O Manchester City precisava reformular o meio. Contratar Enzo Fernández no último dia da janela de transferências foi a cereja do bolo dessa mudança — que, no fim, custou mais de 300 milhões de libras (mais de 2 bilhões de reais) no total.
As saídas de Rodri, Bernardo Silva e Tijjani Reijnders deixaram um buraco enorme no setor mais importante da equipe. Elliot Anderson chegou por 116 milhões de libras, Ayyoub Bouaddi por cerca de 85 milhões e, ainda assim, Enzo Maresca continuava procurando uma peça capaz de elevar imediatamente o nível do setor.
Agora, encontrou. Segundo o “The Athletic”, o Manchester City chegou a um acordo com o Chelsea para contratar Enzo Fernández por 125 milhões de libras (cerca de 870 milhões de reais), igualando o recorde da história do futebol britânico, estabelecido pela transferência de Alexander Isak para o Liverpool. O argentino de 25 anos recebeu autorização para realizar exames médicos e reencontrará Maresca, com quem trabalhou durante uma temporada e meia em Londres.
É uma contratação gigantesca em termos financeiros. Mas, principalmente, é uma contratação que diz muito sobre o tipo de Manchester City que Maresca pretende construir.
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O City não encontrou outro Rodri, mas pode criar outro meio-campo com Enzo
Durante meses, a discussão em Manchester esteve concentrada em uma pergunta aparentemente simples: quem substituirá Rodri? O espanhol é um jogador praticamente único. Sua capacidade de controlar o ritmo, ocupar espaços antes que eles aparecessem, proteger a defesa, sair da pressão e organizar o time com a bola fez dele o principal pilar do City durante a era Guardiola.
Até antes de sua saída, análises já apontavam que nem Elliot Anderson, nem Bouaddi, nem Reijnders (negociado com o futebol saudita) poderiam ser colocados no mesmo patamar. Enzo também não pode.
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O argentino é mais agressivo com a bola. Gosta de receber de frente, avançar pelo campo, encontrar passes verticais e aparecer próximo à área. No Chelsea de Maresca, inclusive, teve sua melhor temporada estatística justamente atuando mais adiantado pela esquerda, chegando à área e marcando 15 gols. Seu valor está menos em controlar o jogo sozinho e mais em acelerá-lo.
Isso combina com o que Maresca parece querer fazer no City. O novo treinador já indicou que pretende adaptar a equipe ao futebol contemporâneo, com mais intensidade, duelos individuais e jogadores capazes de vencer confrontos físicos e territoriais.
Enzo oferece outra coisa: capacidade de conectar os setores e transformar recuperação de bola em ataque rapidamente. No City, Maresca utilizou diferentes estruturas, mas o 4-2-3-1, que pode se transformar em 4-3-3 com a bola, deve ser o mais popular na temporada.
O argentino deve formar uma dupla de volantes com Anderson. Nesse cenário, Anderson pode assumir uma parte maior da responsabilidade defensiva e pela cobertura dos espaços, enquanto Enzo recebe liberdade para se movimentar e conduzir o time para frente.
Na temporada passada pelo Nottingham Forest, Anderson foi um jogador extremamente resistente fisicamente e capaz de avançar a bola com frequência. Enzo pode, mas não precisa ser o volante mais recuado o tempo inteiro.
Anderson é intensidade, cobertura, condução e capacidade de pressionar. Bouaddi é leitura, posicionamento, controle e potencial para se tornar um volante de elite. O marroquino de 18 anos já era visto no Lille como um jogador especialmente inteligente para sua idade. Enzo, por sua vez, é o elo entre meio-campo e ataque.
Maresca pode usar Anderson e Enzo contra adversários que exigirem mais intensidade. Pode colocar Bouaddi atrás de Enzo em partidas nas quais queira controlar mais a posse. É diferente do City de Guardiola. Em vez de procurar um único jogador capaz de fazer tudo, Maresca parece estar distribuindo as funções entre diferentes perfis.
BREAKING: Enzo Fernández to Manchester City, HERE WE GO!
Deal in place for fee over £125m after a long negotiation as Chelsea approved the sale.
Enzo only wanted Manchester City and he’s now set for medical at #MCFC. pic.twitter.com/R8rGpD24rc
— Fabrizio Romano (@FabrizioRomano) September 1, 2026
Enzo consegue jogar mais recuado e já fez isso no Benfica e no próprio Chelsea. Tem qualidade técnica para receber sob pressão, girar e encontrar passes que quebram linhas. O problema é que qualidade com a bola não significa automaticamente capacidade de proteger a defesa. Enzo e Moisés Caicedo nem sempre foram suficientemente sólidos sem a bola para formar uma dupla dominante na Premier League. E essa preocupação fica ainda maior quando pensamos no City.
Rodri não apenas recuperava bolas. Ele antecipava o perigo. Enzo é muito mais reativo. Pode pressionar, disputar, acompanhar e ocupar espaços, mas não oferece o mesmo domínio territorial do espanhol. Por isso, seria um erro tentar transformar Enzo em um novo Rodri. O melhor City de Maresca provavelmente será aquele que construir uma estrutura para que o argentino possa fazer aquilo que faz melhor.
Enzo Fernandez pode recuperar características que o Manchester City perdeu
Há, porém, uma característica de Enzo que pode ser valiosa para o novo City: chegar à área. Ele pode atacar o espaço entre volante e zagueiros, infiltrar-se na área e aparecer para finalizar. Isso ficou evidente na última temporada pelo Chelsea.
O problema que existia em Londres era que, muitas vezes, ele acabava ficando preso em zonas avançadas quando os adversários defendiam muito baixo. O próprio The Athletic destacou que seu posicionamento mais adiantado nem sempre permitia que ele demonstrasse todas as suas qualidades.
No City, entretanto, haverá uma diferença fundamental: Erling Haaland. Se o norueguês ocupar os zagueiros, Enzo pode atacar a segunda linha. Se Haaland sair da área para participar da construção, Enzo pode infiltrar. Se Phil Foden ou Rayan Cherki atraírem marcadores por dentro, o argentino pode aparecer no espaço deixado.
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Também não é coincidência que o principal responsável pela contratação seja justamente Maresca. Foi com ele que o argentino encontrou uma função mais ofensiva no Chelsea e teve uma temporada de 15 gols. Ao mesmo tempo, Maresca sabe quais são suas limitações e como pode estruturar o time para protegê-las.
Maresca já demonstrou que não pretende simplesmente reproduzir o Guardiola que deixou Manchester. Ele fala em evolução, adaptação e em encontrar soluções para as novas tendências do futebol. Enzo é uma peça coerente com essa ideia.
Distribuição de pressão, mas um preço que cria expectativas
A chegada de Enzo permite que outros jogadores sejam utilizados em funções mais adequadas. Phil Foden não precisa necessariamente recuar para ajudar a construção, Rayan Cherki pode permanecer mais próximo do último terço e Erling Haaland continua como referência.
Elliot Anderson pode ser mais agressivo na pressão. Bouaddi pode ser preparado sem a obrigação de imediatamente carregar o peso de substituir Rodri. E até jogadores como Mateo Kovacic ganham uma situação mais confortável dentro da rotação. Enzo pode não resolver todos os problemas do meio-campo. Mas reduz a pressão sobre os outros jogadores.
O problema é que 125 milhões compram expectativas enormes. Enzo chega ao City como uma contratação estrelar e será cobrado como tal. A questão central será saber se ele consegue reproduzir no Manchester aquilo que mostrou de melhor no Chelsea.
Ele consegue encontrar passes verticais, mudar o ritmo, conduzir, atacar espaços e finalizar. É um meio-campista moderno e tecnicamente muito completo. Mas o City pós-Guardiola precisa recuperar algo que perdeu junto com Rodri: controle defensivo.
A derrota por 3 a 0 para o Arsenal na Community Shield expôs justamente esse problema. O time teve dificuldades para controlar o meio-campo e proteger sua última linha, em uma partida que mostrou o tamanho do desafio de substituir o espanhol.
Enzo não resolverá isso sozinho, mas pode ajudar Maresca a encontrar formas de resolver.
