Pastiche é um tipo de intertextualidade. Ele consiste na imitação de um texto ou do estilo do autor de um texto. Por exemplo, se você escrever um conto de modo que ele pareça ser de Clarice Lispector, você está fazendo um pastiche. Nesse caso, você faria uma homenagem a essa autora.
Outro tipo de intertextualidade é a paródia, a qual consiste na alteração de sentido de um texto original. Por exemplo, alterar o sentido de um poema conhecido, de forma irônica. Já o plágio não é uma forma de intertextualidade, pois consiste na apropriação de texto alheio, de forma fraudulenta.
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Tópicos deste artigo
Resumo sobre pastiche
- Pastiche é uma forma de intertextualidade, pois consiste na imitação de um texto ou do estilo de seu autor.
- Pastiche e paródia são duas formas de intertextualidade.
- O pastiche imita com o objetivo de homenagear o autor do texto original, a paródia altera o sentido do texto parodiado, de forma irônica.
- O plágio é o ato ilegal de usar o texto produzido por outra pessoa como se fosse de autoria do plagiador.
O que é pastiche?
O pastiche é uma imitação explícita de outro texto. Portanto, é um tipo de intertextualidade, já que ocorre o diálogo entre textos. Normalmente, tal imitação surge lado a lado com o excesso, o exagero. O autor do pastiche busca imitar o estilo do autor do texto original.
Também pode imitar o tema recorrente na produção desse autor, seu vocabulário, a estrutura de suas frases. Assim, melhor será o pastiche que melhor imitar o estilo de certo autor. O objetivo é homenagear esse autor. Por exemplo, você pode fazer pastiche inspirado em textos de Machado de Assis.
Para fazer isso, o autor ou a autora do pastiche deve conhecer profundamente o estilo de Machado de Assis: como ele escreve, qual é seu vocabulário recorrente, como é a estrutura das frases que ele usa, se sua linguagem é mais objetiva ou mais subjetiva, que temáticas ele prefere etc.
Para que alguém perceba que um texto é um pastiche, essa pessoa precisa conhecer o autor do texto imitado. Se você nunca leu Machado de Assis, não vai conseguir perceber que alguém fez um pastiche inspirado em suas obras, a não ser que o autor do pastiche dê essa informação para você.
Além disso, o pastiche não é necessariamente a imitação de uma obra específica. Você pode fazer o pastiche de uma obra específica ou criar uma obra que imita o estilo de determinado autor. No mais, é preciso lembrar que a imitação pode ser feita tendo como base textos escritos, mas também textos audiovisuais.
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Exemplos de pastiche
Antes de dar exemplos de pastiche, é preciso esclarecer que uma obra assim classificada não se limita a isso. Estou querendo dizer que o caráter de pastiche não é o único elemento caracterizador da obra. Afinal, tal obra artística possui identidade própria e pode ser analisada como qualquer outra.
→ Exemplo de pastiche na literatura
A seguir, um trecho do romance Em liberdade, de Silviano Santiago. A obra, de caráter ficcional, é o diário de Graciliano Ramos. Por isso, o autor busca recriar o estilo de escrita seco de Graciliano Ramos:
Vejo as minhas mãos com os dedos encardidos do fumo procurar o cigarro no maço, retirar o palito de fósforo na caixa; sou capaz de levar o cigarro à boca, friccionar o fósforo contra a lixa, acender o cigarro, sorver a fumaça e soltá-la. Isso não significa que esteja sentindo o meu corpo. De hora em hora bebo o meu cálice de aguardente (da legítima alagoana, presente de José Lins). Não sinto que o meu corpo existe. Esses dois gestos, esses dois gostos, esses dois prazeres são hábitos de toda uma vida e procuro dar a eles, agora, um peso zero que, normalmente, não têm. A baforada de fumo existe como um ponto, uma pausa, no final de cada frase; a aguardente, o seu doce ardor na garganta e no estômago, existe como uma longa pausa no final de cada parágrafo.
→ Exemplo de pastiche no cinema
Você já viu o filme estado-unidense La la land? Aquele mesmo que, no Oscar de 2017, foi anunciado como vencedor de melhor filme. Um erro, corrigido em seguida, pois o vencedor de fato era, merecidamente, o filme Moonlight. Pois então, o La la land pode ser considerado um pastiche.
O filme é uma homenagem à Hollywood dos anos 1950, por isso ele busca imitar o estilo dos filmes da época. La la land, segundo Pedro Henrique Araujo Barbosa e Vitor José Braga Mota Gomes, “é uma homenagem a Los Angeles e aos bastidores do luxuoso cinema hollywoodiano, […]”.
De acordo com esses pesquisadores:
O sucesso do filme se encontra na combinação de todas essas cores para compor seu enredo, principalmente pela aplicação da Technicolor, técnica de coloração de películas cinematográficas popularizada entre os anos 30 e 50 em Hollywood, suas principais características eram justamente as cores vibrantes e extremamente saturadas. A música de abertura do filme “Another Day Of Sun” conta com a linha “mundo Technicolor feito de música e máquinas”, reverenciando a tecnologia reaproveitada e se conectando com essa era do cinema estado-unidense tão homenageada nesta obra.
→ Exemplo de pastiche na pintura
Veja a pintura abaixo, La sagrada familia con san Juanito, do pintor italiano Luca Giordano:
Na página do Museo del Prado, a obra é assim descrita|1|:
Esta é uma das obras nas quais Giordano buscou imitar o estilo de Rafael de Urbino. Faltam informações fundamentais para a sua correta interpretação, sobretudo, no que diz respeito a qualquer possível intenção de enganar um comprador, levando-o a acreditar que estava adquirindo um original do mestre renascentista. Um indício dessa intenção é a inclusão de um monograma que funciona como assinatura; Giordano inseriu as letras “RSF VB” (Raphael Sanzio Faciebat Vrbinas) na rocha visível à direita. Essa pintura — assim como outras em que Giordano imita o estilo do mestre renascentista — oferece um vislumbre do método de trabalho do artista napolitano. Por um lado, Giordano era um observador atento da pintura de Rafael, apropriando-se de elementos isolados para incorporá-los às suas próprias obras. Por outro, suas imitações também revelam elementos extraídos de seu próprio vocabulário artístico e do contexto napolitano da época.
Diferenças entre pastiche, paródia e plágio
Como já mencionei acima, o pastiche é uma imitação explícita. Isso quer dizer que a obra imita o estilo de alguma autora ou algum autor. E tal imitação é evidente, de forma que homenageia a pessoa imitada. Já a paródia é uma recriação de um texto existente, a qual subverte o sentido do texto original.
O pastiche mantém o estilo original do texto ou de seu autor, já a paródia é uma alteração intencional do sentido de um texto preexistente. Ela é marcada pela ironia. Por exemplo, imagine que você use a estrutura de uma oração religiosa bastante conhecida, mas substitua o conteúdo do texto por uma crítica política.
Nesse caso, está evidente que você não está imitando um estilo, mas sim subvertendo um texto que tem sentido religioso ou catequético, transformando-o em um texto político e contestador. Outro exemplo é você usar uma cantiga infantil conhecida e mudar a letra, de forma a criar um sentido totalmente diferente, seja cômico, político, filosófico etc.
Por exemplo, em vez de:
Batatinha quando nasce
Espalha a rama pelo chão…
Você vai escrever:
Amiguinha quando age
Espalha veneno de montão…
Você percebeu que tanto o pastiche quanto a paródia são textos artísticos? Isso porque eles exigem de suas autoras ou de seus autores a criatividade. Já o plágio é o ato criminoso de copiar a obra de alguém e assinar tal obra como se fosse sua. Imagine que você escreva um livro e copie páginas e mais páginas de Clarice Lispector, como se fosse você quem tivesse escrito aquilo. Isso é plágio!
Mas atenção. Plágio é diferente de citação. Você pode mencionar textos de outras pessoas em seu texto, desde que deixe isso claro. Você vai dizer que, segundo Clarice Lispector…, e então fazer a citação. Quando alguém ler seu texto, saberá que aquele trecho ou aquela ideia não é sua, mas sim de Clarice Lispector.
Saiba mais: Como fazer uma citação de citação?
Exercícios resolvidos sobre pastiche
Questão 1
Pastiche
Eu gosto mesmo é de fazer pastiche
Eu gosto muito de comer pistache
Na outra encarnação eu fui derviche
Nesta encarnação puro deboche
Um Anjo veio e me disse: — gauche!
A vida veio e me pintou guache
Danço com minha boneca de piche
Vestido num belo terno Versace
Tive uma oficina de desmanche
No Carnaval saio na tribo apache
Fiz uma ponta no filme “A Revanche”
Contracenei com a Irene Ravache
[…]
BALEIRO, Zeca. Pastiche. In: BALEIRO, Zeca. O coração do homem-bomba, volume 2. Rio de Janeiro: MZA Music, 2008.
Após ler o trecho da letra de música, marque V (verdadeiro) ou F (falso) para as seguintes afirmações:
( ) A letra de música imita o estilo da poesia de Carlos Drummond de Andrade.
( ) A letra de música coloca em evidência o fenômeno da intertextualidade.
( ) A letra de música condena a imitação que caracteriza o pastiche.
A sequência correta é:
A) V, V, F.
B) V, V, V.
C) F, F, F.
D) V, F, F.
E) F, V, F.
Resolução: Alternativa E.
A letra de Zeca Baleiro evidencia a intertextualidade ao mencionar o termo “pastiche”, além de fazer alusão a diversos elementos culturais como: “boneca de piche”, “Versace”, “filme ‘A Revanche’”, “Irene Ravache” etc. Drummond não é imitado, mas citado no verso “Um Anjo veio e me disse: — gauche!”, fazendo uma referência ao Poema de sete faces. Na letra, não há condenação a nenhum tipo de intertextualidade.
Questão 2
Analise as seguintes afirmações:
I- O pastiche é uma citação direta.
II- O plágio é uma citação indireta.
III- A paródia tem caráter intertextual.
Está(ão) correto(s) o(s) item(ns):
A) I apenas.
B) II apenas.
C) III apenas.
D) I e III apenas.
E) I, II e III.
Resolução: Alternativa C.
O pastiche não é uma citação, mas uma imitação. O plágio também não é uma citação, mas a apropriação indevida de texto alheio. Por fim, a paródia tem caráter intertextual, já que subverte o sentido de um texto já existente.
Nota
1No original: Se trata de una de las obras en las que Giordano trató de imitar los modos de Rafael de Urbino. Desconocemos datos importantes para su correcta interpretación, sobre todo, sobre su eventual voluntad de engañar a un comprador haciéndole creer que adquiría un original del maestro renacentista. Muestra de esa voluntad es la inclusión de un monograma a modo de firma, que Giordano situó en la roca visible a la derecha, con las letras “RSF VB” (Raphael Sanzio Faciebat Vrbinas). A través de esta pintura y de las otras en las que Giordano imita el estilo del maestro renacentista se puede intuir el procedimiento que el napolitano siguió en todas ellas. Por un lado, Giordano fue un atento observador de la pintura de Rafael, de quien tomaba elementos sueltos que integraba en sus obras. Por otro lado, en sus imitaciones pueden encontrarse también elementos de su propio vocabulario y del ambiente napolitano contemporáneo.
Fontes
BARBOSA, Jorge Luís Verly. A hora da palavra: intertextualidade em Caetano Veloso. 2006. Dissertação (Mestrado em Estudos Literários) – Centro de Ciências Humanas e Naturais, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2006.
BARBOSA, Pedro Henrique Araujo; GOMES, Vitor José Braga Mota. “La La Land”: uma análise do colorido na carta de amor de Chazelle à antiga Hollywood. In: CONGRESSO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO NA REGIÃO NORDESTE, 24., 2024, Natal. Anais […]. Natal: Intercom, 2024.
KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender: os sentidos do texto. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2010.
MUSEO DEL PRADO. La sagrada familia con san Juanito. Disponível em:
SANT’ANNA, Affonso Romano de. Paródia, paráfrase & cia. 8. ed. São Paulo: Ática, 2007.
SANTIAGO, Silviano. Em liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
