Vacinas e infarto: o que a ciência sabe sobre benefícios e riscos para o coração

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Vacinas e infarto: o que a ciência sabe sobre benefícios e riscos para o coração

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Quando se fala em vacinação, é comum pensar primeiro na proteção contra a doença que o imunizante pretende evitar. Mas a ciência vem mostrando que a picada no braço tem um “efeito colateral” menos óbvio: manter o coração seguro.

Essa relação — que por muito tempo passou batida no consultório — tem se tornado prioridade na cardiologia global.

Não à toa, neste mês, o Colégio Americano de Cardiologia (ACC), uma das principais entidades da área, lançou um documento inédito para orientar cardiologistas a colocar a imunização no mesmo patamar de importância de medidas como o controle da pressão arterial e do colesterol.

A discussão também foi um dos destaques do Congresso Internacional de Cardiologia da Rede D’Or, realizado no Rio de Janeiro, entre os dias 6 e 8 de agosto.

“Hoje, o médico entende que, juntamente à prescrição de atividade física, hábitos alimentares, controle de estresse e medicação, deve prescrever adequadamente a vacinação para os grupos com risco de doenças cardiovasculares“, explica um dos palestrantes, o médico André Casarsa, cardiologista do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (HUGG/UniRio) e da Rede D’or.

Isso acontece porque, em determinadas situações, proteger contra infecções significa também reduzir o risco de que elas desencadeiem uma complicação no coração ou nos vasos sanguíneos.

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Só que, enquanto no consultório se consolida a ideia de que elas são necessárias para a saúde cardíaca, na internet a história é outra. Circulam nas redes sociais diversos conteúdos afirmando que elas aumentam o risco de infartos e outros problemas.

Entenda a seguir, o que a ciência realmente sabe sobre a relação entre vacinas e o coração.

+Leia também: Ciência desvenda os verdadeiros efeitos colaterais das vacinas

O que os vírus têm a ver com infarto?

Durante uma gripe ou outra infecção importante, o corpo entra em estado de alerta. A inflamação aumenta, a frequência cardíaca pode subir, a demanda por oxigênio cresce e o sistema de coagulação sofre alterações.

Em quem já tem doença cardiovascular, essa combinação funciona como um gatilho para um evento agudo.

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Com isso, uma placa de gordura nas artérias, por exemplo, pode se romper e formar um coágulo, interrompendo o fluxo de sangue para o músculo cardíaco. É assim que surge um infarto.

Ou seja, não é que o vírus “cause” diretamente um infarto em todo mundo. Mas a infecção cria as condições para que um coração já vulnerável saia do equilíbrio. E é aí que a vacinação entra.

As novas orientações

“Ao contrário do que alguns pregam, a vacinação é cardioprotetora“, resume Casarsa. Por isso, pacientes com comorbidades como hipertensão arterial, doença coronariana (obstrução das artérias), arritmias,

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diabetes ou outros fatores de risco para infartos e derrames são justamente os que mais se beneficiam dessa proteção.

“Vacinar as pessoas, principalmente aquelas com mais de 50 anos ou doenças cardíacas prévias, faz toda a diferença para evitar eventos graves e salvar vidas”, diz o médico.

Diante desse novo paradigma da cardiologia, o ACC listou evidências e pôs no papel como deve ser a rotina de imunização dos adultos que visam uma maior proteção da saúde cardiovascular. 

Quais vacinas tomar para proteger o coração

Gripe (Influenza)

Pouca gente sabe, mas pegar uma gripe forte aumenta em seis vezes o risco de ter um infarto agudo do miocárdio logo na primeira semana da infecção.

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Quem já convive com alguma doença no coração corre um risco ainda maior de complicações, como infecções secundárias e insuficiência cardíaca.

E as evidências científicas aqui são bem robustas. Para citar uma delas, uma meta-análise de seis ensaios clínicos randomizados, que reuniu 6,7 mil pessoas, comparou a vacinação contra influenza com placebo ou nenhuma vacinação.

Durante um acompanhamento médio de 7,9 meses, os vacinados apresentaram 36% menos risco de eventos como morte cardiovascular, infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência cardíaca.

Por isso, a indicação fica assim:

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  • Adultos de 18 a 64 anos: dose padrão anual.
  • Adultos com 65 anos ou mais: preferencialmente a vacina de alta dose (high-dose), recombinante ou com adjuvante, que gera uma resposta imune mais reforçada.

Pneumococo

A bactéria do pneumococo é responsável por milhares de internações anualmente. E os grupos com problemas de saúde prévios são os mais vulneráveis.

Segundo pesquisas, cerca de 90% dos adultos hospitalizados por pneumonia pneumocócica ou infecções invasivas (como meningite e pericardite) já têm alguma doença crônica por trás. Nesses casos, a taxa de mortalidade pode chegar a 20%. 

Como a infecção gera um estresse gigante no organismo, ela também funciona como um gatilho para eventos cardíacos agudos. Estudos apontam que manter a vacinação pneumocócica em dia ajuda a diminuir essa sobrecarga vascular.

Como fica a indicação:

  • Adultos a partir dos 50 anos: indicadas para todos que nunca receberam a vacina pneumocócica conjugada (PCV).
  • Adultos de 19 a 49 anos: caso tenham condições crônicas

Vacina contra o VSR

O vírus sincicial respiratório (VSR) é famoso por causar bronquiolite em bebês, mas também representa um grande risco na terceira idade.

Adultos com insuficiência cardíaca, doença arterial coronariana, diabetes e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) correm um risco elevado de desenvolver quadros graves.

Para ter ideia, um estudo realizado em Singapura, com mais de 32 mil adultos hospitalizados por infecção pelo VSR e idade média de 66,6 anos, mostrou que cerca de 1 em cada 10 apresentou um evento cardiovascular agudo durante a hospitalização.

Por isso, as recomendações atuais incluem:

  • Vacinação contra o VSR para adultos a partir dos 50 anos com doença cardiovascular que ainda não tenham sido imunizados, além de outros grupos definidos pelas autoridades de saúde.

Herpes-zóster

Até mesmo uma doença que não costuma ser associada ao coração começa a chamar a atenção dos cardiologistas: o herpes-zóster, conhecido popularmente como cobreiro.

A infecção é causada pelo vírus da catapora, que permanece adormecido no organismo e pode ser reativado anos depois. Nesse retorno, ele provoca uma intensa resposta inflamatória. Por isso, estudos já associaram o herpes-zóster a um aumento temporário do risco de infarto e AVC.

A imunização, por outro lado, esteve associada a menores riscos desses quadros, além de insuficiência cardíaca e arritmia, com benefícios observados por até oito anos em uma pesquisa realizada na Coreia do Sul com mais de 1 milhão de participantes.

Esses resultados são promissores, mas vale dizer que boa parte dos dados sobre herpes-zóster e coração vem de estudos observacionais.

Ou seja, eles mostram uma associação, mas não conseguem provar sozinhos que a vacina foi a responsável pela redução dos eventos cardiovasculares.

Ainda assim, o ACC mantém a recomendação da vacina.

Como fica a indicação:

  • Adultos a partir dos 50 anos: recomendadas 2 doses da vacina recombinante contra o herpes-zóster, com intervalo de 2 a 6 meses entre elas.

Mas vacina pode causar miocardite?

Esse é um tema que entrou em voga durante a pandemia, em relação à vacinação contra a Covid-19. Agora, os imunizantes contra a doença voltaram a ser alvo de especulações nas redes sociais, inclusive sobre uma suposta relação com problemas cardíacos.

De fato, o novo documento do ACC reconhece que algumas vacinas de RNA mensageiro (caso do imunizante da Pfizer) poderiam, em casos extremamente raros, provocar miocardite (inflamação do músculo do coração) — principalmente em homens.

O risco, porém, é considerado muito baixo: os estudos estimam 1 a 19 casos adicionais de miocardite por um milhão de pessoas após as duas primeiras doses.

Além disso, nos registros, quando ocorreram, os quadros geralmente evoluíram bem e de forma mais branda do que a miocardite provocada pela própria infecção pelo coronavírus.

Essa diferença é importante, porque a Covid-19 representa uma ameaça cardiovascular muito maior, especialmente para quem já tem doença cardíaca. Segundo o ACC, essas pessoas tiveram cerca de três vezes mais risco de desenvolver formas graves da doença durante a pandemia.

Embora o efeito adverso exista e deva ser informado em bula, as evidências não sustentam a ideia de que as vacinas estejam provocando uma onda de infartos ou de doenças cardíacas. Por isso, para o ACC, os benefícios da imunização superam (e muito) o raro risco de miocardite.

As chances desse evento adverso também parece ter diminuído com as formulações mais recentes. Segundo dados citados pelo ACC, foram registrados 1,2 caso de miocardite por milhão de doses das vacinas bivalentes de mRNA, contra 6,9 casos por milhão com as versões originais.

Assim, a recomendação é:

  • Pessoas com doença coronariana crônica: vacinação contra a Covid-19 é recomendação forte da AHA/ACC;
  • Pessoas com insuficiência cardíaca: vacinação contra doenças respiratórias é recomendada para reduzir o risco de morte;
  • Pessoas imunocomprometidas: devem seguir um esquema de vacinação contra a Covid-19 com doses adicionais e periódicas, conforme as recomendações de saúde pública.

“Toda vacinação e medicamento pode gerar algum grau de efeito colateral, como febre ou dor no braço, mas esse é um evento considerado extremamente, hiper, raro. É um detalhe. Então é uma fórmula muito segura e, agora, o risco é ainda menor”, destaca Casarsa.

“Hoje, quando o assunto são as vacinas [em geral], o fato mais importante para nós, cardiologistas, é que elas estão associadas à proteção cardiovascular. Isto é, hoje sabemos que a chance de infarto é diminuída com a vacinação“, diz o médico.

Os verdadeiros “efeitos colaterais” das vacinas