A Premier League caminha para um cenário de polarização em que poucos clubes conseguem de fato disputar o título. No programa “Futebol em Contexto”, da Trivela, os colunistas Tim Vickery e Allan Simon debateram como o domínio do Manchester City na era Guardiola, somado às limitações impostas pelas novas regras financeiras, criou um ambiente em que Arsenal e Liverpool aparecem como os únicos adversários reais na briga pelo topo, enquanto projetos ambiciosos como o do Aston Villa são freados antes de ameaçar a ordem estabelecida.
Poucos clubes conseguem disputar o título na Inglaterra
Simon trouxe o tema à mesa ao questionar se a previsibilidade do Campeonato Inglês pode afastar parte do público. “A Inglaterra contava com isso, com a competitividade, e já não está mais tanto. Temos um City que dominou na era Guardiola, agora não sabemos o que vai ser. Você tem um Liverpool e tem um Arsenal, e hoje é difícil imaginar um outro time que consiga, nesse momento que a gente está vivendo agora, romper com isso”, analisou o colunista.
O paralelo com o futebol brasileiro foi inevitável. Simon alertou que o fenômeno da concentração já se manifesta por aqui, com Palmeiras e Flamengo dominando as disputas nacionais, e que o mesmo tipo de desinteresse pode começar a atingir a liga inglesa. “O que vai ter de torcedor que não é flamenguista e que não é palmeirense se enchendo o saco do Brasileirão, assim funciona a vida. A Inglaterra está correndo esse risco”, declarou.
Manchester United ainda pode reagir, mas além dos grandes o cenário é difícil
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Questionado sobre a capacidade de reação de clubes tradicionais como Manchester United e Tottenham, Vickery reconheceu que o United mantém potencial justamente por sua grandeza estrutural. “Para ser tão ruim e tão mal dirigido quanto o United tem sido nos últimos anos, e ainda ficar na beira da briga, mostra que hoje em dia os grandes têm um teto. É difícil cair”, ponderou o jornalista inglês.
Vickery incluiu o Chelsea nesse grupo de clubes capazes de voltar ao protagonismo, mas ressalvou que a experiência recente do clube londrino foi marcada por decisões questionáveis. Segundo ele, o Chelsea “recebeu um susto” ao ser adquirido por americanos que trataram a operação como fundo de investimento, priorizando a compra de jovens jogadores para revenda. Para além desses três ou quatro nomes, porém, o colunista da Trivela enxerga pouco espaço para novos protagonistas.
Aston Villa expõe os limites do fair play financeiro
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O caso do Aston Villa foi tratado por Vickery como o exemplo mais claro de como as regras de controle financeiro podem funcionar como uma barreira que protege os já estabelecidos. O clube de Birmingham investiu pesado, conquistou a Liga Europa e se classificou para a Liga dos Campeões, mas foi obrigado a desmontar o elenco por extrapolar os limites orçamentários.
“O time que foi vitorioso em maio já não existe. O técnico, Unai Emery, vai ter que lutar com outros recursos agora”, lamentou Vickery, que classificou a situação como “meio triste” por considerar que seria positivo para o campeonato ter a segunda maior cidade do país representada na disputa pelos grandes títulos. Na visão do colunista, o regulamento financeiro por vezes age como “uma ladeira que você colocou para os grandes virarem grandes e tira para impedir a subida de outros”.
Novas regras de custo de elenco aprofundam o abismo
Simon trouxe dados concretos para ilustrar o debate. O novo sistema de controle de custos de elenco, aprovado por 14 votos a seis entre os clubes da Premier League, permite que as equipes gastem até 85% das suas receitas com o plantel. Já a proposta “Top to Bottom Earning”, que limitaria os gastos dos mais ricos a cinco vezes a receita do clube mais pobre, foi rejeitada por 12 votos.
Vickery completou o raciocínio com uma frase ácida sobre a mentalidade dos clubes menores que votaram contra a proposta que os beneficiaria. “O sonho existe. Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor. É mais ou menos isso que acontece”, resumiu.
As multas aplicadas pela Uefa por violação de custos de elenco também foram alvo de críticas. O Chelsea foi multado em 31 milhões de euros e o Aston Villa em 22 milhões, valores considerados irrisórios diante das receitas desses clubes.
