fluidos entre o coração e o pericárdio.
Dor esternal e falta de ar são sintomas de ansiedade?
A possível confusão no caso de Giulia tem razão de ser: sintomas típicos de ansiedade muitas vezes apresentam características bastante semelhantes a um problema cardíaco mais sério.
Uma crise de ansiedade pode elevar os batimentos do coração, e essa taquicardia é capaz de produzir sintomas como dor no peito e falta de ar – sinais que também aparecem em um infarto, por exemplo.
É para diferenciar as situações que exames complementares acabam sendo fundamentais. No caso de Giulia, porém, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro enfatiza que todos os protocolos teriam sido seguidos para descartar um quadro cardíaco agudo: ela foi submetida a eletrocardiograma, hemograma completo e radiografia do tórax.
De acordo com a SMS, nenhum exame apresentou qualquer alteração.
É possível ter infarto com “exames normais”?
O tamponamento cardíaco registrado como causa do óbito de Giulia é compatível com quadros como o infarto agudo do miocárdio, que em mulheres também é conhecido por produzir outros sintomas relatados, como a fadiga. No momento, um infarto é apenas uma hipótese, não um diagnóstico formalizado no caso dela.
Infelizmente, é possível ter um infarto sem alterações no eletrocardiograma, e exames como a radiografia torácica não são úteis para diagnosticar o quadro (seu principal objetivo é descartar outras lesões que podem causar dores no peito).
As informações disponibilizadas até o momento também não deixam claro se Giulia foi submetida a um exame de sangue para avaliar os níveis de troponina, biomarcador associado a lesões no músculo cardíaco, que não é incluído no hemograma de rotina.
Mesmo que isso tenha ocorrido, porém, a troponina também pode levar algumas horas para começar a se alterar, dificultando o diagnóstico sem que haja medições seriadas, realizadas mais de uma vez.
O caso segue sob investigação para apurar a causa de fundo para o tamponamento cardíaco e se houve falhas no atendimento recebido pela professora.
