Que efeito as cores têm no nosso cérebro? – 22/08/2026 – Ciência

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Que efeito as cores têm no nosso cérebro? – 22/08/2026 – Ciência

Associamos o vermelho a sinais de perigo, e o verde nos transmite tranquilidade. Pensamos no azul para decorar um cômodo onde possamos relaxar e no amarelo quando queremos chamar a atenção.

Sabemos muito bem que as marcas escolhem cuidadosamente os tons de seus logotipos, e que há até cores às quais atribuímos a capacidade de melhorar nossa concentração. Sim, estamos cercados de ideias sobre como as cores afetam nosso cérebro.

Mas será que realmente existe uma neurociência da cor? A resposta curta é sim. E a longa, muito mais interessante.

A cor não está na luz

Embora pareça estranho, as cores não existem na luz. A luz contém diferentes comprimentos de onda (o chamado espectro eletromagnético) e é o nosso sistema nervoso que, na faixa do espectro visível e comparando os sinais que chegam à retina, constrói a experiência que chamamos de cor.

O cérebro não dispõe simplesmente de um detector para o vermelho, outro para o verde e outro para o azul. A retina humana contém cinco tipos de células sensíveis à luz: bastonetes; cones sensíveis a comprimentos de onda curtos (S), médios (M) e longos (L); e um tipo de células ganglionares que expressam o fotopigmento melanopsina.

De maneira geral, podemos resumir que a percepção cromática surge da comparação entre os sinais de diferentes tipos de cones. De certa forma, podemos dizer, portanto, que a cor é uma interpretação cerebral da luz.

Mas a história fica ainda mais interessante quando descobrimos que nossos olhos contêm células sensíveis à luz cuja função principal não é nos ajudar a formar imagens.

Muito mais do que ver

As células ganglionares da retina intrinsecamente fotossensíveis (ipRGCs) são neurônios que contêm melanopsina, um pigmento especialmente sensível a comprimentos de onda curtos. Com um pico de sensibilidade próximo a 480 nanômetros (nm, bilionésimos de metro), o fotopigmento capta a região do espectro associada ao azul-esverdeado.

As ipRGCs participam do que conhecemos como visão não visual. A expressão pode parecer contraditória, mas o que ela tenta descrever é que nossos olhos não apenas enviam ao cérebro informações para reconhecer rostos, ler estas palavras ou distinguir uma maçã vermelha de uma verde. Essas células também informam sobre a quantidade e as características da luz no ambiente, contribuindo assim para regular o sono, os ritmos circadianos, o estado de alerta e outros processos fisiológicos.

Além disso, as ipRGCs não atuam sozinhas. Elas recebem informações dos cones e dos bastonetes e participam de circuitos retinianos complexos, capazes de integrar os sinais relacionados à cor.

Em outras palavras, quando abrimos os olhos, a luz faz pelo menos duas coisas ao mesmo tempo: nos permite ver o mundo e, além disso, informa ao nosso organismo qual momento do dia parece ser. E digo isso porque poderia não ser assim, pois eles poderiam se confundir.

Pensemos em alguém que olha para o celular na cama à meia-noite. O relógio marca meia-noite, mas a retina está recebendo um sinal luminoso que está muito longe de ser associado à escuridão dessa hora. Para alguns circuitos do nosso cérebro, a mensagem que chega dos olhos é que, talvez, ainda não seja hora de dormir.

O paradoxo do azul

E aqui surge uma curiosa contradição. Costumamos associar o azul à calma. Basta pensar no céu ou no mar. No entanto, a luz rica em comprimentos de onda curtos (entre 460 e 480 nm) pode produzir exatamente o contrário, especialmente durante a noite.

Uma revisão sistemática do tipo metanálise demonstrou que a luz compreendida na faixa acima indicada pode aumentar o estado de alerta e modular a atividade cerebral e certas funções cognitivas. E esses efeitos são muito mais evidentes à noite do que durante o dia.

Qual é a explicação? Bem, em grande parte está na melanopsina. Quando esses comprimentos de onda ativam o fotopigmento, as ipRGCs que o contêm respondem e acionam vias nervosas que conectam a luz ambiente à regulação de nossos ritmos biológicos, ao interferirem na secreção de melatonina, o hormônio que produzimos durante a noite e que atua como um sinal biológico de escuridão.

E o vermelho nos deixa nervosos?

Já vimos que a cor que acreditamos perceber e o efeito fisiológico da luz não são exatamente a mesma coisa. E, nesse sentido, há estudos que identificaram diferenças na atividade cerebral (por meio da eletroencefalografia) quando observamos cores diferentes.

Por exemplo, a percepção do vermelho foi associada a alterações na banda alfa-3, que os autores relacionam a uma possível resposta emocional negativa e a um aumento da ansiedade. Já os estímulos azuis e verdes produziram diferenças na banda beta-1, o que é considerado compatível com um maior nível de atenção.

Mas atenção: estamos falando de associações entre determinados padrões de atividade cerebral e estados emocionais ou cognitivos, o que não significa que o estudo tenha demonstrado que o vermelho provoque ansiedade nem que o verde nos torne mais atentos. Ou seja, a partir desses experimentos não podemos concluir que pintar um escritório de verde nos tornará automaticamente trabalhadores mais concentrados.

Em resumo, nunca processamos uma cor isoladamente do mundo. Um semáforo vermelho, uma rosa vermelha e uma mancha vermelha em um jaleco branco podem compartilhar a mesma cor e provocar, obviamente, experiências completamente diferentes.

A construção inconsciente da cor

Analisando todos esses artigos, e partindo do princípio de que acreditamos que as cores afetam nosso cérebro porque as vemos, a conclusão mais interessante que eu tiraria é a seguinte: o que a neurociência está demonstrando é que parte dos efeitos da luz começa antes que o cérebro tenha construído conscientemente a cor.

Sim, vemos a luz, mas nosso organismo também a mede sem que tenhamos consciência disso. E enquanto nosso cérebro decide se algo é azul, verde ou vermelho, outros circuitos estão tentando responder a uma pergunta muito mais básica: é dia ou é noite?

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.