Por que o país com mais dentistas do mundo negligencia a saúde bucal?

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Por que o país com mais dentistas do mundo negligencia a saúde bucal?

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O Brasil abriga o maior contingente de cirurgiões-dentistas do mundo. São mais de 440 mil profissionais registrados. Ainda assim, convivemos com um paradoxo: milhões de brasileiros continuam distantes dos consultórios e procuram atendimento apenas quando a dor já se instalou.

Os números ajudam a dimensionar esse desafio. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, do IBGE, apenas 49,4% da população havia consultado um dentista nos 12 meses anteriores à pesquisa.

Houve avanço em relação aos 44,4% registrados em 2013, mas o dado revela que mais da metade dos brasileiros seguia um ano inteiro sem qualquer acompanhamento odontológico.

As desigualdades são ainda mais evidentes quando analisamos o país de forma regional. Enquanto 55,8% dos moradores da Região Sul haviam realizado consulta odontológica no período, esse percentual era de 40,8% no Norte e de 43,3% no Nordeste. Nas áreas rurais, apenas 38,7% da população passou por um dentista. O acesso também cresce de forma consistente entre pessoas com maior renda e escolaridade.

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Como explicar essa realidade em um país que forma tantos profissionais?

A resposta passa por diferentes fatores. A elevada quantidade de dentistas não significa que eles estejam distribuídos de maneira equilibrada pelo território nacional, nem que os serviços sejam acessíveis para todos.

Barreiras financeiras e geográficas, dificuldade para conciliar consultas com a rotina de trabalho, baixa percepção sobre a importância da prevenção e, em muitos casos, o próprio medo do tratamento ainda afastam parte da população dos cuidados regulares.

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Mas existe um aspecto menos visível e talvez ainda mais desafiador: a cultura.

Historicamente, a saúde bucal foi associada ao tratamento da doença, e não à sua prevenção. Muitos brasileiros ainda enxergam a consulta odontológica como uma resposta à dor, e não como uma estratégia para evitá-la. Esse comportamento gera um ciclo conhecido: o problema evolui silenciosamente, o tratamento torna-se mais complexo, mais caro e, muitas vezes, mais invasivo.

Na prática, prevenir significa exatamente romper esse ciclo.

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Os benefícios da prevenção

Consultas periódicas permitem identificar precocemente cáries, doenças gengivais, lesões bucais e outras alterações antes que provoquem sintomas importantes. O diagnóstico precoce favorece tratamentos menos complexos, reduz custos para pacientes e para o sistema de saúde e, principalmente, preserva qualidade de vida.

Vale lembrar que não existe uma frequência única de consultas: ela deve ser definida pelo cirurgião-dentista conforme idade, histórico clínico e fatores de risco de cada paciente.

+Leia também: Qual é a verdadeira idade dos seus dentes? Resposta pode surpreender

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A boa notícia é que essa mudança de paradigma já começou. Cada vez mais a odontologia deixa de atuar apenas como reparadora para assumir um papel central na promoção da saúde. Hoje sabemos que saúde bucal e saúde geral são indissociáveis.

Alterações na cavidade oral podem impactar alimentação, sono, comunicação, autoestima e relações sociais, além de estarem associadas a diversas condições sistêmicas. Cuidar da boca é cuidar do organismo como um todo. Transformar esse conhecimento em comportamento coletivo, porém, exige um esforço compartilhado.

Como melhorar esse quadro

O poder público precisa ampliar o acesso, especialmente nas regiões mais vulneráveis. Os profissionais têm a missão de fortalecer a educação em saúde e estimular o vínculo contínuo com seus pacientes.

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As empresas podem incorporar a saúde bucal às suas estratégias de promoção da saúde e bem-estar. E as operadoras de saúde têm um papel relevante ao facilitar o acesso à rede credenciada, incentivar o uso preventivo dos planos e utilizar tecnologia e inteligência de dados para estimular o cuidado contínuo.

Nesse contexto, os planos odontológicos representam uma ferramenta importante para ampliar o acesso e reduzir barreiras financeiras. Mas disponibilizar cobertura, por si só, não garante uma população mais saudável. É preciso facilitar a navegação do beneficiário, comunicar claramente os serviços disponíveis e criar incentivos para que a prevenção se torne um hábito, e não uma exceção.

O Brasil já possui conhecimento técnico, profissionais altamente qualificados e um dos maiores mercados odontológicos do mundo. O desafio que permanece é menos assistencial e mais cultural: transformar uma odontologia reconhecida pela excelência clínica em uma odontologia igualmente reconhecida por sua capacidade de prevenir.

Quando conseguirmos substituir a cultura da dor pela cultura do cuidado, deixaremos de ser apenas o país com mais dentistas do mundo para nos tornarmos, finalmente, um país que faz da prevenção um compromisso coletivo.

*Andrea Figueiredo é cirurgiã-dentista formada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e diretora-executiva de Odontologia da SulAmérica.