Existe uma informação neste caso que é mais reveladora que o valor do apartamento — e ela está numa data. A empresa FFM Participações Societárias Ltda foi fundada em 2010 — um ano antes de Filipe ser nomeado Secretário de Estado do Planejamento do governo Raimundo Colombo (PSD).
Leia de novo. A holding é criada. No ano seguinte, o filho do então político Jorginho Mello vira secretário de Estado. Depois disso, ele ainda seria Secretário Executivo de Assuntos Internacionais e Secretário de Estado de Turismo, Cultura e Esporte — três pastas em um único mandato — e, em 2017 e 2018, secretário municipal da Casa Civil em Florianópolis.
As duas empresas da família
Os negócios da família Mello têm a titularidade dos três nomes — o governador, Filipe e Bruno — ou de duas holdings:
| Empresa | Sócios |
|---|---|
| FFM Participações Societárias Ltda | Filipe Mello e a esposa |
| JSM Participações Societárias Ltda | Pai e filhos |
A FFM é a que administra o maior número de imóveis e tem como sócia administradora a dentista Carolina Zanella Ghisi Mello, esposa de Filipe. O pai dela, João Carlos Ghisi, é funcionário comissionado como consultor executivo na secretaria da Casa Civil, com salário bruto de R$ 18.517,10.
Vale registrar esse último dado com precisão, porque ele é de organograma, não de opinião: a mulher que administra a holding que concentra o maior número de imóveis da família é filha de um servidor comissionado da Casa Civil do governo do mesmo estado. Não há ilegalidade apontada — mas há um desenho.
O retorno ao governo depois da pausa
A partir de 2019, quando o pai já era senador, Filipe ficou afastado das funções públicas — que retomaria em 2023 como uma espécie de assessor informal do governo. Jorginho Mello tentou nomear o próprio filho como secretário, mas foi impedido pela Justiça.
Esse último ponto é o mais eloquente de todos — e não é acusação, é fato noticiado: o governador tentou dar ao filho um cargo formal de secretário e o Judiciário não permitiu. Ou seja: a estrutura familiar de patrimônio e de influência não depende, para funcionar, de nomeação formal. Ela opera por holding, por empresa e por “assessoria informal”.
O que a nota não esclarece
A reportagem procurou Filipe Mello e a assessoria de comunicação de Jorginho Mello e do governo de Santa Catarina. Não houve resposta. Portanto, sobre a cronologia — empresa em 2010, cargo em 2011 — não existe, até aqui, nenhuma explicação oficial.
A conta final: uma holding criada em 2010; um cargo de secretário de Estado em 2011; três secretarias no mesmo mandato; pausa entre 2019 e 2022; retorno em 2023 como assessor informal; tentativa de nomeação como secretário barrada pela Justiça; e uma compra de R$ 11,25 milhões à vista pela empresa do filho em abril de 2026. Nenhuma dessas linhas é crime, e nenhuma delas precisa ser. Mas, colocadas em ordem, elas formam um desenho que o eleitor catarinense consegue ler sem ajuda de advogado: o patrimônio da família se organiza em empresas; as empresas aparecem na mesma janela de tempo em que os cargos aparecem; e o filho que não pôde ser secretário por decisão judicial segue circulando pelo governo como assessor informal. Isso não exige investigação para ser notado — exige apenas que alguém pergunte, e que a resposta venha por escrito.
