“NÃO HÁ VOTOS”: a Sabesp, a Fim da Linha e a suspeita de que uma operação policial virou alavanca sobre o Legislativo paulistano

Existe uma sequência de fatos neste caso que não depende de adjetivo nenhum — e que, lida em ordem, conta uma história por si. Milton Leite, então presidente da Câmara, teve papel na aprovação da adesão da capital à privatização da Sabesp, pauta do governo Tarcísio.

No início de abril de 2024, ele dizia que não havia votos para aprovar o projeto e que não o colocaria em votação enquanto houvesse resistência.

A operação que veio no meio

A tramitação avançou após a Operação Fim da Linha, deflagrada em 9 de abrilcontra empresas de ônibus suspeitas de ligação com o PCC.

Fontes ouvidas pelo UOL em 2024 afirmaram que o governo do estado usou a operação para pressionar Milton Leite a acelerar a adesão da capital à privatização. O governo negou interferência, e o então vereador negou ter sofrido pressão.

Depois, Milton Leite mudou de posição e votou a favor do projeto. Ele afirmou que passou a apoiar a proposta porque o texto havia sido aprimorado e ampliava as contrapartidas para São Paulo.

O que fica dessa cronologia

Vamos montar o calendário, sem comentário:

DataO que aconteceu
Início de abril de 2024Leite diz que não há votos e que não coloca o projeto em votação com resistência
9 de abril de 2024Operação Fim da Linha contra empresas de ônibus suspeitas de ligação com o PCC
DepoisA tramitação avança; Leite muda de posição e vota a favor, alegando aprimoramento do texto e mais contrapartidas
17 de setembro de 2026Leite é alvo de prisão na Operação Vectura Corrupta, sobre infiltração do PCC no transporte público

Nada disso prova que a operação foi usada como instrumento — o governo nega e Leite negou. Mas o fato de que a pergunta existe, foi feita por fontes em 2024 e reaparece agora com Leite preso e com o PCC identificado infiltrado em 12 das 22 empresas de ônibus da cidade é um dado político de primeira grandeza. A Sabesp foi privatizada, e o Legislativo que destravou a pauta é o mesmo Legislativo que agora aparece no centro de uma investigação sobre o crime organizado no transporte.

O que a investigação aponta agora

A Operação Vectura Corrupta, deflagrada em 17/9, apontou que os investigados têm relação com um esquema de infiltração do PCC no sistema do transporte público paulista, e é desdobramento da Operação Decúrio (agosto de 2024). Nesta nova fase, novamente foi detectada a atuação de advogados em conluio com o crime organizado, extrapolando os limites éticos da advocacia — e foi identificado o intenso envolvimento do PCC no financiamento de campanhas políticas nas eleições de 2024.

A conta final: um projeto de privatização estava parado por falta de votos; uma operação policial contra empresas de ônibus foi deflagrada; a tramitação avançou; o projeto passou; e, dois anos depois, o presidente da Câmara que destravou a pauta é preso numa investigação sobre infiltração do PCC no transporte. O governo nega ter usado a operação como pressão, e Leite negou ter sofrido pressão. Pode ter sido coincidência — mas é uma coincidência com data, com sequência e com o mesmo setor no centro. São Paulo privatizou a água com esse roteiro de fundo. O eleitor tem o direito de saber se o preço disso foi técnico ou político — porque a conta da Sabesp chega todo mês na casa de quem mora aqui.