Fantástico vai até Ceuta, epicentro da crise migratória que sacudiu a Europa

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Fantástico vai até Ceuta, epicentro da crise migratória que sacudiu a Europa


Fantástico vai até Ceuta, epicentro da crise migratória que sacudiu a Europa
Na praia de Tarrajal, em Ceuta, um gari recolhe tênis, roupas e nadadeiras deixados para trás por quem tentou cruzar a fronteira entre a África e a Europa. Os objetos espalhados pela areia são o retrato silencioso de uma das maiores ondas migratórias dos últimos anos no continente.
O Fantástico foi até Ceuta, enclave espanhol localizado em território africano, para mostrar como a cidade de pouco mais de 80 mil habitantes se tornou o epicentro de uma crise migratória que mobilizou autoridades, expôs falhas no controle da fronteira e revelou o desespero de milhares de jovens em busca de oportunidades. Veja no vídeo acima.
Em apenas dois dias, quase 50 mil pessoas chegaram ao município, seja escalando a cerca que separa o território espanhol do Marrocos, seja enfrentando o mar apenas com a roupa do corpo. O fluxo repentino fez a população da cidade praticamente dobrar de um dia para o outro.
O fotógrafo português João Porfírio, um dos primeiros a registrar a chegada em massa dos migrantes, lembra da cena que encontrou.
“Não dava para ver a areia de tanta gente. É uma cena que não sai da minha cabeça.”
Ceuta ocupa uma posição geográfica única: está no continente africano, quase cercada pelo Marrocos, mas pertence à Espanha e integra a União Europeia. A localização faz da cidade uma das principais portas de entrada para quem tenta alcançar o território europeu.
Segundo o jornal espanhol El País, vídeos publicados em redes sociais marroquinas indicavam onde comprar roupas de mergulho, nadadeiras e bolsas impermeáveis, além de ensinar o trajeto pelo mar até a fronteira. O governo espanhol também aponta a atuação de organizações criminosas especializadas no tráfico de pessoas como um dos fatores que impulsionaram a corrida a Ceuta.
Dias depois da chegada em massa, o cenário ainda era de forte vigilância. Policiais e soldados espanhóis coordenavam o retorno de centenas de migrantes ao Marrocos, muitos deles feridos e carregando poucos pertences.
Entre os que voltavam estava o adolescente irmão de Ibrahim. Ele contou que viajou até Ceuta apenas para convencer o jovem a desistir da travessia.
“Meu irmão entrou aqui porque a situação está difícil, mas nenhuma travessia pelo mar vale uma vida”, afirmou.
As histórias ouvidas pela reportagem têm um ponto em comum: falta de trabalho, renda e perspectivas de futuro. Um dos migrantes resume o motivo que o levou a arriscar a vida.
“Eu vim em busca de emprego para ajudar a minha família que está no Marrocos.”
Outro jovem, Ayub, contou que chegou a nado, mas acabou interceptado pelas autoridades. Sem conseguir contato com a família porque o celular parou de funcionar, ele mostrou à equipe as marcas deixadas, segundo ele, durante a abordagem policial. Depois da tentativa frustrada, também retornou ao Marrocos.
Embora o Marrocos não enfrente uma guerra nem uma crise humanitária, organizações de direitos humanos apontam que mais de 1,5 milhão de pessoas entre 15 e 25 anos não estudam nem trabalham. A falta de oportunidades para a juventude é apontada como uma das principais causas da mobilização que levou milhares de pessoas a tentar chegar à Europa.
Na Praia do Trampolim, outro ponto de Ceuta, a reportagem encontrou um refugiado do Sudão que atravessou quatro países africanos antes de chegar à fronteira espanhola. Mesmo ferido, ele afirma que continua determinado a reconstruir a vida.
“A gente ainda é jovem, quer construir um futuro, voltar a estudar e cuidar da nossa mãe e dos nossos irmãos. Por isso, pedimos asilo para a Espanha.”
Acostumada a viver entre dois continentes, Ceuta voltou a simbolizar o contraste entre dois mundos separados por poucos quilômetros, mas marcados por profundas diferenças sociais e econômicas. A recente onda migratória transformou novamente a pequena cidade na principal vitrine de uma crise que continua desafiando a Europa.
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Reprodução/TV Globo
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