“São dois!”: o que muda ao descobrir uma gravidez de gêmeos

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“São dois!”: o que muda ao descobrir uma gravidez de gêmeos

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“Temos dois bebês aqui.”

Às vezes, bastam poucas palavras durante um ultrassom para mudar completamente a gravidez que aquela família havia começado a imaginar. O enxoval mental era para um bebê, o quarto era para um bebê, os planos eram para um bebê. De repente, são dois.

A reação pode ser uma explosão de felicidade. Mas também pode vir acompanhada de silêncio, incredulidade e uma quantidade enorme de perguntas. A gravidez terá mais riscos? Os bebês nascerão prematuros? Será necessário fazer cesariana? Como amamentar dois? Vamos conseguir cuidar deles? E, inevitavelmente, surge uma questão bastante prática: como nossa vida vai funcionar com dois recém-nascidos ao mesmo tempo?

Essa mistura de sentimentos não é contraditória. Uma gestação gemelar traz uma alegria muito particular, mas também exige adaptações médicas, emocionais e familiares que começam muito antes do nascimento.

O primeiro ultrassom já muda o pré-natal

Depois da surpresa inicial, existe uma informação que o obstetra precisa descobrir o quanto antes: não basta saber que são gêmeos. Precisamos entender como essa gestação está organizada.

Uma das principais questões é determinar a corionicidade e a amnionicidade, ou seja, saber se os bebês têm placentas separadas ou compartilham uma placenta e se estão em bolsas amnióticas distintas ou na mesma bolsa. Essa classificação é feita preferencialmente no primeiro trimestre e tem enorme importância porque determina parte dos riscos da gestação e a frequência do acompanhamento.

Gêmeos que possuem uma placenta para cada bebê apresentam uma situação diferente daqueles que compartilham a mesma placenta. Quando há compartilhamento, existem complicações específicas que precisam ser monitoradas, como a síndrome de transfusão feto-fetal, na qual ocorre um desequilíbrio da circulação sanguínea entre os bebês.

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Por isso, aquele primeiro ultrassom que para os pais representa a descoberta de dois corações batendo também fornece ao obstetra informações que irão orientar praticamente todo o pré-natal.

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Gravidez de gêmeos não é necessariamente problemática

Esse é outro ponto importante, porque a palavra “risco” pode assustar mais do que informar. Uma gestação gemelar é considerada de maior risco quando comparada a uma gestação única, mas isso não significa que haverá necessariamente complicações.

O acompanhamento é mais próximo justamente para identificar precocemente possíveis problemas. Entre as questões que merecem maior atenção estão hipertensão e pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, anemia, alterações do crescimento fetal e, principalmente, nascimento prematuro.

A prematuridade é significativamente mais frequente nas gestações múltiplas. Segundo dados internacionais, mais da metade dos gêmeos nasce antes de 37 semanas. Isso não significa que todo nascimento prematuro terá consequências graves, mas faz com que essa possibilidade precise entrar mais cedo nas conversas entre médico e família.

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O pré-natal também acompanha individualmente o crescimento dos dois bebês. Eles não precisam necessariamente ter exatamente o mesmo peso, mas diferenças importantes podem exigir investigação e acompanhamento mais frequente.

Alegria e medo podem existir ao mesmo tempo

Existe uma dimensão da gravidez gemelar que os exames não conseguem medir. A notícia de que são dois bebês pode provocar uma reorganização emocional muito maior do que aquela inicialmente imaginada pelos pais.

A preocupação financeira pode aparecer. O medo de não conseguir dar atenção suficiente aos dois também. Para quem já tem outros filhos, surge a dúvida sobre como reorganizar a família. Para mães de primeira viagem, a insegurança natural diante de um recém-nascido pode parecer multiplicada por dois.

Também existe uma expectativa social de que receber a notícia de gêmeos seja apenas uma experiência extraordinariamente feliz. Isso pode fazer com que alguns pais sintam culpa por estarem assustados ou preocupados. Não deveria ser assim. Estar feliz com a gravidez não impede ninguém de sentir medo diante de uma mudança tão grande.

Transformar parte dessa ansiedade em planejamento costuma ajudar. Quanto mais a família compreende o que realmente pode acontecer, menos precisa preencher as lacunas com cenários imaginados.

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Preparar-se para dois começa antes do parto

Em uma gestação única, muitas famílias deixam determinadas decisões para as últimas semanas. Com gêmeos, vale antecipar algumas conversas, principalmente porque existe maior possibilidade de o nascimento ocorrer antes da data inicialmente calculada.

A rede de apoio é uma delas. Cuidar de dois recém-nascidos exige muito dos pais, especialmente nas primeiras semanas. Organizar previamente quem poderá ajudar com alimentação, tarefas domésticas, deslocamentos ou cuidados com outros filhos pode fazer uma diferença enorme depois que os bebês chegam.

A amamentação também merece ser discutida durante o pré-natal. É possível amamentar gêmeos, inclusive simultaneamente, mas algumas mães precisam de orientação adicional para encontrar posições confortáveis, estabelecer a produção de leite e organizar mamadas, especialmente quando os bebês nascem prematuros ou precisam permanecer inicialmente em uma unidade neonatal.

O tipo de parto, por sua vez, não é definido simplesmente pelo fato de serem dois bebês. A posição dos fetos, a idade gestacional, as características da gravidez, eventuais complicações e a experiência da equipe participam dessa decisão. Em situações adequadamente selecionadas, o parto vaginal pode ser uma possibilidade.

Duas crianças, não uma dupla

Existe ainda uma preparação que ultrapassa a gestação. Gêmeos compartilham uma história muito particular desde antes do nascimento, mas continuam sendo duas pessoas diferentes.

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Essa percepção pode parecer óbvia, porém ganha importância à medida que as crianças crescem. Temperamento, ritmo de desenvolvimento, interesses e necessidades podem ser distintos, inclusive entre gêmeos idênticos. A tendência de comparar permanentemente quem mamou mais, dormiu primeiro, caminhou antes ou falou mais cedo pode acrescentar uma pressão desnecessária à família.

Talvez seja justamente essa a maior mudança anunciada naquele primeiro “são dois”. Os pais não estão apenas se preparando para realizar em dobro as mesmas tarefas. Estão começando a construir simultaneamente relações com dois filhos, cada um com sua própria trajetória.

A medicina acompanha essa gravidez mais de perto porque conhece seus riscos e sabe como identificá-los. Mas o pré-natal também pode cumprir outra função: transformar o susto inicial em conhecimento, organizar expectativas e preparar a família para uma realidade que certamente será mais intensa.

Quando aparecem dois corações naquele primeiro ultrassom, não são apenas os números que mudam. Muda o pré-natal, muda o planejamento e, aos poucos, muda também a maneira como aquela família começa a imaginar o futuro.

*Ana Horovitz é ginecologista e membro da Brazil Health.

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(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)

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