O Flamengo vive uma contradição nesta temporada cada vez mais evidente no mercado. De um lado, o clube investe milhões de euros para reforçar o elenco profissional. De outro, precisa negociar jogadores formados no Ninho do Urubu para ampliar as receitas e equilibrar o caixa.
A Agência RTI Esporte apurou que esse tipo de negociação se tornou comum na gestão de Luiz Eduardo Baptista no Flamengo. O clube tem priorizado a manutenção de percentuais dos jogadores, mesmo quando a saída não gera uma receita imediata.
A venda de Ryan Roberto ao Shakhtar Donetsk, por até € 10 milhões, foge desse padrão. A maior parte das negociações recentes, porém, envolve pouco ou nenhum dinheiro imediato. Rayan Lucas, Kaio Nóbrega e Alan Santos deixaram o clube sem gerar receita imediata.
Iago Teodoro rendeu US$ 1,5 milhão por 50% dos direitos. João Da Mata saiu por US$ 300 mil. O modelo preserva percentuais para futuras vendas, mas reduz o controle da diretoria rubro-negra sobre os negócios.
Quanto o Flamengo investiu em reforços?
A necessidade de fazer caixa ganha relevância diante do comportamento do clube no mercado da bola. Na primeira janela de 2026, por exemplo, o Flamengo fez investimentos elevados, com a contratação de Lucas Paquetá como principal exemplo.
A operação pelo meia chegou a € 42 milhões, valor que ultrapassou R$ 260 milhões na cotação da época, sendo € 25 milhões foram pagos à vista. Nesse cenário, cada venda de jogador formado na base ganha importância.
Não apenas pelo dinheiro que entra, mas também pela possibilidade de transformar o investimento feito na formação em receita recorrente. O contraste aparece justamente quando jovens deixam o clube sem que tenham recebido sequência suficiente no profissional.
As negociações da base do Flamengo
Alan Santos: saída sem dinheiro imediato
Alan Santos é ponta-esquerda e também pode atuar como centroavante. Aos 19 anos, o atacante deixou o Flamengo para defender o Benfica B sem gerar pagamento imediato. O Rubro-Negro manteve 50% dos direitos econômicos.
O jogador tinha pouco espaço com Leonardo Jardim e disputou três partidas pelo profissional em 2026. Alan Santos tinha vínculo com o Flamengo até 2026. A falta de oportunidades pesou na decisão de negociá-lo, embora ele tivesse se destacado na base.
Kaio Nóbrega: volante que também saiu de graça
Kaio Nóbrega é volante e deixou o Flamengo rumo ao Estoril, de Portugal. O clube não recebeu valor pela transferência, mas preservou 30% dos direitos econômicos. O jogador, de 19 anos, assinou contrato de três anos com os portugueses.
No Flamengo, participou de apenas duas partidas pelo profissional no início do Campeonato Carioca. A situação é emblemática. Um jogador formado no clube deixa a Gávea sem gerar receita imediata, justamente quando o Flamengo precisa ampliar suas fontes de caixa.
Rayan Lucas: 50% dos direitos e nenhum pagamento
Rayan Lucas é volante e passou por todas as categorias do Flamengo desde o sub-11. O jogador chegou a atuar pelo Sporting antes de retornar ao clube carioca. Em agosto de 2026, foi transferido para o Alverca, de Portugal, em um negócio sem compensação financeira imediata.
O Flamengo manteve 50% dos direitos econômicos, e o novo contrato tem quatro anos. A justificativa esportiva foi clara: Rayan praticamente não teve espaço com Leonardo Jardim. O treinador avaliou que o jovem não teria sequência no elenco principal.
Iago Teodoro e João Da Mata renderam pouco
Iago Teodoro, zagueiro da base rubro-engra, foi vendido ao Orlando City por US$ 1,5 milhão. O valor corresponde à compra de 50% dos direitos econômicos. O defensor assinou contrato até 2029 e tinha apenas cinco partidas pelo profissional do Flamengo antes da transferência.
Já João Da Mata, zagueiro, foi negociado com o Konyaspor por US$ 300 mil. O Flamengo manteve 10% dos direitos, enquanto o restante pertencia ao Grêmio. O caso mostra como a falta de espaço no profissional pode reduzir a exposição e o valor de mercado do jogador.
Guilherme Barbosa também deixou pouco retorno
Guilherme Barbosa, meio-campista que também atuava como meia central e também podia exercer a função de volante, foi negociado com o Goiás. O Flamengo manteve 10% dos direitos econômicos da joia.
A operação, assim como outras saídas da base, representa mais uma tentativa de preservar participação em uma possível valorização futura do jogador. O problema é que o clube precisa esperar uma segunda transferência para transformar esse percentual em receita relevante.
Ryan Roberto é a exceção da lista
Ryan Roberto, por exemplo, representa o contraponto. O atacante de 18 anos foi vendido ao Shakhtar Donetsk por € 9,5 milhões fixos, mais € 500 mil em bônus. O Flamengo ainda manteve 10% de uma futura transferência.
O caso também expõe uma dificuldade. Ryan Roberto tinha contrato somente até março de 2027 e não pretendia renovar. Sem a negociação, o Flamengo correria o risco de perder o jogador de graça no mercado da bola.
Ainda assim, o clube conseguiu transformar uma situação contratual delicada em uma operação de até € 10 milhões. O cenário reforça a discussão sobre a base. Vender jovens é parte natural do futebol moderno.
A questão é quanto o Flamengo consegue extrair dessas negociações. Sem oportunidades no profissional, os jogadores perdem valor e o clube fica pressionado a negociá-los antes do fim do contrato. Nesse cenário, acaba aceitando operações de baixo retorno.
No fim, a conta não está apenas nos milhões gastos em reforços. Está também no valor que o Flamengo deixa de capturar quando seus próprios jogadores não têm espaço para provar quanto podem valer com a camisa rubro-negra.
