‘Não sei se vai continuar’: Maresca faz alerta sobre tendência tática que mudou a Premier League

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‘Não sei se vai continuar’: Maresca faz alerta sobre tendência tática que mudou a Premier League

Enzo Maresca relatou uma mudança na Premier League. Durante anos, o futebol inglês foi utilizado como referência mundial para o desenvolvimento do jogo posicional. Agora, porém, uma das principais tendências da liga é justamente uma tentativa de desmontar essas estruturas.

A marcação individual ganhou espaço, os duelos aumentaram e o jogo ficou mais físico. As jogadas ensaiadas passaram a ocupar uma parcela cada vez maior da preparação das equipes. E, na avaliação do novo treinador do Manchester City, tudo isso alterou profundamente a maneira como as partidas são disputadas na Inglaterra.

Em entrevista ao “The Athletic”, o italiano identificou as jogadas ensaiadas e a marcação individual como as principais mudanças ocorridas na Premier League nos últimos anos. Mais do que constatar a transformação, entretanto, Maresca apresentou uma espécie de previsão: a tendência que dominou o futebol inglês pode estar perto de encontrar seu próprio limite.

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A Premier League ficou mais individual, segundo Maresca

Em comparação com três anos atrás, a grande diferença são as jogadas ensaiadas, segundo Maresca: “Naquela época você não podia dizer que não era uma liga física. Ainda era forte. As jogadas ensaiadas são a grande mudança, e agora todo mundo marca individualmente.”

A ascensão da marcação individual mudou a forma como os times lidam com as referências em campo para impedir a construção adversária. Em vez de simplesmente proteger determinadas regiões, muitos times passaram a acompanhar jogadores específicos por todo o gramado.

Pep Guardiola abraça Enzo Maresca (Foto: PA Images/Icon Sport)
Pep Guardiola abraça Enzo Maresca (Foto: PA Images/Icon Sport)

O zagueiro pode seguir o atacante que recua para receber mesmo quando isso significa abandonar momentaneamente sua posição original. E a consequência é importante para quem tenta construir o jogo. O futebol posicional tradicional procura criar superioridades através da ocupação racional dos espaços. Um lateral aberto, um meia entrelinhas e um ponta podem formar uma estrutura que obriga a defesa a tomar decisões: quem salta? Quem permanece? Onde aparece o homem livre?

Quando a resposta é uma marcação individual agressiva, parte desse mecanismo deixa de funcionar. O defensor não precisa necessariamente escolher entre espaço e jogador, ele pode simplesmente acompanhar seu adversário.

Para o treinador do Manchester City, o PSG representa talvez o melhor exemplo de como uma equipe pode transformar a marcação individual do adversário em uma vantagem própria.

“Você precisa que seus jogadores criem superioridade numérica contra quem os está marcando. Por exemplo, por que o PSG é tão bom? Porque todos os times marcam individualmente e eles têm o Achraf Hakimi na lateral, bom no um contra um. Nuno Mendes na lateral, bom no um contra um. Os pontas, os meio-campistas, a maioria dos seus jogadores não é fisicamente forte, mas eles são bons porque conseguem passar pelo seu marcador e têm liberdade para conduzir a bola.”

Se o adversário acompanha cada jogador individualmente, vencer um duelo pode desmontar toda a estrutura defensiva. O jogador que dribla seu marcador não encontra necessariamente outro defensor imediatamente à frente, porque o segundo defensor também pode estar ocupado seguindo seu próprio adversário.

É por isso que o drible ganha uma importância diferente contra a marcação individual. Contra uma defesa em zona, superar um marcador não significa necessariamente eliminar uma linha inteira. O defensor seguinte pode estar protegido dentro de sua zona e pronto para atacar o portador da bola.

“Não é apenas em uma posição: contra um time que marca individualmente, você precisa de laterais e jogadores que consigam vencer seus duelos. É por isso que o PSG nos últimos dois ou três anos tem sido o melhor time, porque eles têm jogadores que vencem seus marcadores no um contra um”, resumiu Maresca.

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O contra-ataque ao contra-ataque

Luis Enrique, técnico do PSG
Luis Enrique, técnico do PSG (Foto: Avni Retkoceri / GEPA pictures / IMAGO)

Existe, porém, uma segunda parte na análise de Maresca que talvez seja ainda mais interessante. O italiano não acredita que a marcação individual continuará sendo dominante por muito tempo. Isso acontece porque as equipes que constroem o jogo estão aprendendo a atacar justamente o comportamento que durante algum tempo foi utilizado para neutralizá-las.

“Não sei se vai continuar assim Por exemplo, veja a temporada passada, quando o Newcastle jogou contra o Barcelona e foi 6 a 1. Atalanta e Bayern de Munique foi 6 a 1. O Chelsea tentou marcar individualmente contra o PSG quando saí e eles os destruíram.”

Maresca está identificando uma espécie de processo de adaptação. Primeiro, os times perceberam que a marcação individual poderia dificultar a construção de equipes posicionais. Depois, os treinadores começaram a montar elencos mais preparados para sobreviver a esse tipo de pressão. Agora, os melhores ataques estão procurando manipular a própria marcação individual.

O raciocínio é semelhante ao de várias revoluções táticas do futebol: uma estratégia se torna dominante porque oferece uma resposta eficiente ao problema mais comum da época; com o tempo, os adversários aprendem a identificar suas fragilidades e desenvolvem uma nova resposta. Na visão de Maresca, esse processo já começou.

“Geralmente, o time que estava defendendo encontrava a solução marcando individualmente. Agora, os times que tentam construir o jogo estão tentando encontrar soluções contra a marcação individual. Não sei quando, mas haverá uma pequena mudança.”

Uma das maneiras mais interessantes de enfrentar uma marcação individual é justamente parar de pensar em termos de posições. Se um atacante é acompanhado pelo zagueiro, por exemplo, pode abandonar sua posição original e arrastar o defensor consigo. Um segundo jogador ocupa o espaço liberado. Um terceiro aparece no espaço deixado pelo segundo marcador.

As bolas paradas que venceram a Premier League

O técnico do Arsenal, Mikel Arteta
O técnico do Arsenal, Mikel Arteta. Foto: IMAGO / Every Second Media

Maresca não limita sua análise à fase de jogo com a bola rolando. Para ele, a transformação da Premier League também passa pelo crescimento das jogadas ensaiadas. O exemplo mais evidente é o Arsenal.

A equipe alcançou um recorde de 19 gols provenientes de escanteios na última temporada, transformando a bola parada em uma arma ofensiva capaz de decidir partidas nas quais a construção tradicional não funcionava.

“Provavelmente o Arsenal depende muito de jogadas ensaiadas. Eles usam estratégias diferentes para vencer jogos. Nós vamos tentar melhorar até mesmo os números em jogadas ensaiadas, porque você pode ganhar ou perder por causa delas”, afirmou Maresca.

Quanto mais as equipes dificultam a construção através da marcação individual e tornam o jogo aberto mais físico, maior passa a ser o valor de uma situação em que o posicionamento dos jogadores pode ser planejado previamente.

O futebol do City durante a era Guardiola foi construído em torno de princípios que a marcação individual procura justamente dificultar: superioridades posicionais, circulação paciente, ocupação racional dos espaços e jogadores capazes de encontrar o homem livre depois de atrair a pressão adversária.

Se a Premier League se tornou uma competição em que cada vez mais times perseguem individualmente os jogadores adversários, o City precisa encontrar novas maneiras de criar superioridade. Isso pode explicar a importância de jogadores mais físicos, capazes de conduzir a bola por longas distâncias, atacar espaços e vencer duelos.

É possível ter 65% de posse e, ainda assim, não conseguir progredir. Contra uma marcação individual agressiva, o drible, a condução e a movimentação sem bola podem ser tão importantes quanto o passe. O próprio Maresca parece enxergar o futebol dessa maneira. Para ele, o jogador que recebe a bola precisa ter capacidade para criar uma vantagem que o sistema defensivo adversário não consiga neutralizar.

O Manchester City, portanto, pode continuar sendo uma equipe de posse, mas com uma posse diferente: menos dependente da superioridade criada exclusivamente através da estrutura e mais preocupada em produzir superioridades através dos próprios jogadores.