Paranaense usa luz negra em taças de leilão, descobre que comprou itens com radiação e passa a colecioná-los; veja riscos e o que diz a lei

Início Notícias Paranaense usa luz negra em taças de leilão, descobre que comprou itens com radiação e passa a colecioná-los; veja riscos e o que diz a lei
Paranaense usa luz negra em taças de leilão, descobre que comprou itens com radiação e passa a colecioná-los; veja riscos e o que diz a lei


Paranaense descobre que comprou itens de vidro com urânio na composição
Foi ao acender a luz negra perto dos utensílios que a cor verde brilhou. Ali, Camilla Trovó Gimenes teve a certeza de que havia arrematado em um leilão taças de uralina — tipo de vidro com óxido de urânio que emite radiação em pequenas quantidades.
Os itens foram cuidadosamente guardados na cristaleira do antiquário da empresária em Londrina, no Norte do Paraná. Assista ao teste de luz negra acima.
Especialistas ouvidos pelo g1 explicaram que peças com uralina, apesar de possuírem radiação, não oferecem risco de um acidente radiológico como, por exemplo, aconteceu há quase 40 anos em Goiânia com o Césio-137. À época, centenas de pessoas se contaminaram e quatro morreram.
✅ Siga o g1 Londrina e região no WhatsApp
⚠️ ATENÇÃO: Apesar de não oferecerem risco de acidente radiológico, os especialistas orientam que as peças não devem ser usadas no dia a dia, pois alguns alimentos podem interagir com o metal radioativo enquanto são ingeridos. De acordo com a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), as taças de uralina não representam riscos à saúde caso estejam guardadas e dentro da referência de dose efetiva de 1 mSv por ano (unidade usada para medir a dose de radiação absorvida pelo corpo). Esta taxa é considerada muito baixa e segura.
Peças de uralina pararam de ser fabricadas nos anos 1940, época em que o urânio foi dominado pelo mercado de guerra e a exposição à radiação passou a ser discutida. Desde então, peças de uralina foram consideradas como itens de colecionador por comunidades apreciadoras de decoração, por exemplo.
A fabricação de novas peças de uralina é proibida no Brasil por determinação da Resolução 344, de julho de 2025, da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Apesar de não citar diretamente regras sobre vidro com urânio na composição, o texto técnico deixa esta norma subentendida ao dizer que o uso de fonte de radiação para criação de adornos é “fútil” e “injustificável”.
O controle regulatório das peças existentes (anteriores à regra do CNEN) fica dispensado porque compreende-se que elas possuem o número de referência de baixa dose efetiva, de 1 mSv por ano. A ANSN trata esses objetos como commodities, ou seja, matérias-primas básicas comercializadas em larga escala e que têm valor definido pelo mercado internacional.
“Tais aplicações não apresentam benefício líquido relevante para a sociedade, condição necessária para autorização regulatória”, disse a ANSN em nota enviada ao g1.
Veja mais abaixo: como descartar peças com uralina?
Com luz negra, copos e taças com urânio brilham. Itens de Camilla Trovó Gimenes estão armazenados de maneira segura em antiquário
Bruna Melo/g1 Paraná
Segundo o professor de física Augusto Ricci Murakami, há predominância nas peças de uralina do Urânio-238, um isótopo que possui meia-vida de aproximadamente 4,5 bilhões de anos. Em comparação, o Césio-137, tem uma meia-vida de cerca de 30 anos — uma desintegração maior por segundo.
Em termos simples, isso significa que o Urânio-238 é “preguiçoso”: ele demora bilhões de anos para se desintegrar pela metade, então poucos átomos dele se quebram a cada segundo. Já o Césio-137 se desintegra bem mais rápido. Ou seja, quanto menor a meia-vida, mais “agitado” é o material, com mais átomos se desintegrando ao mesmo tempo. É por isso que, mesmo em pequenas quantidades, substâncias como o Césio-137 podem ser mais perigosas no curto prazo do que o urânio, que libera sua radiação de forma bem mais lenta e distribuída ao longo do tempo.
Outra diferença é sobre a estrutura. Na uralina, o urânio está incorporado à estrutura do vidro. Caso uma peça se quebre, ela tende a produzir cacos e fragmentos, e não um pó solúvel como o material do acidente de Goiânia.
“Ainda assim, os fragmentos devem ser recolhidos com cuidado, evitando triturar, lixar ou produzir poeira”, explicou Murakami.
O professor de química Fábio Cezar Ferreira, professor de Química na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), detalhou ao g1 que a fluorescência das peças com uralina não está relacionada à radioatividade, mas à propriedade química do urânio. A cor varia entre o amarelo e o esverdeado conforme o estado da oxidação e da concentração de íons metálicos.
Raridade das peças virou comércio
Peças de uralina arrematadas por Camilla em leilão.
Bruna Melo/g1 Paraná
Por não serem fabricadas há mais de 80 anos, peças assim têm rara circulação no Brasil. Mas mais raro ainda é adquirir esses objetos sem antes saber a composição deles, como foi o caso de Camilla.
Nas especificações do leilão em que ela participou, em setembro de 2025, não havia citação alguma sobre a uralina das peças. A teoria de Camilla é de que a empresa de São Paulo que fez a venda não tinha essa informação, já que os quatro copos para licor, duas taças de vinho e duas de champanhe custaram, ao final, R$ 180.
Grande fã de cristais coloridos, o que chamou a atenção de Camilla e a fez arrematar o jogo foi apenas a cor verde que ele tem, que pode ser vista até em luz ambiente.
A empresária tem conhecimento sobre a raridade da uralina desde 2021, quando inaugurou o antiquário. Contudo, o valor elevado e a dificuldade para ter o melhor lance a impediram de iniciar uma coleção antes. Foi “no susto” que isso aconteceu.
“Não passou pela minha cabeça, em momento nenhum, que poderia ser uma peça de uralina. Para mim era só uma taça verde muito bonita. […] E aí, quando a peça chegou aqui para nós, a gente foi correndo comprar uma luz negra para fazer o teste. E para nossa surpresa, tinha a a fluorescência”, contou.
Além da luz negra, o urânio nessas peças também poderia ser detectado por um contador Geiger, dispositivo para medir radiações ionizantes e que é capaz de captar a baixa intensidade que as taças emitem.
Após a compra, mais quatro copos que foram encontrados pela sócia de Camilla, meses depois, e entraram para a coleção de uralina. De acordo com as pesquisas realizadas pela empresária, as peças que ela adquiriu foram produzidas na Europa entre 1890 e 1920.
Leia mais: Antigo vidro feito com urânio atrai o interesse de colecionadores
Uso no dia a dia não é recomendado
Brilho verde varia conforme o estado de oxidação e da concentração de íons metálicos, de acordo com o professor.
Bruna Melo/g1 Paraná
O professor Fábio Cezar Ferreira explicou que os vidros com urânio na composição são seguros para serem mantidos como materiais decorativos, sendo recomendado que fiquem dentro de alguma estrutura, como uma cristaleira.
O uso como item do dia a dia não é recomendado e há perigo para a saúde caso itens de uralina sejam usados para armazenamento de alimentos, especialmente ácidos, porque podem interagir com o metal radioativo.
“Um item de vidro de urânio com um teor de óxidos de urânio de cerca de 2% emite cerca de 100 μR/h, o que o torna seguro para uso. Também é importante notar que esses itens emitem radiação em um intervalo de não mais que 10-15 cm, portanto, armazená-los em uma caixa de vidro em uma residência não deve representar riscos consideráveis à saúde”, disse o professor.
🔎 μR/h significa “icroroentgen por hora”, uma unidade de medida de taxa de exposição à radiação ionizante.
“Quando íntegras e mantidas como objetos históricos ou de coleção, essas peças tendem a apresentar baixo risco radiológico”, o professor Murakami completou.
Mais histórias do Paraná:
Sonho: Paranaense tenta há 16 anos trazer para o Brasil ônibus que comprou no Canadá
Muito antes do ferry boat: Travessias no litoral eram feitas por pequenos barcos de madeira
Fracasso imobiliário: 1º ‘prédio giratório’ do mundo tem futuro incerto após duas décadas
E se uma peça de uralina quebrar?
A Autoridade Nacional de Segurança Nuclear orienta que peças de uralina, inteiras ou quebradas, não sejam descartadas no lixo comum.
O correto é encaminhar o vidro até uma unidade autorizada da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), “que disponha de infraestrutura para recebimento e armazenamento provisório de rejeitos radioativos”.
Conforme informações do Governo Federal, o Paraná não possui uma unidade da CNEN.
Há endereços nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Ceará, Pernambuco e Goiás, além do Distrito Federal. Os endereços podem ser consultados no site do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, na aba da Comissão Nacional de Energia Nuclear (clique aqui).
Veja o que diz a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear sobre materiais radioativos como bens de consumo
“De acordo com a Norma ANSN nº 3.01/2025, práticas que envolvam a adição deliberada de material radioativo a bens de consumo, como no caso da incorporação de urânio em vidro para fins ornamentais, não são consideradas práticas justificáveis. Isso ocorre porque tais aplicações não apresentam benefício líquido relevante para a sociedade, condição necessária para autorização regulatória. No entanto, peças antigas de vidro contendo urânio (uralina), como aquelas produzidas anteriormente ao controle regulatório mais rigoroso, enquadram-se como uma situação de exposição existente, sendo tratadas como commodities. Para esses casos, a norma estabelece um nível de referência de dose efetiva de 1 mSv por ano para o público. Considerando que o principal radionuclídeo presente nesses materiais é, em geral, o urânio-238 (U-238), as taxas de dose externa associadas costumam ser baixas. Ainda assim, uma avaliação adequada de segurança deve incluir medições da taxa de dose e, quando aplicável, a determinação da concentração de atividade do U-238 no material. No que diz respeito ao descarte, especialmente em situações de quebra ou perda de integridade da peça, recomenda-se que o material não seja descartado como resíduo comum. A orientação é que seja encaminhado a uma unidade autorizada da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) que disponha de infraestrutura para recebimento e armazenamento provisório de rejeitos radioativos, garantindo assim sua destinação segura e ambientalmente adequada.”
VÍDEOS: Mais assistidos do g1 Paraná
Atualmente, o tema no Brasil tem respaldo da lei federal XX, de TAL ANO. A atualização mais recente do texto ocorreu em TAL ANO. O texto diz que [PONTO PRINCIPAL], mas algua
Leia mais notícias no g1 Norte e Noroeste.