Separados por apenas um ponto, pilotos chegaram à categoria com experiências distintas e terminaram a temporada entre os destaques
19 ago
2026
– 14h12
(atualizado às 14h14)
A temporada 12 da Fórmula E terminou com Pascal Wehrlein conquistando o campeonato, mas também marcou o início da trajetória de dois novos nomes no grid em 2025/26. Felipe Drugovich e Pepe Martí chegaram dispostos a enfrentar os desafios de uma categoria mundial e transformar a pressão em propósito. Enquanto o brasileiro desembarcou com uma experiência pontual, após realizar testes de rookie e disputar duas corridas pela Mahindra em 2025, substituindo o experiente Nyck de Vries, o espanhol encarou pela primeira vez a experiência de estar na Fórmula E.
Há diferenças notórias na trajetória dos dois automobilistas. Drugovich, um pouco mais velho, foi campeão da Fórmula 2 em 2022 e fez parte do programa de pilotos da Aston Martin, atuando como reserva da equipe de Fórmula 1 entre 2023 e 2025. Martí, por sua vez, competiu na Fórmula 2 em 2024 e 2025 pela Campos Racing e integrou a academia de pilotos da Red Bull. As experiências na mesma categoria de base, mas em níveis distintos, não impediram que os dois terminassem o campeonato separados por apenas um ponto. O espanhol somou 66, enquanto o brasileiro terminou com 65.
Mais do que a proximidade na pontuação, a temporada mostrou dois processos diferentes de adaptação à Fórmula E. Para Drugovich, 2025/26 representou a oportunidade de transformar as duas corridas disputadas pela Mahindra em Berlim, no ano anterior, em uma temporada completa. Para Martí, o desafio era ainda maior. O espanhol precisava lidar com uma série de coisas, como conhecer o carro, o companheiro de equipe, os circuitos e a dinâmica da categoria enquanto disputava pela primeira vez um campeonato mundial.
Martí respondeu ao desafio de forma surpreendente. Pela CUPRA KIRO, começou a temporada pontuando em São Paulo e, ao longo das etapas, passou a aparecer com mais frequência na disputa pelas primeiras posições. O primeiro pódio veio na corrida 1 de Mônaco, onde terminou na terceira colocação, antes de conquistar sua melhor colocação, o segundo lugar em Sanya. Os resultados foram suficientes para colocá-lo entre os destaques e consolidar sua campanha como o melhor estreante da temporada.
A evolução de Pepe também aconteceu em meio a um processo de aprendizado que vai além dos resultados. A Fórmula E exige uma leitura diferente das corridas tradicionais de monopostos, principalmente pela necessidade de administrar energia, escolher o momento dos ataques e lidar com estratégias que podem alterar completamente a ordem de chegada. Para um piloto recém-chegado da Fórmula 2, a adaptação não envolve apenas velocidade, mas uma nova forma de interpretar cada volta.
Drugovich, por outro lado, iniciou o campeonato com uma vantagem que Martí não tinha. O brasileiro já conhecia bem o cockpit de um carro de Fórmula E. A experiência adquirida com a Mahindra em Berlim permitiu que chegasse à Andretti sabendo um pouco mais sobre o comportamento do carro e as particularidades do campeonato. Ainda assim, transformar esse conhecimento em consistência ao longo de uma temporada inteira era um desafio diferente.
Além das questões em pista, o brasileiro teria que lidar com um companheiro de equipe que já havia sido campeão e era considerado um forte competidor. Felipe também precisou lidar com a pressão de defender uma vaga em uma equipe tradicional enquanto buscava consolidar seu espaço no grid, o que poderia evidenciar uma desvantagem diante de um piloto recém-chegado. Apesar das circunstâncias pouco favoráveis, encontrou seu melhor momento em Mônaco, onde terminou a corrida 2 na terceira posição e conquistou seu primeiro pódio pela Andretti, resultado que representou um dos principais pontos altos de sua temporada.
A proximidade entre os dois torna a comparação ainda mais curiosa. O espanhol terminou à frente em número de pontos e levou o título de Rookie do Ano, mas o campeão da Fórmula 2 encerrou o campeonato duas posições acima na classificação geral. No fim, um ponto separou trajetórias que começaram de lugares diferentes, tiveram um ponto de encontro e chegaram praticamente ao mesmo destino.
A diferença também evidencia uma característica da Fórmula E. Experiência prévia não garante uma adaptação imediata, assim como a falta dela não impede um piloto de disputar posições de destaque. Em uma categoria na qual estratégia, eficiência e leitura de corrida têm peso semelhante à velocidade, a capacidade de aprender rapidamente pode ser tão importante quanto o currículo carregado pelo piloto antes de chegar ao grid.
Para Martí, a temporada terminou com a confirmação de que a aposta em um jovem piloto vindo da Fórmula 2 poderia render resultados imediatos. Para Drugovich, o campeonato representou algo diferente. Depois de anos tentando embarcar na Fórmula 1 sem conseguir uma vaga titular, o brasileiro finalmente encontrou na Fórmula E um espaço para construir uma trajetória como piloto de uma categoria mundial.
Agora, os dois entram em uma nova fase. A temporada 2026/27 será marcada pela chegada da Gen4, uma mudança técnica que promete alterar novamente a dinâmica do campeonato. Martí terá pela frente sua segunda temporada, enquanto Drugovich disputará seu segundo campeonato completo. A partir daqui, a comparação deixa de ser sobre adaptação e passa a responder uma pergunta mais difícil: quem conseguirá transformar o primeiro ano em uma carreira consolidada na Fórmula E?
