Lula se referia à Guerra do Paraguai, como o conflito é conhecido no Brasil, ou Guerra da Tríplice Aliança, como é chamada no Paraguai. Travada entre 1864 e 1870, durante o Segundo Reinado de dom Pedro II, ela opôs o Paraguai à aliança formada pelo Império do Brasil, Argentina e Uruguai e foi o maior conflito armado da história da América do Sul. O historiador Marcus Dezemone, professor da UFF e da UFRRJ e pesquisador em História do Brasil Republicano, lembra que a guerra projetou figuras que se tornariam patronos das Forças Armadas brasileiras, como o Duque de Caxias, no Exército, e o almirante Tamandaré, na Marinha.
É consenso entre os historiadores que o Paraguai saiu devastado do conflito. Embora a guerra tenha envolvido Argentina e Uruguai, a maior parte dos combates ocorreu em território paraguaio e teve como principais adversários os exércitos do Paraguai e do Império do Brasil. Estimativas indicam que o país perdeu entre 50% e 70% de sua população total e cerca de 90% dos homens adultos. Além disso, teve sua economia destruída, perdeu parte do território e permaneceu ocupado por tropas brasileiras até 1876.
Segundo Dezemone, o legado da guerra ainda influencia a relação entre os dois países. O historiador afirma que parte da sociedade paraguaia mantém um sentimento de desconfiança em relação ao Brasil, tanto pelo trauma histórico da guerra quanto pela assimetria econômica e política que se consolidou desde então. Entre os exemplos estão a longa presença de capitais brasileiros no agronegócio no Paraguai e disputas históricas em torno de Itaipu, frequentemente mobilizadas no debate político do país.
A guerra também foi decisiva para a construção do Estado nacional paraguaio. A derrota passou a ocupar um lugar central na identidade nacional, fortalecendo uma memória coletiva baseada na resistência e no sacrifício diante de uma guerra vista, no país, como uma tragédia fundadora.
Quem está certo sobre o conflito?
O professor destaca que a historiografia — ou seja, as interpretações construídas sobre os acontecimentos históricos — influencia a forma como a guerra é lembrada. Cada país desenvolveu uma narrativa distinta sobre o conflito e, mesmo no Brasil, diferentes interpretações foram ensinadas ao longo das décadas, fazendo com que gerações tenham visões diversas sobre suas causas e consequências.
