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Mulheres sabem bem que o avanço da idade sempre foi considerado um obstáculo a mais para a gestação (embora não a impeça!). Não à toa, técnicas como o congelamento de óvulos buscam preservar a fertilidade muito além da idade natural.
Com homens, a história costuma ser diferente: é muito mais comum ouvir falar de casos de paternidade tardia, e raramente se fala dos riscos ou dificuldades associados à idade do pai.
O recente anúncio do ator Sidney Sampaio, que no final de agosto confirmou que será pai outra vez aos 46 anos, voltou a gerar dúvidas sobre a questão: será que existe uma idade limite para homens que desejam se tornar papais mais tarde na vida? E é preciso tomar algum cuidado extra?
Veja o que a ciência sabe hoje sobre a paternidade após os 40.
Declínio da qualidade do esperma
Primeiro, é bom ser direto: sim, do mesmo modo que acontece com as mulheres, o envelhecimento natural também impõe mais dificuldades para homens que tentam engravidar suas parceiras.
A grande diferença é que, enquanto para elas há um “fim” bem delimitado para a idade fértil (a menopausa), em tese um homem pode gerar filhos até o final da vida, mesmo que com probabilidades cada vez menores de fazer isso.
Estudos apontam que a qualidade dos espermatozoides declinam continuamente ao longo da vida: esta robusta meta-análise de 2015, que avaliou 90 trabalhos com dados de quase 100 mil homens, observou declínio estatisticamente significativo ao longo dos anos em relação a volume, motilidade, morfologia normal e integridade do DNA dos gametas masculinos.
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Tudo isso tem consequências nas chances de gerar uma gravidez viável. Esta revisão de 2018, por exemplo, apontou que as fragmentações do DNA espermático aumentam cerca de 3% ao ano de idade do homem, levando a um risco relativo de mutações genéticas até 10 vezes maior em pais mais velhos.
De forma simplificada, isso não só reduz as chances de fecundação, mas também aumenta os riscos de aborto espontâneo e perda fetal.
Portanto, ainda que a saúde e a idade da mulher sejam muito mais determinantes na hora de fazer um acompanhamento pré-natal diligente, casais em que o homem já passou dos 40 também devem ter atenção extra não só às possíveis dificuldades ao longo da gravidez, mas outras alterações que podem ter impactos sobre a saúde da criança.
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Alterações que exigem atenção
Além da gestação, o que a ciência tem demonstrado é que filhos de pais mais velhos têm mais chance de apresentar questões relacionadas à saúde cognitiva e psiquiátrica.
Diferentes trabalhos têm observado uma maior incidência de transtornos como a esquizofrenia e o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) conforme a idade paterna aumenta.
Esse trabalho espanhol de 2010, por exemplo, avaliou mais de 30 mil pacientes psiquiátricos realizando controles para a idade da mãe, e concluiu que havia um risco quase duplicado de comprometimento cognitivo quando a criança tinha o pai na faixa dos 40 aos 45 anos, se comparada a um pai de 25 anos ou menos.
Uma correlação entre a idade paterna e uma maior incidência do autismo também tem sido observada em diferentes populações.
Esta meta-análise, que envolveu pesquisadores de Suécia, Israel, Reino Unido e Estados Unidos, encontrou um risco 2,2 maior de autismo em bebês que tinham pais com 50 anos ou mais, quando comparados a filhos de homens abaixo dos 30 anos.
O resultado se manteve mesmo após os cientistas controlarem fatores relacionados à idade da mãe e fatores de risco típicos para o autismo.
Apesar dos resultados, é importante destacar que a maioria dos trabalhos vem demonstrando uma correlação entre a idade paterna e esses transtornos, não uma relação de causa e efeito comprovada.
Uma das hipóteses mais discutidas é uma maior chance dos espermatozoides terem um número crescente de mutações de novo (alterações genéticas novas e não hereditárias) conforme a idade aumenta, o que geraria esses riscos.
Existe uma idade limite para ter filhos?
Não! Enquanto você tiver gametas viáveis, você tem chances de vivenciar uma gravidez. Entre mulheres, há um limite mais rígido com a menopausa, mas mesmo essa idade varia muito de pessoa para pessoa.
Já entre os homens, a viabilidade dos espermatozoides até pode “zerar” em alguma situações, mas outros fatores de saúde tendem a ser até mais determinantes do que a idade.
Existem, porém, alguns limites a considerar quando a pessoa (ou o casal) pensa em recorrer à reprodução assistida.
No Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) estabelece a idade máxima de 45 anos para a doação de gametas masculinos.
Esse limite já foi de 50 anos, mas foi reduzido em 2022 para reagir às evidências científicas que indicam um aumento dos riscos associados a espermatozoides “mais velhos”.
Vale lembrar que o declínio da qualidade do sêmen não é idêntico para todos: a idade em que os espermatozoides se tornam menos viáveis pode vir antes ou depois em função de fatores genéticos e de estilo de vida, que incluem alimentação, sedentarismo, consumo de álcool, cigarro e drogas ilícitas, e até mesmo o histórico psiquiátrico familiar, entre outras questões.
