Tottenham: Por que ‘voltar para casa’ é a cartada final de Richarlison para o seu futuro

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Tottenham: Por que ‘voltar para casa’ é a cartada final de Richarlison para o seu futuro

Richarlison está diante de uma decisão que pode definir o próximo capítulo de sua carreira. Aos 29 anos, depois de quatro temporadas marcadas por lesões, oscilações e dificuldades para encontrar seu espaço no Tottenham, o atacante quer deixar Londres. E, entre as possibilidades, existe uma simbólica: voltar ao Everton, clube onde viveu o melhor período de sua carreira.

Mas retornar a Goodison Park não deveria ser encarado apenas como uma volta para casa. Pode ser, para Richarlison, uma tentativa de reencontrar o jogador que parecia destinado a ser quando deixou o Everton em 2022.

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O ciclo no Tottenham nunca entregou o que prometia

Richarlison chegou ao Tottenham por cerca de 60 milhões de libras depois de quatro temporadas produtivas no Everton. O cenário parecia ideal: um atacante entrando no auge físico, com experiência de Premier League e a capacidade de atuar como centroavante ou aberto pela esquerda.

O problema é que ele nunca conseguiu transformar essas características em regularidade, e os números ajudam a explicar a frustração. Em cinco temporadas de Premier League pelo Tottenham, Richarlison soma 27 gols em 103 partidas. Ainda assim, é importante lembrar que 2025/26 não foi uma temporada ruim em produção.

Pelo contrário: Richarlison marcou 11 gols e deu quatro assistências em 1.964 minutos de Premier League. O problema é que isso não se transformou em uma mudança de status. Ele continuou sendo um jogador importante, mas não indispensável. E, com a reformulação promovida pelo Tottenham neste verão europeu, sua posição ficou ainda mais ameaçada.

Richarlison antes de jogo do Tottenham
Richarlison antes de jogo do Tottenham (Foto: IMAGO / Pro Sports Images)

Os Spurs trouxeram uma série de atacantes e agora conta com nomes como Sávio, Omar Marmoush, Mohammed Kudus, Mathys Tel e Dominic Solanke. O próprio De Zerbi havia indicado que poderia perder algum jogador do setor antes do fechamento da janela.

Marmoush, especialmente, parece ter sido um golpe importante para as perspectivas de Richarlison. Depois de apenas um jogo como titular nesta temporada, ele acabou fora da relação contra o Newcastle. Na sequência, De Zerbi tornou público aquilo que já vinha sendo discutido nos bastidores: Richarlison quer sair.

Richarlison ainda é um bom jogador e a temporada passada mostrou isso. Seus 11 gols em 21,8 jogos completos representam uma média de 0,50 gol por 90 minutos na Premier League. Ele também teve 104 toques na área adversária, 61 finalizações e 22 chutes no alvo dentro da área. 

Ele continua sendo útil quando consegue jogar perto da área. Richarlison é um atacante agressivo, que ataca cruzamentos, disputa bolas aéreas, pressiona zagueiros e se movimenta constantemente para atacar o espaço entre lateral e zagueiro. O problema é que seu melhor futebol costuma aparecer quando ele sente que faz parte de uma estrutura na qual sabe exatamente qual é sua função.

O Richarlison do Everton era mais do que um goleador: era feliz

No Everton, Richarlison não precisava ser apenas o camisa 9. Ele podia começar pela esquerda, atacar o espaço, entrar na área e aparecer como segundo atacante. Também podia ser o jogador que conduzia a transição, pressionava a saída adversária ou atacava a segunda trave.

Sua versatilidade era uma das grandes armas. E mais importante: ele tinha uma relação muito mais orgânica com o clube. Em quatro temporadas, virou referência da equipe, ídolo da torcida e um dos jogadores mais importantes do Everton. Seus 43 gols de liga pelo clube mostram a dimensão da produção. No Tottenham, a situação foi diferente.

Richarlison pelo Everton, em 2022 (Foto: Imago/News Images)
Richarlison pelo Everton, em 2022 (Foto: Imago/News Images)

A expectativa do investimento transformou-o em alguém que precisava justificar constantemente os 60 milhões de euros. E as lesões impediram que ele tivesse a sequência necessária para fazê-lo. Isso criou um ciclo ruim: poucas partidas, menos ritmo, mais dificuldade para atuar no nível esperado, mais questionamentos e novamente menos espaço.

Mas a análise precisa ir além do campo. Richarlison já falou publicamente sobre problemas de saúde mental. Em 2024, revelou que passou por um período de depressão depois da Copa do Mundo de 2022 e chegou a considerar abandonar o futebol. Ele afirmou que a terapia “salvou sua vida”.

É um episódio importante porque mostra que o contexto emocional não é um detalhe na carreira de Richarlison. Ele próprio explicou que havia passado por meses turbulentos fora do campo e que procurou ajuda psicológica.

Isso não significa que qualquer mudança de clube vá automaticamente resolver seus problemas. Nem seria correto tratar o Everton como uma espécie de solução terapêutica. Mas significa que a pergunta sobre onde Richarlison será mais feliz e mais confortável para trabalhar precisa fazer parte da análise.

Se existe um lugar na Inglaterra onde ele já sabe que é querido, conhece a torcida, conhece a cidade e sabe que terá uma conexão emocional com o clube, esse lugar é Everton. E o próprio atacante admitiu o interesse em voltar nas redes sociais, em extenso desabafo:

“Sempre deixei claro, em todas as oportunidades, que minha saída teria também de ser boa para o clube. Se não fosse, jamais aceitaria, como não aceitei quando tudo aqui estava desmoronando e precisaram de mim. Eu fiquei e dei minha vida (…). Se entrarem em um acordo entre Spurs e Everton, eu volto ao time do meu coração. Minha intenção era sim voltar ao lugar onde fui muito feliz. Só que as negociações eram do jeito que as pessoas queriam, e não vai ser desse jeito mais”.

E a seleção brasileira? Taticamente, Richarlison ainda tem o que oferecer

Richarlison na Copa do Mundo de 2022
Richarlison na Copa do Mundo de 2022 (Foto: IMAGO / Russian Look)

Richarlison ainda está no radar da Seleção, mas a competição pela posição de centroavante ficou mais difícil.

O Brasil precisa começar um novo ciclo depois da Copa de 2026. Para um atacante de 29 anos, não existe mais muito tempo para passar temporadas esperando recuperar seu espaço.

Ele precisa jogar, ter sequência e voltar a marcar gols regularmente. E precisa, sobretudo, voltar a ser percebido como um jogador que faz diferença, e não apenas como uma alternativa experiente. Um retorno ao Everton poderia oferecer isso.

Não porque o nível de exigência seja menor, a Premier League continua sendo a Premier League, mas porque Richarlison poderia voltar a ocupar um papel central. No Tottenham, ele virou parte de uma rotação. No Everton, pode voltar a ser protagonista.

Existe também uma questão de encaixe. Richarlison é um jogador muito mais completo do que a imagem de “centroavante brigador” às vezes sugere. Ele consegue atacar profundidade, jogar como referência, pressionar zagueiros, atacar cruzamentos e ganhar duelos aéreos.

Não é necessariamente um jogador de elite mundial em nenhum desses pontos, mas ainda assim, permite que um treinador altere o comportamento ofensivo sem necessariamente substituir o brasileiro. Se o Everton quiser jogar mais direto, Richarlison pode ser o alvo da primeira bola. Se quiser pressionar alto, ele consegue liderar a primeira linha.

Mas o Richarlison do Everton de 2019 a 2022 não está mais disponível. Ele tem 29 anos, acumula um histórico significativo de lesões e passou por quatro temporadas muito mais irregulares do que provavelmente imaginava quando deixou Liverpool. E o Everton também não é mais exatamente o clube que ele deixou. A equipe mudou, o estádio, o projeto esportivo e as expectativas também. Voltar não garante que os gols aparecerão.

E existe ainda uma questão financeira: o Everton precisa avaliar se faz sentido investir uma quantia significativa em um atacante que recebe um salário elevado e tem histórico de problemas físicos.

No fim, a carreira de Richarlison entrou em um ponto curioso. Ele já provou que pode jogar em alto nível na Premier League, disputou Copa do Mundo, já teve temporadas em que foi um dos melhores atacantes brasileiros atuando na Europa.

O que falta agora não é provar que ele pode ser bom, é recuperar a consistência. E, para isso, talvez seja melhor um clube onde ele possa ser protagonista do que permanecer em um elenco no qual precisa disputar espaço diariamente com uma série de atacantes recém-contratados.

O próprio Tottenham parece ter chegado à mesma conclusão. De Zerbi não fechou as portas para Richarlison, mas foi direto: se o jogador quer sair, precisa apresentar uma solução econômica para o clube. Aos 29 anos, Richarlison precisa escolher o lugar onde poderá voltar a jogar futebol de verdade. O Everton oferece algo que poucos outros destinos conseguem oferecer: memória, identificação, protagonismo e um ambiente no qual ele já mostrou que consegue produzir.

Não é garantia de redenção, mas pode ser uma oportunidade de reconstrução.