Por Ana Claudia Paixão – via MiscelAna
O diretor Kevin Macdonald construiu uma carreira justamente evitando ficar preso a um único gênero. Vencedor do Oscar pelo documentário One Day in September, ele dirigiu Forest Whitaker em O Último Rei da Escócia, mergulhou na música em Marley e Whitney e, mais recentemente, assinou One to One: John & Yoko. Agora, em The Runner, troca novamente de registro para comandar Gal Gadot em um thriller que transforma uma corrida por Londres em uma longa situação de suspense.
No filme, Gadot interpreta Maia Marten, uma advogada cujo filho é sequestrado. A partir daí, ela recebe ordens de uma voz desconhecida pelo telefone: precisa continuar correndo, obedecer a cada comando e não contar a ninguém o que está acontecendo. É uma premissa familiar ao gênero, algo que Macdonald não tenta negar.
“Há apenas um certo número de histórias no cinema”, brincou o diretor durante nossa conversa para o Blog do Amaury Jr. Para ele, o desafio estava justamente em pegar essa estrutura conhecida e dar a ela uma leitura contemporânea. E é aí que entra o celular, praticamente um personagem do filme. A mesma tecnologia que permite a Maia continuar conectada enquanto corre também a mantém permanentemente controlada.
Macdonald vê nisso uma espécie de sátira da nossa própria dependência tecnológica. Hoje carregamos voluntariamente um aparelho capaz de saber onde estamos, registrar nossos movimentos e manter nossa atenção durante praticamente todo o dia. Em The Runner, essa relação aparentemente banal se transforma em ameaça.
Londres também não está ali apenas como cenário. Macdonald vive na cidade e contou que podia caminhar de casa até alguns dos lugares usados nas filmagens. A trajetória de Maia foi pensada como uma rota possível: ela começa em Hampstead, atravessa Hampstead Heath — passando inclusive perto da casa do diretor — e segue em direção ao centro. São cerca de cinco milhas, pouco mais de oito quilômetros.
Filmar alguém correndo pelas ruas de Londres, porém, trouxe dificuldades muito concretas. Gal Gadot acabou quebrando o pé ao pisar em uma superfície irregular durante as gravações, obrigando a produção a encontrar novas maneiras de concluir algumas das sequências, combinando dublês e efeitos.
É justamente essa fisicalidade que Macdonald queria preservar. The Runner depende da sensação de que Maia está realmente atravessando Londres enquanto o espaço ao redor dela vai se fechando. A tecnologia pode comandar a história, mas é o corpo da personagem — correndo, cansando e tentando descobrir quem está do outro lado do telefone — que mantém o suspense em movimento.
