Outro problema (é claro que nunca tem só um) é que faltam estudos, dados e políticas públicas consistentes. A conversa, no final, fica na disputa superficial de pormenores jurídicos sobre responsabilidades, limites e causalidade, até que descamba para os pontos ainda mais rasos de uma suposta liberdade sendo tolhida. Nas raras conversas existentes, a disputa argumentativa e seus atores aparecem em primeiro plano e as crianças, cujos direitos e interesses deveriam ser o centro da discussão, acabam em segundo plano.
Mais um problema, é a deprimente constatação de que isso, até isso, tenha virado tema de guerra cultural. Não só por conta da (pôxa vida, não acredito que vou escrever essa palavra) polarização que também se impôs sobre essa questão, mas há quem enxergue as regras de conduta e regulação como um tipo de limitação de liberdade.
Aliás, acho curioso que ao tratarmos de questões que envolvem crianças usando e acessando redes sociais, as opiniões dissonantes se invertem e se contradizem: pais e mães progressistas (ou, que por esses valores sentem-se atravessados) que advogam por uma criação livre para construção de autonomia no mundo real, são os que escondem dispositivos e telas dos filhos para blindá-los dos excessos e maldades que, acreditam, vão pular através do vidro se o pequeno passar o dedo pela tela.
No outro lado, os representantes da família conservadora que criam os filhos em rédea curta no dia a dia, cheios de disciplina, cuidados superprotetores e rígidos protocolos de conduta, despejam seus celulares e tablets em suas mãozinhas porque, afinal, “o importante é a liberdade e meu filho vai assistir e jogar porque eu não quero viver em uma ditadura da informação”.
E no acúmulo desses desafios, por fim, a discussão volta para os umbigos e as perspectivas distorcidas dos adultos, dos nossos interesses, ideologias, limitações e prioridades ao prejuízo das crianças, que deveriam estar no topo da agenda, mas seguem sem que seus direitos sejam garantidos.
Isso exige tempo, vontade e exige, sobretudo, que nos livremos de crenças e premissas para que o debate, com todos à mesa, seja produtivo. Nenhum esforço é pequeno quando se trata de proteger quem ainda não consegue se proteger sozinho.
