Reforços de R$ 980 milhões não convencem e integram faxina do Manchester City

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Reforços de R$ 980 milhões não convencem e integram faxina do Manchester City

A reconstrução do Manchester City deveria servir para preparar o clube para a vida depois de Pep Guardiola. Em vez disso, parte das contratações que deveriam sustentar a próxima fase do projeto rapidamente se transformou em um problema a ser resolvido.

No mercado, Tijjani Reijnders está a caminho do Al Qadsiah, da Arábia Saudita, enquanto James Trafford já foi vendido ao Leeds e Omar Marmoush também não é considerado intocável, deixando uma conta incômoda para um clube que gastou pesado justamente na tentativa de renovar seu elenco.

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Reijnders: o jogador certo para o problema errado

O caso de Reijnders é particularmente simbólico. O holandês chegou do Milan no verão europeu de 2025 por cerca de 46,3 milhões de libras, depois de uma temporada em que havia sido eleito o melhor jogador da Serie A. Parecia uma contratação perfeitamente coerente para um meio-campo que perderia Kevin De Bruyne e Ilkay Gündogan.

Segundo a análise publicada pelo “The Athletic”, Enzo Maresca reconheceu que a situação de Reijnders se tornou semelhante à de Trafford e Marmoush: quando clube, treinador e jogador concluem que a separação é a melhor solução, insistir deixa de fazer sentido.

A escolha do italiano representa continuidade em determinados princípios, mas também abre espaço para uma revisão profunda do elenco. O novo treinador assinou contrato de três anos e chega justamente para comandar uma equipe que já havia começado a se remodelar antes mesmo da saída do catalão.

Reijnders pelo Manchester City. Foto: IMAGO / BSR Agency

A contratação de Reijnders fazia sentido no papel. O City vinha de uma temporada 2024/25 extremamente abaixo de seus padrões, com apenas 11 vitórias em 35 partidas entre outubro e março, e precisava de energia no meio-campo. A saída de De Bruyne tornava ainda mais urgente encontrar jogadores capazes de transportar a bola, criar vantagem individual e produzir a partir de zonas intermediárias.

O problema estava justamente naquilo que acontecia quando a bola não estava com ele, e Reijnders nunca foi um especialista defensivo. Guardiola percebeu sua capacidade de atacar a área e tentou explorá-la. A ideia era aproximá-lo de Erling Haaland e Omar Marmoush, quase como o antigo mecanismo de infiltração de Gündogan. O próprio Guardiola explicou que Reijnders poderia atuar como volante, mas gostava de chegar à área para ajudar os atacantes.

O paradoxo apareceu de maneira muito clara. Quando Reijnders teve liberdade para jogar, conseguiu produzir. Entre dezembro e o início de janeiro, marcou quatro gols em sete partidas da Premier League. Depois, porém, perdeu espaço. Ou seja: o City descobriu que não conseguia extrair dele o melhor futebol com a estrutura que tinha.

O mesmo problema aparece em outras peças do Manchester City

Trafford é outro exemplo de como uma contratação pode parecer correta e, ainda assim, não funcionar dentro do elenco. O goleiro havia sido formado no próprio City e se destacado no Burnley, inclusive com uma passagem pela seleção inglesa. O clube decidiu recuperá-lo em 2025 por aproximadamente 31 milhões de libras, depois de vender Stefan Ortega e reorganizar a posição. Pouco mais de um ano depois, Trafford já foi negociado com o Leeds.

Marmoush representa um caso diferente, mas também revelador. O egípcio chegou em janeiro de 2025 após explodir pelo Eintracht Frankfurt, em uma transferência de cerca de 63,2 milhões de libras. Era uma contratação que respondia a uma necessidade clara: aumentar a capacidade individual do ataque e oferecer uma alternativa de condução, velocidade e finalização.

IMAGO / Sports Press Photo
James Trafford com a seleção inglesa. Foto:
IMAGO / Sports Press Photo

Haaland é o centro do ataque e, quando está disponível, ocupa praticamente todos os minutos como referência. Marmoush pode atuar aberto, mas não necessariamente entrega o mesmo equilíbrio que um ponta especialista oferece. Quando joga por dentro, encontra congestionamento. Quando fica no banco, perde ritmo.

A questão, portanto, não é que todas essas contratações tenham sido absurdas. É que o City pagou valores elevados por jogadores que tinham características interessantes, mas não necessariamente funções perfeitamente definidas dentro do time.

Desde janeiro de 2025, o Manchester City investiu centenas de milhões de libras em uma reformulação que trouxe nomes como Marmoush, Nico González, Abdukodir Khusanov, Vitor Reis, Reijnders, Rayan Aït-Nouri, Rayan Cherki, Trafford, Donnarumma, além de Semenyo e Marc Guéhi.

Segundo levantamento da “Sky Sports”, o clube havia chegado a 445,9 milhões de libras (R$ 3,1 bilhões) gastos em 15 jogadores nos 12 meses anteriores a janeiro de 2026. Há, evidentemente, contratações que parecem muito mais promissoras.

Khusanov e Cherki são vistos internamente como jogadores de grande potencial. Donnarumma acrescenta características que faltavam à posição, ainda que também tenha limitações. Guéhi chegou para solucionar uma emergência defensiva e foi contratado por apenas 20 milhões de libras, valor considerado extremamente vantajoso diante de seu nível e de sua situação contratual. 

Semenyo, por sua vez, teve impacto imediato: marcou o gol que decidiu a final da FA Cup contra o Chelsea e ajudou o City a conquistar uma dobradinha doméstica em 2025/26. Mas uma reconstrução não pode ser avaliada somente pelo número de bons jogadores contratados.

A chegada de Maresca muda tudo e aumenta a responsabilidade

Enzo Maresca, técnico do Manchester City em treino
Enzo Maresca, técnico do Manchester City em treino. Foto: IMAGO / Sportimage

A troca de Guardiola por Maresca torna inevitável uma nova avaliação. O próprio clube reconhece que está entrando em uma nova era depois de uma década sob o espanhol. Mas precisa evitar que a transição vire uma sucessão de correções.

A contratação de Elliot Anderson por 116 milhões, por exemplo, mostra que o clube continua disposto a investir pesado quando identifica uma necessidade. O inglês era considerado prioridade para o meio-campo e assinou contrato de cinco anos, com opção por mais um. Isso aumenta a importância das próximas semanas.

Se Reijnders sai, Marmoush pode sair, Trafford já saiu e outros jogadores ainda precisam definir seu futuro, o City terá de reconstruir novamente uma parte significativa do elenco apenas um ano depois de ter iniciado a primeira grande reconstrução.

Reijnders não fracassou simplesmente porque não era bom o bastante, Trafford não deixou de ser um goleiro promissor e Marmoush não esqueceu de jogar futebol. O que fracassou, ao menos até aqui, foi a tentativa de transformar uma coleção de jogadores talentosos em um elenco capaz de responder às exigências específicas do Manchester City.

Depois de uma década em que Guardiola fazia o time parecer maior do que a soma de suas partes, o City está descobrindo que contratar bons jogadores não basta. É preciso saber exatamente por que cada um deles está ali.