O caso mais simbólico é a contabilidade, literalmente uma das profissões mais estereotipadas como “chatas” que existem. Segundo a revista Fortune, cerca de 340 mil contadores deixaram a área nos Estados Unidos nos últimos cinco anos, e estima-se que 75% dos que restam vão se aposentar na próxima década. O resultado desse vácuo? Recém-formados fechando salários de seis dígitos, com taxas de empregabilidade que passam de 90%: as maiores de qualquer curso de negócios em várias universidades.
Uma busca rápida no TikTok pelo termo “boring jobs” revela, inclusive no Brasil, jovens investindo em lavanderias, por exemplo, em vez de abrir companhias de metaverso ou criptos. Por aqui, já se chama esse tipo de escolha de “refúgio profissional”. E a escolha da palavra refúgio não é por acaso, pois ela pressupõe que há algo lá fora do qual se proteger.
Do quê? De duas coisas ao mesmo tempo. A primeira é a inteligência artificial. Uma pesquisa do Pew Research mostra que 52% dos trabalhadores estão preocupados com o impacto da IA no próprio emprego. E o cálculo da geração Z é frio: melhor apostar num trabalho que exija mãos, presença física ou um selo de responsabilidade legal (coisas que a máquina ainda não faz barato) do que num cargo de escritório que um modelo de linguagem replica antes do fim do trimestre.
A segunda é mais estrutural, e menos comentada. O mercado de colarinho branco simplesmente congelou. Como mostrou o analista Jack Kelly, da Forbes, a “Grande Renúncia” (aquela onda em que todo mundo pedia demissão em busca de propósito) acabou e virou o oposto exato: uma paralisia.
Os trabalhadores, com medo de perder o emprego, não saem mais: a taxa de demissão voluntária está no menor nível desde 2015. Os empregadores, espremidos por custos e incerteza, não contratam, e, quando precisam, preferem automatizar. As vagas para profissionais de alto salário caíram ao menor patamar desde 2014.
Ou seja: a IA nem precisa roubar o seu emprego. Basta ela fazer o seu chefe hesitar em contratar o próximo, e o mercado inteiro trava. Uma paralisia que, como resume o próprio Kelly, não interessa a nenhum dos dois lados.
Aqui está o que me parece o coração da coisa, e é quase filosófico. Uma geração inteira foi criada com um evangelho: “faça o que você ama e não trabalhará um dia sequer na vida”. O trabalho deixou de ser meio e virou fim. Virou identidade, propósito, missão, a resposta para “quem é você” numa festa. A gente aprendeu a ficar doze horas num escritório com pufe e cerveja na geladeira, convencido de que estava mudando o mundo.
E aí veio o primeiro layoff (demissão em massa). Nada cura mais rápido a ilusão de “somos uma família” do que um e-mail de desligamento às sete da manhã, com o acesso ao crachá já bloqueado. A empresa que era missão virou, da noite para o dia, uma linha no currículo. E quem tinha misturado quem era com o que fazia descobriu, do jeito mais caro, que as duas coisas nunca foram as mesmas.
