O Manchester City chega à reta final da janela de transferências com uma situação curiosa: o clube movimentou muito dinheiro, fez vendas importantes e ainda assim parece ter um elenco mais frágil do que aquele que terminou a última temporada.
A saída de Rodri para o Barcelona tornou explícito o grande problema, mas o buraco é maior. Bernardo Silva deixou o clube de graça, John Stones também saiu sem gerar receita, Nathan Aké foi vendido ao Fenerbahçe e Manuel Akanji também deixou o elenco em definitivo. Tijjani Reijnders, contratado por uma fortuna apenas um ano atrás, já foi negociado com o Al Qadsiah.
Do outro lado, o principal investimento foi Elliot Anderson, contratado do Nottingham Forest por 116 milhões de libras. O City também trouxe o goleiro Gerónimo Rulli e tenta avançar por Ayyoub Bouaddi, do Lille, além de avaliar outras alternativas para o meio-campo. O problema é que não parece haver uma reposição imediata para o tamanho das perdas.
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Rodri, Bernardo e líderes que saíram do Manchester City
A principal dificuldade do mercado do City é que algumas perdas não podem ser avaliadas apenas pelo número de jogadores que chegaram para substituí-las. Rodri era quem organizava praticamente tudo — e nos momentos em que viveu sem ele, teve muita dificuldade.
O espanhol disputou 298 partidas pelo City e conquistou 14 grandes títulos antes de se transferir para o Barcelona por cerca de 60 milhões de euros. Foi o jogador que dava controle à equipe quando ela precisava desacelerar, proteção à defesa quando os laterais avançavam e qualidade para superar a primeira linha de pressão.
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A perda de Bernardo é diferente, mas igualmente significativa.
O português deixou o clube como agente livre e assinou com o Real Madrid. Durante nove anos, foi um dos jogadores mais importantes da era Guardiola justamente porque conseguia desempenhar funções diferentes: aberto pela direita, como meia, por dentro, mais recuado ou até como lateral improvisado.
Se o buraco estivesse restrito ao meio-campo, seria mais fácil compreender a estratégia, mas Maresca também perdeu peças importantes na defesa. John Stones deixou o clube após dez anos, ao fim do contrato. Foram quase 300 partidas e 19 troféus pelo City, mas as lesões reduziram sua participação na última temporada.
Nathan Aké foi vendido ao Fenerbahçe depois de seis temporadas no clube. Manuel Akanji também deixou o elenco em definitivo depois de um empréstimo à Inter de Milão na última temporada. Isso altera a profundidade de uma posição que já vinha convivendo com problemas físicos e de adaptação.
A consequência é que o City não está simplesmente tentando substituir Rodri. Está reconstruindo uma quantidade considerável de funções dentro do elenco. E isso ajuda a explicar por que a janela parece tão estranha.
Elliot Anderson não resolve tudo, mas há outras possibilidades
Elliot Anderson foi o principal nome da janela do clube — e, claro, não é uma contratação ruim. O City pagou 116 milhões ao Nottingham Forest por um meio-campista de 23 anos que foi titular durante toda a temporada anterior e teve papel importante na campanha da Inglaterra na Copa do Mundo de 2026.
Anderson oferece algo que o City precisava: energia, condução, capacidade de ganhar duelos e intensidade para jogar em um campeonato cada vez mais físico. Ele também pode ser utilizado em diferentes alturas do meio-campo. Mas existe uma diferença importante entre ser capaz de jogar na posição de Rodri e ser Rodri.
O espanhol era um controlador de ritmo. Anderson é muito mais explosivo e vertical. Ele pode conduzir a bola por muitos metros, pressionar, atacar espaços e participar de duelos físicos com uma intensidade que Rodri não oferece da mesma maneira, e isso pode levar Maresca a construir um City diferente. O problema é que, para isso, o treinador precisa de mais peças ao redor dele.
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O próprio clube sabe disso. Maresca afirmou depois da derrota para o Arsenal que o City ainda faria movimentações antes do fechamento da janela. O nome mais avançado é Ayyoub Bouaddi.
O City vem negociando com o Lille pelo meio-campista de 18 anos, em uma operação que pode chegar a 85 milhões de libras. Segundo o “The Guardian”, o jogador já acertou termos pessoais e a intenção de Maresca é integrá-lo imediatamente ao elenco. É um investimento enorme em um jogador extremamente jovem.
Se o inglês representa uma tentativa de solucionar o presente, Bouaddi também representa uma aposta no futuro. O marroquino tem capacidade para jogar mais recuado, circular a bola e participar da construção, mas seria injusto esperar que, aos 18 anos, ele simplesmente assuma o papel de Rodri.
O City pode, inclusive, utilizar os dois juntos. Anderson poderia oferecer mais mobilidade, condução e agressividade, enquanto Bouaddi assumiria uma posição mais baixa na construção. Mas isso exigiria tempo para que os mecanismos funcionassem, e o City não tem muito tempo. A situação é tão urgente que o clube está avaliando diversas possibilidades.
Adam Wharton, do Crystal Palace, é um dos nomes considerados. O Palace, porém, rejeitou uma abordagem do City e o técnico Pierre Sage afirmou que o volante é importante demais para ser vendido neste momento. Também aparecem entre as possibilidades Enzo Fernández, Alexis Mac Allister, Alex Scott e Manu Koné.
Ou seja: o próprio mercado mostra que Anderson não foi pensado como solução única. Porque Anderson e Bouaddi podem formar um meio-campo de elite daqui alguns anos, mas o City precisa competir agora.
Reijnders, Savinho e as vendas de jogadores que não funcionaram
Talvez o caso mais curioso no lado das perdas do clube seja o de Tijjani Reijnders. O meia chegou em 2025 como um dos grandes nomes da reconstrução do City. Vinha de uma temporada excepcional no Milan, tinha condução, chegada à área, capacidade de acelerar o jogo e parecia se encaixar perfeitamente na necessidade de renovar o meio-campo. Um ano depois, foi vendido ao Al Qadsiah.
A transferência foi oficializada pouco mais de um ano depois de sua chegada, mas Reijnders poderia ser uma peça interessante para Maresca. O italiano chegou a utilizá-lo mais recuado durante a pré-temporada, justamente uma função que parece combinar melhor com suas características.
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Mas o jogador já havia perdido confiança na temporada anterior. Depois de uma sequência de partidas como titular, acabou praticamente desaparecendo da equipe na reta final: ficou no banco em nove dos últimos 14 jogos do City na Premier League e foi titular apenas duas vezes nesse período.
A venda, portanto, não é necessariamente um erro isolado. Ela revela um problema maior: o City gastou muito para reconstruir o elenco e, pouco tempo depois, descobriu que alguns dos jogadores escolhidos não eram adequados ao projeto.
James Trafford é um caso diferente. O goleiro foi vendido ao Leeds por cerca de 40 milhões de libras, tornando-se o goleiro britânico mais caro da história. Ele havia disputado apenas 17 jogos pelo City na última temporada e perdeu a titularidade para Gianluigi Donnarumma.
A saída faz sentido esportivamente e ainda produziu uma receita importante. Rulli chegou do Marseille por um valor baixo e será o reserva. Aqui, portanto, não existe grande problema. O problema é que Trafford é um dos poucos exemplos de uma saída que o City conseguiu transformar em negócio claramente positivo.
A limpeza do elenco ainda não terminou. Savinho, Omar Marmoush e Nico González estão entre os jogadores que podem deixar o clube. O Newcastle aparece interessado em Nico, enquanto Marmoush e Savinho também são associados ao Tottenham.
Marmoush, por exemplo, chegou com a expectativa de ser uma arma de velocidade e agressividade no ataque, mas não conseguiu se estabelecer como titular diante da presença de Erling Haaland. Savinho ainda é uma aposta de enorme potencial. Nico González, por sua vez, não conseguiu ganhar espaço consistente. Se os três saírem, Maresca precisará de mais contratações, e não apenas no meio-campo.
O problema que nenhuma contratação resolve: Guardiola
Existe ainda uma perda que não aparece em nenhuma lista de transferências. Pep Guardiola. Depois de dez anos, seis títulos da Premier League e uma Champions League, o espanhol deixou o clube. Enzo Maresca foi escolhido para substituí-lo, em uma tentativa clara de preservar parte da identidade construída no período anterior. O italiano trabalhou com Guardiola no City e conhece profundamente seus princípios — mas continuidade não significa repetição.
Maresca terá que encontrar sua própria maneira de fazer o time funcionar. E isso torna ainda mais delicada a escolha dos reforços. Não se trata apenas de descobrir quem substitui Rodri, mas de entender que tipo de Manchester City Maresca quer construir sem Rodri, Bernardo e principalmente sem Guardiola.
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A derrota por 3 a 0 para o Arsenal na Community Shield foi particularmente reveladora porque o City teve dificuldade para sair da pressão e construir com segurança sem seu principal organizador no meio-campo. A atuação foi tão preocupante que o Guardian classificou a estreia de Maresca como “startlingly bad” (surpreendentemente ruim), embora também tenha ressaltado que ainda era uma primeira amostra e que o elenco estava em transformação.
As principais movimentações confirmadas e os alvos ainda em negociação mostram justamente a contradição da janela: o City está gastando, mas está gastando para reconstruir um elenco que perdeu jogadores ainda mais importantes.
A avaliação, portanto, não precisa ser definitiva mas depende de muitas condições. Se Anderson, Bouaddi e mais um meio-campista de alto nível chegarem, se Maresca conseguir integrar rapidamente as peças, se Haaland permanecer saudável e se jogadores como Cherki, Foden e Doku assumirem responsabilidades maiores, o cenário pode mudar rapidamente.
O City ainda tem talento suficiente para disputar a Premier League, mas a margem de erro diminuiu drasticamente. O Arsenal manteve Mikel Arteta, ganhou profundidade e chega à temporada como campeão e favorito. O City, por sua vez, perdeu o treinador que construiu sua era mais dominante, seu principal volante, seu capitão, dois defensores experientes e uma série de jogadores de rotação.
Agora, o Manchester City entra em 2026/27 tendo que substituir uma geração inteira de referências praticamente de uma vez. E esse é o verdadeiro problema de sua janela: não falta dinheiro ao City. Falta, neste momento, uma reposição à altura daquilo que ele perdeu.
