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É só a ponta do iceberg. Eis a imagem que me ocorreu depois de uma imersão em terras francesas sobre a miopia, a condição com a qual convivo desde a infância. Foi em Paris* que tive acesso a um dos únicos institutos focados em assistência e pesquisa nesse distúrbio no mundo e à ciência por trás do desenvolvimento de uma das principais tecnologias disponíveis para estancar o problema.
Sim, a ponta do iceberg porque a vista embaçada a média e longa distância é só a consequência mais imediata. Nas profundezas, há um olho que cresce e se alonga demais, podendo esgarçar e danificar, com o tempo, estruturas sensíveis e críticas a uma visão de qualidade, como a retina e o nervo óptico.
Como vêm alertando os estudos, isso significa que os míopes — especialmente aqueles que têm mais de 5 ou 6 graus — correm um risco tremendamente maior de apresentar doenças sérias, que podem até deixá-los cegos.
“A sociedade tem de entender que a miopia não é apenas uma questão de ‘precisar de óculos’”, diz a oftalmologista Luisa Moreira Hopker, do Hospital de Olhos do Paraná. “Estamos falando de uma condição que aumenta a propensão a descolamento de retina, glaucoma e perda visual com a idade.”
É, sem exagero, uma questão de saúde e interesse público. Até pelas proporções pandêmicas que assumiu. Hoje, uma em cada três crianças e adolescentes no planeta é míope — a prevalência saltou de 24% em 1990 para 36% em 2023.
Só que a linha desse gráfico não se estabiliza. Pelo contrário, a curva continua a se acentuar. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) projeta que, até 2050, metade da população global receba o diagnóstico — sairemos de cerca de 2 bilhões de pessoas para algo em torno de 5 bilhões, a maioria no continente asiático, mas muita gente no Brasil.
O impacto dos danos que poderão ser impostos aos olhos, à qualidade de vida e à produtividade dessa multidão é avaliado na casa dos trilhões de dólares.
“É por isso que não trabalhamos mais apenas sob a ótica da correção, mas também com a ideia de prevenção e contenção da miopia desde cedo”, diz Arnaud Ribadeau-Dumas, head da Divisão de Lentes da EssilorLuxottica, grupo francês que lançou no Brasil uma nova geração de lentes para óculos com essa missão. “A cada grau a mais de miopia, aumenta o risco de doenças que, no futuro, podem levar à cegueira.”

Preocupação global
Quem está de olho nesse preocupante iceberg é o Instituto Francês de Miopia (IFM), um dos quatro únicos centros no mundo dedicados à condição e suas repercussões. A oftalmologista Elise Philippakis me conta, enquanto nos apresenta as instalações do serviço de atendimento e pesquisa em Paris, que a miopia já está associada a uma maior probabilidade de se encarar, com o envelhecimento, catarata, glaucoma, degeneração macular…
Algumas das maiores causas de perda de visão hoje. E isso é particularmente mais grave quando você faz parte do grupo de altos míopes, aqueles que passam dos 6 graus e correspondem a 10% dessa população que depende de lentes de contato ou óculos — é o meu caso!
“A chance de uma pessoa sem a condição ter descolamento de retina na vida é de 1%. Quando há miopia, sobe para entre 30 e 35%”, ilustra Georges Caputo, chefe de Oftalmologia do Hospital Fundação Rothschild, renomada instituição que é parceira do IFM. Em resumo, não se trata de algo inofensivo, que só turva o mundo à nossa volta, mas de algo capaz de provocar danos crônicos ou agudos aos globos oculares.

Mas por que tanta gente está precisando de óculos — e desde pequeno? “A genética continua contando, então filhos de pais míopes têm maior risco, mas o ambiente em que as crianças vivem mudou profundamente”, expõe Hopker. “Elas passam mais tempo em ambientes fechados, mais tempo em atividades que exigem visão de perto, mais tempo em telas, e menos tempo ao ar livre. É uma combinação que favorece o aparecimento e a progressão da miopia.”
A culpa não é inteiramente de computadores, tablets e celulares. “A questão toda gira em torno de concentrar a visão em textos e outros detalhes que demandam foco. E o que as telas fazem é exacerbar esse comportamento”, esclarece Olga Prenat, diretora de Relações Médicas e Profissionais da EssilorLuxottica.
Além disso, os cientistas estão descobrindo que a luz natural e a artificial estimulam de forma diferente a retina, o tecido no fundo do olho essencial à leitura das imagens e que também manda sinais para o globo ocular se desenvolver à medida que crescemos e amadurecemos — fenômeno que, quando sai do eixo, está na raiz da miopia e abre brechas aos problemas severos depois.
“Por tudo isso, estamos vendo hoje que há dois saltos no surgimento do distúrbio: na infância, a partir dos 6 anos, e depois entre o ensino médio e a vida universitária”, observa Dumas. A China, o país com mais míopes no mundo, não nos deixa mentir: oito em cada dez jovens ali já integram a estatística.
Soluções à vista
A medicina não só aprendeu com mais detalhes o que acontece com os olhos no desenrolar da miopia. Hoje ela se une aos departamentos de neurociências, óptica e engenharia para conseguir intervir nessa história. Saímos de um paradigma focado na correção dos graus e entramos numa era em que, com alguns dispositivos largamente estudados, é possível atenuar ou frear a progressão do quadro — algo que, se é feito na infância ou na adolescência, ajuda a poupar os dissabores que enfileiramos há algumas linhas.
É aí que saltam aos olhos soluções como as lentes para óculos com essa proposta. O mais recente lançamento no país, a Stellest 2.0, da EssilorLuxottica, é uma evolução de sua primeira geração, que, nas pesquisas de até sete anos de acompanhamento, demonstrou desacelerar em 67%, em média, o avanço do problema. “Revisões sistemáticas da literatura científica colocam esse tipo de lente entre os tratamentos mais eficazes hoje”, diz Prenat.
As lentes para óculos Stellest, indicadas a partir dos 6 anos de idade, possuem microesferas invisíveis a olho nu que, conforme seu contato com os raios luminosos, não só corrigem o ângulo em que serão decodificados no globo ocular como modificam o estímulo que chega à retina.
Assim, de uma tacada só, corrigem a dificuldade de ver de longe e cortam o mecanismo que faz o olho “crescer” além do que deveria — para isso, as crianças devem utilizá-las ao redor de 12 horas diariamente. Nessa direção, a versão 2.0, já disponibilizada no Brasil, duplica os “sinais” para deter a progressão do quadro.

Com a meta de garantir que os resultados sejam ainda mais satisfatórios, o grupo francês tem investido em linhas de armações desenhadas para otimizar a eficiência das lentes e até óculos inteligentes, que captam dados da rotina do usuário — um modelo futurístico já anunciado na China.
Por falar em armação, Alicia Thompson, diretora da Associação Britânica de Ópticos Prescritores, enfatiza o que deve guiar a escolha aos mais novos: “Não se trata de buscar óculos para miniadultos nem de comprar um maior para durar mais tempo e poupar dinheiro, como se faz com uniformes de escola”. O modelo adequado ao rosto da criança faz diferença na adesão às lentes e no efeito delas.
A EssilorLuxottica, claro, não é a única companhia a apostar nesse tipo de tecnologia. Outras empresas, como a alemã Zeiss e a japonesa Hoya, se dedicam a criar lentes especiais. É o caso da MiYOSMART iQ, do grupo sediado em Tóquio, que, em estudo realizado em Hong Kong, conseguiu interromper a progressão da miopia em nove de dez crianças que utilizaram o dispositivo durante um ano.
E, muito além das lentes para óculos, outras estratégias também estão na praça ou sendo testadas com esse objetivo. Já existem, por exemplo, lentes de contato de uso diário que, a um só tempo, corrigem o grau e a disfunção que está na gênese da miopia, assim como opções noturnas que, alocadas durante o sono, moldam temporariamente as estruturas oculares e dispensam os óculos nas manhãs seguintes — o efeito desaparece entre 48 e 72 horas depois de deixá-las de usar.
Mais um recurso que conta com evidências favoráveis, apesar das controvérsias na prescrição, é o colírio de atropina, um princípio ativo que, na infância, parece alterar os sinais na retina e segurar a tendência de alongamento do olho e piora da visão. Como se pode perceber, é um arsenal oftalmológico em expansão, que deve ser abordado nas consultas periódicas e indicado de acordo com o perfil do paciente.
Por ora, no entanto, os benefícios confirmados são restritos a crianças e adolescentes. Quanto mais cedo se consegue intervir, melhor. Em adultos como eu, o olho já está (de)formado, de modo que não seria possível remodelá-lo — pelo menos ainda!
“Nem mesmo a cirurgia de correção da miopia resolve esse problema”, afirma Philippakis. Nas operações a laser, geralmente prescritas quando o grau se estabilizou, é possível zerar ou reduzir a dificuldade visual, mas, de novo, os globos oculares já estão devidamente constituídos — não há mais margem de manobra para reverter o crescimento axial, como os experts denominam o alongamento.
Por essas e outras, o ponto crítico é detectar a miopia cedo. E, aí, entramos em outro desafio de saúde pública, sobretudo no Brasil.
Desafios no horizonte
Se não enxergarmos sequer a ponta do iceberg, não faremos nada para mudar a trajetória do navio. Sob essa perspectiva, a detecção precoce é um elemento decisivo não apenas para devolver uma visão clara a crianças e jovens como prevenir os perigos que se avizinham à medida que esse público envelhece.
Para Hopker, que é ex-presidente da Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica, existem dois principais obstáculos nas águas do país. “O primeiro é o diagnóstico tardio: muitas crianças chegam ao consultório quando a miopia já está em progressão há algum tempo”, diz. “E o segundo é a desigualdade no acesso ao acompanhamento especializado e às novas estratégias de controle.”
De acordo com a médica, quebrar a lógica puramente corretiva e adotar um olhar preventivo, inclusive tendo no horizonte os males que pegam carona na miopia, deveria ser uma prioridade. “É preciso identificar o problema cedo, acompanhar a evolução do grau e do comprimento do olho e orientar a família sobre novos tratamentos, quando eles forem pertinentes”, defende a médica paranaense.
O oftalmologista Rubens Belfort Neto, pós-doutor pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), concorda: “A conscientização das famílias é a ferramenta mais eficaz para enfrentar essa mudança no perfil da saúde ocular das novas gerações e garantir uma visão mais saudável no futuro”.
Como diagnosticar e prevenir o avanço da miopia
Mas, na prática, o que se pode fazer para flagrar transtornos ainda iniciais e mitigar intempéries futuras?
Comecemos pelo óbvio: os check-ups com o oftalmologista ainda na infância. “Com exames preventivos, especialmente por volta dos 3 e dos 5 anos de idade, conseguimos identificar precocemente alterações na visão”, ressalta Belfort Neto.
Mas, num país com lapsos de acesso a profissionais e pais que correm contra o tempo para prover os filhos, outro espaço que se torna essencial para reconhecer a miopia é a escola. “Ela é chave para o rastreamento. Se pudesse destacar uma estratégia para melhorarmos o quadro geral, seria justamente reforçar o papel das escolas na detecção e prevenção do problema”, afirma Balthazar Masurel, diretor global da Categoria de Miopia da EssilorLuxottica.
A ideia aqui não é meramente capacitar professores para suspeitar da condição — naquela cena clássica da criança que precisa sentar mais próxima à lousa para enxergar a lição. Mas levar às escolas especialistas e exames capazes de avaliar a vista e mensurar os graus.
Esse é o bem-sucedido exemplo chinês — um investimento que poderá poupar muito dinheiro gasto com a perda visual daqui a algum tempo. Alguns colégios no país até promovem iniciativas do gênero. Entretanto, a expansão, dentro de uma política pública, é necessária para resguardar a visão de crianças e jovens — no curto e no longo prazo.
Outra forma de afastar ou ao menos minimizar a miopia tem tudo a ver com o estilo de vida. Para começo de conversa, os mais novos devem ser estimulados a passar pelo menos duas horas ao ar livre por dia e controlar o tempo entre telas. “Pelas evidências atuais, sabemos que é melhor estudar em um ambiente externo, com luz natural, do que em ambientes fechados”, conta Coralie Barrau, chefe de pesquisa sobre Luz e Fotobiologia da EssilorLuxottica.
Não por acaso, a China (de novo!) testa modelos de escola com paredes de vidro. E entre televisão e celular, o que seria melhor — ou menos pior? “Estudos mostram que, se a criança assiste TV em casa, isso não aumenta a miopia. O problema é a chamada distância de trabalho para a visão. Ou seja, é o celular ou tablet na mão”, diz Belfort Neto.
Como vivemos, desde cedo, rodeados de aparatos eletrônicos, existe até um esquema prático de aliviar a sobrecarga dos olhos. “É a regra dos 20-20-20: a cada 20 minutos focado em uma tela, direcione o olhar para algo a 20 pés (6 metros) de distância por pelo menos 20 segundos”, ensina a oftalmologista Sarah Grünbaum, do Instituto Francês de Miopia.
Sob o calor de 40 graus que experimentei em Paris, aprendi que o distúrbio visual que me acompanha exige mais atenção do que imaginamos. Ao menos a ciência evolui para confrontá-lo antes que ele mesmo evolua. E, quem sabe, será possível contornar ou derreter esse iceberg à vista.

* O jornalista viajou a Paris a convite da EssilorLuxottica
